MAGNIFICA HUMANITAS

MAGNIFICA HUMANITAS

OPÇÃO DESTE SITE: 

CARTA ENCÍCLICA

MAGNIFICA HUMANITAS

DO SANTO PADRE

LEÃO XIV

SOBRE A SALVAGUARDA DA PESSOA HUMANA

NA ERA DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

 

INTRODUÇÃO

 

1. A Magnífica Humanidade criada por Deus encontra-se hoje perante uma escolha decisiva: erguer uma nova torre de Babel ou construir a cidade onde Deus e a humanidade habitam juntos. Cada geração recebe em herança a tarefa de dar forma ao seu tempo: de fazer amadurecer a história como um lugar onde a dignidade de cada pessoa seja salvaguardada, a justiça promovida e a fraternidade possibilitada. Sobre cada época, porém, paira o risco de construir um mundo desumano e mais injusto. Ali onde a humanidade corre o perigo de perder a sua identidade, nós, cristãos, erguemos os olhos para o Deus feito carne, sabendo que «o mistério do homem só no mistério do Verbo encarnado se esclarece verdadeiramente». Em Jesus Cristo, esta magnífica humanidade torna-se o Caminho, a Verdade e a Vida, abrindo a cada um de nós a via para crescermos até à plenitude.

 

2. Alicerçados em Cristo, a pedra viva, experimentamos a poderosa e misteriosa ação do Espírito Santo e acreditamos que todo o autêntico esforço humano de cooperar com Ele para o bem será abençoado pelo Pai celeste, no qual depositamos a nossa esperança. Por isso, com determinação, podemos contribuir em todas as iniciativas que constroem um mundo mais justo e convidar outros a colaborar conosco na promoção do desenvolvimento integral de cada ser humano. Desejamos entrar em diálogo com todos os homens e mulheres do nosso tempo, com os quais partilhamos os acontecimentos, as questões e as aspirações da humanidade. Com eles, queremos individuar novos caminhos para o bem comum e a promoção de uma vida digna para todos. Essa atitude de diálogo é parte integrante da vocação da Igreja, pois ela, constituída «em Cristo, é como que o sacramento […] da íntima união com Deus e da unidade de todo o género humano», reconhece a história como o lugar onde o Evangelho interpela e acompanha a experiência humana.

 

3. Com esse espírito, Leão XIII publicou, em 1891, a Encíclica Rerum novarum, cujo 135º aniversário celebramos este ano com viva gratidão. O meu amado Predecessor deu impulso, com este documento, àquela reflexão sobre a sociedade, a economia e a política a que hoje chamamos “Doutrina social da Igreja”. E quando alguns contestavam que a Igreja não devia desperdiçar energias em questões mundanas, mas preocupar-se em comunicar uma mensagem de vida eterna, ele respondia com realismo e sabedoria que o anúncio do Evangelho não pode esquecer a vida concreta dos povos. Passaram-se muitas décadas desde então, e o Magistério, os pastores, os teólogos e os fiéis continuaram a refletir sobre as questões sociais à luz do Evangelho. Hoje, a Doutrina social da Igreja é um património de sabedoria, onde encontramos princípios para pensar, critérios para discernir e julgar, orientações concretas para agir. Ela baseia-se na Sagrada Escritura e na Tradição e, em diálogo com as ciências, ajuda-nos a ler os desafios do presente com lucidez, identificando caminhos adequados para viver, com alegria e ao serviço do mundo, um límpido testemunho cristão. Não se trata dum conjunto estático de conceitos, mas dum corpus vivo de verdades, que preserva e interpreta a vocação da humanidade à vida plena e justa. Desejo, portanto, juntar a minha voz a esta tradição viva, invocando a ajuda do Espírito de sabedoria, que habita o mundo desde os seus primórdios (cf. Pr 8, 22-31).

 

AS RES NOVAE DO NOSSO TEMPO

 

