A CULTURA DO PODER - A FORÇA SEM LIMITES

A CULTURA DO PODER - A FORÇA SEM LIMITES

193. Um elemento decisivo do panorama atual é o crescimento da indústria bélica, que se tornou um setor-chave na economia de alguns países. A estreita ligação entre interesses económicos, aparatos militares e decisões políticas gera uma “nação armada”, na qual a guerra parece quase uma continuação natural da política e o mercado das armas torna-se motor autónomo de escolhas bélicas. Não podemos ignorar os enormes interesses económicos que estão por trás da guerra. As indústrias de armamento e os países que fornecem armas lucram com um mercado que prospera precisamente graças aos conflitos. Neste sentido, existe também uma lógica económica que contribui para alimentar tensões em diversas regiões do mundo.

 

194. Os arsenais militares usufruem duma nova atenção. No passado, o reconhecimento da ameaça representada por armas capazes de destruir toda a humanidade tinha favorecido vias de distensão e de negociação em matéria de desarmamento. Infelizmente, afastámo-nos deste horizonte e a evolução dos arsenais nucleares – incluindo a possibilidade de utilização “tática” – faz com que o recurso a tais engenhos pareça uma possibilidade cada vez menos remota. Nessas circunstâncias, a entrada em vigor, em 2021, do Tratado sobre a proibição de armas nucleares, apoiado por mais de setenta países, representa um sinal importante, mas corre o risco de permanecer em grande parte simbólico, uma vez que as principais potências nucleares não aderem ao mesmo. Assim, difundiu-se a convicção – errada – de que a dissuasão nuclear é uma condição indispensável para a segurança, cujo resultado é alimentar uma nova e pouco controlável corrida ao armamento, acompanhada pelo desmantelamento progressivo dos acordos de redução das armas nucleares e pelo desenvolvimento de engenhos “miniaturizados”, que tornam mais fácil considerar o seu uso como uma opção viável.

 

195. A mesma lógica verifica-se nos conflitos convencionais: a força militar, a fraqueza das iniciativas diplomáticas e a complexidade dos interesses em jogo favorecem conflitos que tendem a tornar-se crónicos, com um custo humano e ambiental extremamente elevado. É muito mais fácil iniciar uma guerra do que terminá-la e, no entanto, a reflexão sobre a prevenção de conflitos continua a ser dramaticamente marginal.

 

196. O cenário torna-se ainda mais instável com a presença de novos protagonistas armados – grupos jihadistas, milícias privadas, redes criminosas – que marcam o fim do monopólio estatal da força. Frequentemente, eles combinam vagas motivações ideológicas com interesses económicos muito concretos, transformando a guerra num verdadeiro modo de viver para gerações inteiras de jovens e crianças: o objetivo já não é uma vitória definitiva, mas a perpetuação do conflito como fonte de poder e rendimento.

 

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