INTERVENÇÃO DE DOM MANUEL CLEMENTE INTRODUÇÃO AO PROGRAMA DIOCESANO 2014 - 2015

INTERVENÇÃO DE DOM MANUEL CLEMENTE INTRODUÇÃO AO PROGRAMA DIOCESANO 2014 - 2015

Caríssimos diocesanos


Em Domingo da Santíssima Trindade, celebramos o Dia da Igreja Diocesana, na etapa conclusiva do ano pastoral e anunciando já o próximo.

Fazemo-lo neste Domingo, que nos concentra no essencial da fé cristã, retomando-nos no amor criador do Pai, na vida que nos proporciona em Cristo e no amor do Espírito, que nos faz participar da convivência divina. A revelação do Deus uno e trino é fundamental para compreendermos a verdade da Igreja, como união de vários, e o destino do mundo na comunhão de todos. Para partirmos sempre daqui e aqui mesmo chegarmos: a unidade não é o isolamento, mas a comunhão.

No momento atual, é particularmente necessário que a Igreja diocesana e todas as realidades eclesiais que nela se localizam (paróquias, institutos religiosos e seculares, associações e movimentos) aprofundem em si mesmas esta comunhão básica e expansiva, que explica o ser Igreja e o seu dever ser para o mundo, como sinal e instrumento da comunhão a realizar. Na situação sociocultural que vivemos e tantos particularmente sofrem, redobra a importância do que nos disse o Concílio Vaticano II, num trecho nunca por demais citado: «A luz dos povos é Cristo: por isso, este sagrado Concílio, reunido no Espírito Santo, deseja ardentemente iluminar todos os homens com a sua luz que resplandece no rosto da Igreja, anunciando o Evangelho a toda a criatura, e […] propõe-se declarar, com maior insistência, aos seus fiéis e ao mundo inteiro, a natureza e a missão universal da Igreja que, em Cristo, é como que o sacramento ou sinal e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o género humano». E o Concílio continua, com uma afirmação que, cinquenta anos depois, ainda parece mais atual e premente: «As condições deste tempo tornam maior a urgência deste dever da Igreja, a fim de que todos os homens, hoje mais intimamente unidos por toda a espécie de vínculos sociais, técnicos e culturais, alcancem a unidade total em Cristo» (Lumen Gentium, 1).

Na continuação do Ano da Fé, dedicámos a programação diocesana de 2013 – 2014 à sua decorrência obrigatória, com o lema paulino «a fé atua pela caridade». Agradecendo ao Departamento da Pastoral Sociocaritativa a ação despendida para reforçar na diocese esta dimensão essencial e permanente duma vida “cristã” propriamente dita, estou certo de que nada se perderá do impulso recebido e tudo se fará para o manter vivo e ativo nas comunidades e instituições.

As grandes dificuldades que persistem na sociedade portuguesa, no campo socioeconómico e do trabalho, levam-nos a redobrar os esforços para estarmos presentes e solidariamente comprometidos. É muito especialmente aí que nos revelamos e oferecemos como Igreja de Cristo, e seu “corpo” ativo ao serviço dos pobres.

O ser e o acontecer da Igreja no mundo e para o mundo constituem o ponto essencial de reflexão e celebração neste Dia da Igreja Diocesana e igualmente da caminhada sinodal que iniciamos. Com o programa - calendário diocesano agora distribuído, vai também o “guião zero”, com a informação necessária sobre os objetivos e os métodos dessa caminhada, que a todos empenhará até ao final de 2016, data em que se comemoram três séculos da qualificação patriarcal de Lisboa - ligada então, pelo Papa Clemente XI, ao esforço na propagação da fé.

Agradeço à comissão preparatória do Sínodo Diocesano o trabalho feito e agora oferecido com este guião, bem como os guiões que se seguirão, trimestre a trimestre, para apoiar a reflexão e ensaio que, sem dispensar o compromisso geral e de cada um, passarão necessariamente pelas comunidades cristãs da Diocese.

Na verdade, é o próprio Papa Francisco, grande motivador do caminho que seguiremos, a indicar o objetivo e a base da ação. Quanto ao primeiro, expressa-se como «sonho missionário de chegar a todos» (Evangelii Gaudium, 31). Quanto à segunda, escreve também: «Cada cristão e cada comunidade há de discernir qual é o caminho que o Senhor lhe pede, mas todos somos convidados a aceitar esta chamada: sair da própria comodidade e ter a coragem de alcançar todas as periferias que precisam da luz do Evangelho» (EG, 20).

