E CRISTO DESCEU Á MANSÃO DOS MORTOS

10-12-2013 17:36

«Um grande silêncio reina hoje sobre a terra; um grande silêncio e uma grande solidão. Um grande silêncio, porque o Rei dorme. A terra estremeceu e ficou silenciosa, porque Deus adormeceu segundo a carne e despertou os que dormiam há séculos [...]. Vai à procura de Adão, nosso primeiro pai, a ovelha perdida. Quer visitar os que jazem nas trevas e nas sombras da morte. Vai libertar Adão do cativeiro da morte. Ele que é ao mesmo tempo seu Deus e seu filho [...] "Eu sou o teu Deus, que por ti me fiz teu filho [...] Desperta tu que dormes, porque Eu não te criei para que permaneças cativo no reino dos mortos: levanta-te de entre os mortos; Eu sou a vida dos mortos"» (541).Antiga homilia para Sábado Santo: PG 43. 440.452.461 [ Sábado Santo, 2ª Leitura do Ofício de Leituras: Liturgia das Horas, s. 2 (Gráfica de Coimbra 1983) p. 454-4551.

Nosso Senhor Jesus Cristo para nos remir, padeceu no corpo e na alma os maiores suplícios. Podemos pelos Evangelhos, percorrer sua dolorosa Paixão e constatar que grande amor nos tinha Ele, para sofrer assim. Para satisfazer a grande ofensa feita à Deus, veio ao mundo para morrer como vítima eficaz e agradável, nos merecendo o perdão dos pecados. Para tanto desceu do céu, se encarnou no seio da Virgem Maria pelo poder do Espírito Santo, e não se prevalecendo de Sua igualdade com Deus, “se fez” homem,constituído de alma e corpo, - por conseguinte, possuiu tudo o que o homem pode possuir, exceto o pecado -, se fez escravo, obedecendo à santa vontade do Pai que era salvar os homens. Era homem perfeito sem pecado e Deus perfeitíssimo, por ser a segunda pessoa da Santíssima Trindade criadora, salvadora e santificadora. Uma pessoa com duas naturezas, uma divina e uma humana.  Verdadeiro Deus e verdadeiro Homem.

Foi no IV Concílio Ecumênico, conhecido como Concílio de Calcedônia (celebrado no ano 451), que a Igreja formalizou dogmaticamente esta verdade. Eis como os Padres Conciliares definiram as duas naturezas em Cristo (Sessão VI – 22/10/451):

“Seguindo, pois, os Santos Padres, unanimemente ensinamos que se deve confessar um só e mesmo Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, perfeito na Sua divindade e perfeito na Sua humanidade, verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem, [composto] de alma racional e de corpo; consubstancial ao Pai quanto à divindade, consubstancial a nós quanto à humanidade, “em tudo semelhante a nós, menos no pecado” (Heb 4,15); gerado do Pai antes dos séculos, segundo a divindade; e, nos últimos tempos, por nós e para a nossa salvação, [gerado] de Maria Virgem, Mãe de Deus, segundo a humanidade; que se deve reconhecer um só e mesmo Cristo Senhor, Filho Unigênito, em duas naturezas, sem confusão, imutáveis, indivisíveis, inseparáveis, de nenhum modo suprimida a diferença das naturezas por causa de sua união, mas salvaguardada a propriedade de cada natureza e confluindo numa só Pessoa e hipóstase, não separado ou dividido em duas pessoas, mas um só e mesmo Filho Unigênito, Deus-Verbo, Senhor Jesus Cristo, como outrora nos ensinaram sobre Ele os profetas e depois o próprio Jesus Cristo, e como nos transmitiu o símbolo dos Padres.”