4. Se, na sua época, Leão XIII falava de «novas questões» ( rerum novarum), hoje não podemos simplesmente repetir os seus preciosos ensinamentos, mas devemos pedir a Deus a sabedoria para interpretar as grandes tendências do nosso tempo, em particular os progressos da técnica. Nos últimos anos, tornou-se cada vez mais evidente o quão rápida e profundamente a digitalização, a inteligência artificial (IA) e a robótica estão a transformar o nosso mundo. A técnica não deve ser considerada, em si mesma, como uma força antagónica em relação à pessoa: pelo contrário, está enraizada na nossa história desde o início, na medida em que é «um dado profundamente humano, ligado à autonomia e à liberdade do homem». Ao longo dos séculos, o desenvolvimento tecnológico contribuiu para uma melhoria significativa das condições de vida da humanidade; ao mesmo tempo, cada fase do progresso também revelou o lado ambíguo de instrumentos que, quando não orientados para o bem, são capazes de causar danos. Hoje, no entanto, estamos diante de uma situação nova, em que o poder e a disseminação das tecnologias emergentes se inserem no curso da vida quotidiana, moldam os processos de decisão e incidem profundamente no imaginário coletivo: «Nunca a humanidade teve tanto poder sobre si mesma». As novas tecnologias abrem um horizonte alargado em direções que, embora imagináveis, não podemos ainda antever plenamente. Isto torna mais complexo avaliar o seu impacto, bem como os efeitos a longo prazo sobre a dignidade das pessoas e o bem comum.

 

5. Cabe-nos agora enfrentar, com lucidez e responsabilidade, os desafios do nosso tempo. É necessário adotar instrumentos normativos adequados, capazes de salvaguardar a justiça e de conter os efeitos nocivos do poder tecnológico. Mas a questão não se esgota na regulamentação. Como alertou o Papa Francisco, devemos perguntar-nos com realismo quem detém hoje este poder e para que fins o orienta: «Não podemos, porém, ignorar que a energia nuclear, a biotecnologia, a informática, o conhecimento do nosso próprio DNA e outras potencialidades que adquirimos […] dão, àqueles que detêm o conhecimento e sobretudo o poder económico para o desfrutar, um domínio impressionante sobre o conjunto do género humano e do mundo inteiro». Outrora, eram sobretudo os Estados a orientar e a dirigir a inovação. Hoje, pelo contrário, os principais motores do desenvolvimento são sujeitos privados, frequentemente transnacionais, dotados de recursos e capacidades de intervenção superiores aos de muitos Governos. O poder tecnológico assume, destarte, uma identidade inédita, predominantemente “privada” e, portanto, ainda mais difícil de discernir, gerir e orientar para o bem comum.

 

6. Assim, é preciso iniciar um discernimento partilhado, capaz de penetrar nas raízes espirituais e culturais das transformações em curso. Se nos limitarmos às contingências, corremos o risco de deixar que uma série de emergências decida, em nosso lugar, a direção do caminho. Estamos a viver uma rápida fase de transição, uma “mudança de época” em que, enquanto alguns disputam o futuro das novas tecnologias e outros se dedicam à reflexão sobre elas, a maioria das pessoas permanece a aguardar, observa de longe, simplesmente esperando que tudo corra bem. Exatamente por isso, impõem-se à nossa consciência questões decisivas, que não podem já ser evitadas: Para onde vamos? Para que meta desejamos orientar-nos? Que direção escolher enquanto comunidade humana e enquanto povos?

 

DUAS IMAGENS BÍBLICAS

 

7. Para responder a estas questões e discernir como viver com responsabilidade a era da inteligência artificial, gostaria de evocar duas imagens bíblicas: a da edificação da torre de Babel (cf. Gn 11, 1-9) e a da reconstrução das muralhas de Jerusalém (cf. Ne 2-6). No livro do Génesis, o relato de Babel situa-se nas origens da humanidade, imediatamente após as genealogias dos filhos de Noé. Os seres humanos, tendo-se estabelecido na planície de Senaar, decidem construir uma cidade e uma torre «cujo cimo atinja os céus» (Gn 11, 4). Pretendem, assim, obter estabilidade e poder e, sobretudo, tornarem-se “famosos”, temendo ser dispersos pela terra. A empresa mostra-se imponente: uma única língua, uma única tecnologia, uma única direção. Todavia, o projeto esconde uma profunda insídia: é uma obra pensada sem referência a Deus, sustentada por uma uniformidade que elimina a diversidade e que, em vez da comunhão, opta pela homogeneização. Quando a cidade se edifica sobre o orgulho e a pretensão de se bastar a si mesma, a comunicação é interrompida, as línguas confundem-se e os seres humanos deixam de se compreender. O resultado não é a unidade, mas a dispersão. Deste modo, Babel revela o limite de qualquer construção, ainda que grandiosa, surgida da absolutização do humano e da sua pretensão de autossuficiência, do sacrifício da dignidade das pessoas em nome da eficiência e da ambição de alcançar o céu sem a bênção de Deus.