A vários níveis se levará por diante tal desiderato. Na sequência do que vos disse na Missa Crismal deste ano, o caminho sinodal percorrerá capítulo a capítulo e tempo após tempo, a exortação apostólica do Papa Francisco, juntando reflexão e ensaio missionário. Surgirão novidades certamente. Mas o mais que se fará é alargar criativamente o âmbito e a incidência do que normalmente se faz, pessoalmente e nas famílias, nas comunidades e nos departamentos diocesanos, para chegar mais longe no anúncio evangélico e mais fundo no seu alcance.

Ao Papa, que tem este desígnio tão entranhado que lhe brotam constantemente as referências, devemos não só a indicação mas também a  sugestão de como senti-la e ativá-la. Incluo apenas algumas referências mais próximas, particularmente motivadoras para o nosso caminho sinodal (cf. L’Osservatore Romano, edição portuguesa, 22 de maio de 2014, p. 10-11):

Como quando fala da transcendência da evangelização, enquanto saída de si próprio, em movimento interior para Deus e exterior para os outros: «Para mim, a evangelização exige sair de si mesmo; requer a dimensão do transcendente: o transcendente na adoração de Deus, na contemplação, e o transcendente para com os irmãos, para com o povo. Sair de si, sair!».

Explicitando depois o que entende por esta “saída”: «Sair significa chegar, ou seja, proximidade. Se não saíres de ti mesmo, não terás proximidade! Proximidade, estar próximo das pessoas, próximo de todos aqueles de quem devemos estar próximos».

Saída que tem como alvo as periferias, palavra que o Papa repete insistentemente: «Outra categoria que gosto de usar é das periferias. Quando se sai não se deve chegar só a meio caminho, mas ir até ao fim. Alguns dizem que se deve começar a evangelização pelos mais distantes, como fazia o Senhor…».

Julgo que estas duas palavras – saída e periferias – podem e devem caracterizar todo o nosso caminho sinodal. A saída em relação a Deus, na oração, e a saída em relação aos outros, na ação, estimulam-se mutuamente, pois quem se aproxima de Deus descobre e aprofunda o amor divino por todas as suas criaturas, isso mesmo que é a caridade. Não caminharemos em sínodo, se não ligarmos oração e ação, mais e mais, como em Jesus acontecia totalmente, sempre com o Pai e sempre para os outros.

As periferias como alvo, também se tornam critério principal. - Na minha família, no meu prédio, na minha rua, quem está mais só, mais afastado ou esquecido? – Na minha escola, na minha empresa, seja onde for, quem está mais isolado, menos acompanhado ou pouco atendido? – Na sociedade, na economia, na cultura, quem está mais “longe” da verdade evangélica das coisas, por omissão sua ou nossa?

Não há neste ponto hipótese alguma para recuos ou alheamentos. Vale especialmente aquela reflexão de Paulo VI, num documento que continua a ser fundamental para a missão e a nova evangelização: «Não deixaria de ter a sua utilidade que cada cristão aprofundasse na oração este pensamento: os homens poderão salvar-se por outras vias, graças à misericórdia de Deus, se nós não lhes anunciarmos o Evangelho; mas nós poder-nos-emos salvar se, por negligência, por medo ou por vergonha, […] ou por se seguirem ideias falsas, deixarmos de o anunciar?» (Exortação apostólica Evangelii Nuntiandi, 80).

Caríssimos diocesanos de Lisboa: Iniciemos a caminhada sinodal com a convicção reforçada de que passa por cada um de nós, no variado ser e acontecer da Igreja de Cristo, a resposta de Deus a este mundo que tanto sofre, mas sempre espera. Redescubramo-nos eclesialmente em Maria, que se dispôs a dar-nos Cristo, em plena confiança n’Aquele que faz maravilhas na humildade de quem O serve.

 

+ Manuel Clemente, patriarca de Lisboa

15 de junho de 2014

 

fonte: http://www.patriarcado-lisboa.pt/site/index.php?cont_=40&id=3896&tem=301