 

Pela sua Paixão, Jesus livrou-nos do pecado, livrou-nos do demônio, reconciliou-nos com o Pai e abriu-nos o Céu. Por Ele, pelo seu sangue temos hoje confiança de entrarmos no Santo dos Santos (Hb 10,19)

 

Para nos remir, Jesus pela graça de Deus, experimentou a morte, conheceu portanto, o estado de separação entre a alma e o corpo, - nos diz a carta aos Hebreus, que no momento de sua morte, foi feito, um pouco inferior aos anjos, por ter-se humilhado e se rebaixado à dor do castigo e à morte, penas que não estão submetidos os anjos. Esta separação entre sua alma e seu corpo se deu durante o tempo compreendido entre o momento em que expirou na Cruz e o momento em que ressuscitou.

 

Neste período, seu corpo foi ao sepulcro, aquele em que José de Arimatéia e Nicodemos prepararam para sua dignidade (Jo19,38-42). Durante sua permanência no túmulo, a sua natureza divina continuou a assumir tanto a alma como o corpo, apesar de separados entre si pela morte. Por isso, o corpo de Cristo morto «não sofreu a corrupção» (At 13,37).Eis porque no sepulcro estava presente o Filho de Deus, o qual desceu também com a alma aos infernos.

 

«Embora Cristo, enquanto homem tenha sofrido a morte e a sua santa alma tenha sido separada do seu corpo imaculado, nem por isso a divindade se separou, de nenhum modo, nem da alma nem do corpo; e nem por isso a Pessoa única foi dividida em duas. Tanto o corpo como a alma tiveram existência simultânea, desde o início, na Pessoa do Verbo; e, apesar de na morte terem sido separados, nenhum dos dois deixou de subsistir na Pessoa única do Verbo» (São João Damasceno, Expositio fidei, 71 [De Fide orthodoxa 3, 27]. PTS 12, 170 (PG 94, 1098

O Catecismo Romano VI,b, nos diz claramente que Cristo foi sepultado, realçando o sepultamento de seu corpo. “Não cremos simplesmente que o Corpo de Cristo teve sepultura; mas confessamos antes de tudo que o próprio Deus foi sepultado. De maneira análoga dizemos em toda a verdade, e conforme a regra de fé católica, que foi Deus quem morreu, e quem nascera de uma Virgem. De fato assim como a Divindade nunca se apartou do corpo, quando encerrado no sepulcro, assim temos também toda a razão de confessar que Deus foi sepultado”

Todos os mortos antes da morte de Cristo, desciam aos infernos: os justos para o círculo exterior, chamado Limbo dos Patriarcas ou Sheol, em que sofriam a pena de dano (ausência de Deus), mas não a de sentido (o fogo corpóreo) – não sentiam dores propriamente dita, mas sentiam uma enorme angústia pela privação de Deus, que tanto anelaram em vida -; e os incrédulos ou réprobos, para o inferno propriamente dito, sofrendo ambas as penas e por isso estavam terrivelmente atormentados pelo rigor destas penas que sofriam.

 

Enquanto seu corpo jazia no sepulcro, sua alma foi a esta morada dos mortos para  pregar a todos os que ali jaziam. Livremente Ele vai buscar os que eram seus e que por ora, estavam cativos. Para entender porque estavam ambos justos e injustos nos infernos, precisamos saber que nosso pecado acarreta culpa e penas. A culpa foi paga por Cristo, mas as penas consistem além da morte do corpo, na punição da alma que estaria fadada a viver eternamente longe de Deus, ela que tem sede do Deus vivo. ( "...A pena do pecado original é a carência da visão de Deus; a pena do pecado atual é o tormento do inferno eterno..." - Papa Inocêncio III, na carta encíclica "Maiores ecclesias causas", a Imberto, arcebispo de Arles )

 

Enquanto Cristo não fosse ali para liberta-los, ficariam privados da glória de Deus. Quis Cristo morrer e descer aos infernos para carregar sobre si toda punição, mas o foi como livre que era. Os outros estavam como cativos do demônio, que tinha contra eles o documento que os condenava.

“Entre a Morte e a Ressurreição desceu a alma de Jesus Cristo aos Infernos. Não se trata aqui do Inferno onde estão os réprobos, nem do Purgatório, onde passam as almas que o sofrimento deve limpar das menores nódoas antes de entrarem no Céu. Os Infernos lembrados no 5º artigo do Símbolo é o lugar onde repousavam as almas dos justos falecidos na amizade de Deus: o Limbo, ou, na linguagem da Escritura, o “Seio de Abraão”. Ali nada tinham que padecer as almas. Fruíam, pelo contrário, uma espécie de ventura natural, mas não podiam ingressar no Céu antes que Jesus lhes abrisse a porta inexoravelmente trancada pelo pecado de Adão. A alma do Salvador permaneceu, pois, na companhia desses espíritos durante as horas que correram desde a sua Morte até a Ressurreição. Qual era o fim desta passagem de Cristo pelo Limbo? Certamente foi para anunciar aos justos que estava consumada a obra da Redenção e que breve, graças a ela, dariam entrada no Céu. Portanto mal transpõe a alma de Jesus Cristo os umbrais desses recessos, eis que o Limbo já está feito Paraíso, para todos os justos que a ovacionam e contemplam. Não prometera Cristo na Cruz ao bom Ladrão: ‘Hoje estarás comigo no Paraíso’? (Lucas, XXIII, 43). Quando saiu do Limbo a alma vitoriosa do Salvador, formaram-lhe uma comitiva real todos esses espíritos bem-aventurados, acompanhando-a na terra até a hora de Jesus subir triunfante aos Céus, onde introduziria todos os presos que tinha libertado. Para Jesus Cristo, era uma humilhação esta descida ao Limbo. Ia, Ele também, encarcerar-se no ergástulo dos patriarcas e dos justos. Mas, seria também o primeiro passo na estrada da glória com a libertação e a coroação dos primeiros eleitos.”(Boulanger – Doutrina Católica – O Dogma, 1923)

 

Jesus não desceu à mansão dos mortos para de lá libertar os condenados [1], nem para abolir o inferno da condenação [2],  - (Deus não predestina ninguém para o Inferno. Para ter semelhante destino, é preciso haver uma aversão voluntária a Deus (pecado mortal) e persistir nela até ao fim. Na liturgia eucarística e nas orações quotidianas dos seus fiéis, a Igreja implora a misericórdia de Deus, «que não quer que ninguém pereça, mas que todos se convertam» (2 Pe 3, 9).(Catecismo da Igreja Católica n.1037) - ; mas o fez unicamente - não  para sofrer penas, pois nunca houve n’ Ele pecado algum -,  com todo poder e magnitude, somente para libertar os seus amados, para libertar os justos que O tinham precedido [3].

“Os justos apesar de sua justiça e santidade, não podiam transpor o limiar da Pátria Celestial, antes da morte de Jesus Cristo, o Sumo e Eterno Sacerdote (Hb 9,11). Logo que Cristo a sofreu, as portas de pronto se abriram a todos os que purificados pelos sacramentos, possuídos de fé e caridade, se tornaram participantes da sua paixão". (Catecismo Romano 4º artigo – frutos – n.5)

 

Se Cristo tudo havia feito para os seus em vida, terminaria sua missão para com eles depois de mortos, para mostrar perfeitamente seu amor e seu poder. E o fez de forma explêndida, invadindo a casa do inimigo de Deus – do Seu inimigo -, e dos homens, o subjugando, e triunfando sobre ele. Despojando os principados e as potestades, exibiu-os publicamente, triunfando deles na cruz (Col 2,15). Jesus que era o Senhor do Céu e da Terra, é Senhor também dos infernos que diante de Seu nome se dobra em reconhecimento e temor.

Jesus venceu a morte, ela foi tragada por sua vitória e nos libertou das garras do demônio, autor da própria morte. Jesus morreu pra libertar os vivos da morte e  desceu aos infernos para libertar os que ai estavam. Vós também (Senhor), pelo Sangue do vosso testamento, tírastes os Seus que estavam presos na fossa, onde não havia água .. (Zac 9,11). – O morte, serei a tua morte, ó inferno, serei para ti como uma mordida. (Os 13,14).

A descida à mansão dos mortos é o cumprimento, até à plenitude do anúncio evangélico da salvação. É a última fase da missão messiânica de Jesus, fase condensada no tempo, mas imensamente vasta no seu significado real de extensão da obra redentora a todos os homens de todos os tempos e de todos os lugares, porque todos aqueles que se salvaram se tornaram participantes da redenção.

 

Após o terceiro dia, sua alma se uniu ao corpo e subiu aos Céu, onde está sentado a direita do Pai. Abriu os céus para o gênero humano, já que lá entrou na Sua humanidade. Desde agora, Cristo ressuscitado «detém as chaves da morte e do Hades» (Ap 1, 18) e «ao nome de Jesus todos se ajoelhem, no céu, na terra e nos infernos» (Fl 2, 10).

Queridos, alegremos no Senhor porque não nos deixa na ignorância quanto aos bens que Ele nos outorga. Este capítulo do Credo nos faz tremer e esperar n’ Ele. Tremer por saber que o inferno existe e é real e que muitas almas podem se perder caso estejam em pecado mortal. Esperar n’Ele, porque seu conhecimento nos enche de esperanças e só nos estimula a lutar na busca da santidade, sem o qual ninguém O verá  -, para um dia ao estarmos face a face com Ele, podermos louva-LO  juntamente com nossos irmãos que estiveram na mansão dos mortos, mas que agora reinam com Ele eternamente.

Jesus desceu do céu para ensinar as coisas do céu, também ressurgiu dos infernos para esclarecer-nos sobre as coisas do inferno, portanto nada de desfalecer, antes usemos desta vida, porque só a temos  para viver de fé,  para conhece - Lo, ama- Lo e obedece- Lo com seus auxílios, e que ninguém seja seduzido a ponto de  rejeita- Lo livremente, pois a pena é terrível, onde este haverá de viver eternamente longe d’Ele em grande suplícios, pelo mesmo tempo que viverão no céu, os que o amaram e esperaram n’Ele.

Como Cristo desceu aos infernos para libertar os seus, devemos também nós descer pela oração, para auxiliar os nossos. Eles, por si mesmos, nada podem conseguir.Nós é que devemos ir em socorro dos que estão no purgatório. São auxiliados, conforme disse  Santo Agostinho, os que estão no purgatório, principalmente por três atos: pelas Missas, pelas orações e pelas esmolas.  São Gregório acrescenta um quarto: o jejum. Como cristãos devemos rezar para que todos possam um  dia estar com Ele na glória eterna. Unano-nos a Cristo por eles e que o Senhor nos ajude a sermos féis, tal como Ele é.

"A mim, e desejo que o mesmo aconteça a todos vós, a certeza de me sentir - de me saber - filho de Deus cumula-me de verdadeira esperança, uma esperança que, por ser virtude sobrenatural, ao ser infundida nas criaturas, se amolda à nossa natureza e é também virtude muito humana.? Vivo feliz com a certeza do Céu que havemos de alcançar, se permanecermos fiéis até o fim; com a ventura que nos chegará quoniam bonus, porque o meu Deus é bom e é infinita a sua misericórdia. Esta convicção incita-me a compreender que só as coisas marcadas com o timbre de Deus revelam o sinal indelével da eternidade; e o seu valor é imperecível. Por isso, a esperança não me separa das coisas desta terra, antes me aproxima dessas realidades de um modo novo, cristão, que se esforça por descobrir em tudo a relação da natureza, decaída, com Deus Criador e com Deus Redentor."( ESCRIVÄ, São Josemaria, amigos de Deus – A esperança Cristã – ponto 208)

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[1] (Cf. Concílio de Roma (ano 745), De descensu Christi ad inferos: DS 587.)

[2] (Cf. Bento XII, Libellus, Cum dudum (1341). 18: DS 1011; Clemente VI, Ep. Super quibusdam (ano 1351), c. 15, 13: DS 1077)

[3] (Cf. IV Concílio de Toledo (ano 633). Capitulum, 1: DS 485; Mt 27, 52-53.).

Fonte: Sociedade Católica:

http://www.sociedadecatolica.com.br/modules/smartsection/item.php?itemid=520