 

8. O livro de Neemias, por sua vez, começa num momento de grande vulnerabilidade na história do antigo Israel. Após o exílio babilónico, uma parte do povo regressou a Jerusalém, mas a cidade continua devastada, com as muralhas ainda em ruínas e as portas consumidas pelo fogo (cf. Ne 1-2). Neemias, um judeu ao serviço do rei persa Artaxerxes, recebe a notícia do estado desastroso da cidade dos seus pais. Antes de agir, jejua, reza e intercede pelo povo; depois, pede ao rei permissão para regressar a Jerusalém e, ao chegar ao destino, examina em silêncio os lugares destruídos. Não impõe soluções vindas do alto: convoca as famílias, confia a cada uma delas uma parte da muralha para reconstruir, ouve os receios, coordena os esforços, enfrenta as oposições. O relato mostra como a cidade renasce não graças à iniciativa de uma única pessoa, mas através da responsabilidade partilhada por todo o povo: sacerdotes, artesãos, chefes de família, mulheres e jovens. É uma obra que tem Deus no centro e que reconstrói as relações antes mesmo das pedras. Com efeito, a antiga Jerusalém reencontra uma linguagem comum, não a da uniformidade, mas a da comunhão: a harmonia que brota quando cada um assume a própria responsabilidade e todo o povo reconhece que a sua força provém do Senhor.

 

9. À luz destas duas imagens, o Espírito Santo interpela-nos hoje sobre a nossa relação com a técnica e com a revolução digital em curso. As descobertas científicas são um dom concedido à humanidade para que esta o faça frutificar (cf. Mt 25, 14-30). A tecnologia pode curar, conectar, educar, cuidar da Casa comum; mas também pode dividir, descartar, gerar novas injustiças. Na teoria, em si mesma, ela não é uma solução para os problemas da humanidade, assim como não é, em si mesma, um mal; todavia, na prática, não é neutra, porque tem o rosto daqueles que a concebem, financiam, regulam e utilizam. Por isso, a primeira escolha não é entre um “sim” ou um “não” à tecnologia, mas entre edificar Babel ou reconstruir Jerusalém: entre um poder que pretende dominar o céu ou um povo que unido, na presença de Deus, começa o trabalho de reerguer os muros da convivência fraterna.

 

10. Evitemos, portanto, a “síndrome de Babel”: a idolatria do lucro, que sacrifica os mais fracos; a uniformidade, que anula as diferenças; a pretensão de uma linguagem única – mesmo digital – dedicada a traduzir tudo em dados e desempenhos, inclusive o mistério da pessoa. Este é o risco da desumanização: construir o futuro excluindo Deus e reduzindo o outro a um meio; uma tentação tão antiga e tão nova, que hoje assume também uma faceta técnica. Pelo contrário, escolhamos o “caminho de Neemias”, que destaca o valor do trabalho conjunto para garantir a segurança da cidade de Deus aos exilados que regressavam. Reconstruir hoje significa reconhecer, na pluralidade de vozes e visões que por vezes lembra a dispersão das línguas, a existência duma possibilidade luminosa: a de edificar juntos, transformando a diversidade num recurso e fazendo da escuta e do diálogo o terreno comum no qual crescem a justiça e a fraternidade. No âmbito desta obra partilhada, os cristãos encontram a sua forma específica de construir: orientar a ação para Deus, de modo que, à sua luz, o pluralismo não se disperse na desordem, mas, pela prática da sinodalidade, se torne o lugar onde a humanidade reencontra os seus sólidos alicerces e o seu fim último. No Apocalipse, João vê a nova Jerusalém «descer do céu, de junto de Deus» (Ap 21, 2) como um dom para toda a humanidade. Esta visão de graça constitui, para nós cristãos, um apelo a trabalhar juntos, cultivando uma coexistência pacífica, justa e digna nas “cidades” de hoje.

 

CONSTRUIR NO BEM

 

11. Construir uma cidade orientada para o bem comum exige, em primeiro lugar, edificar sobre a rocha da relação com Deus. Reconhecer que a verdade do seu amor nos chama a uma vida «em abundância» ( Jo 10, 10) e à comunhão com Ele. Também nós podemos dizer com Santo Agostinho: «Nos criastes para Vós e o nosso coração vive inquieto, enquanto não repousa em Vós». Na verdade, Deus gravou no nosso coração um desejo de felicidade, que envolve todas as dimensões da vida, e a Igreja, no diálogo com os homens e as mulheres do nosso tempo, sente a urgência de guardar e orientar essa aspiração rumo à sua verdade mais profunda.

 

12. Em segundo lugar, edificar no bem significa aceitar os limites e a fragilidade da humanidade, sem os considerar um erro a corrigir. Hoje, o desejo de plenitude do ser humano corre o risco de ser desviado para objetivos enganadores: a ilusão duma técnica que promete libertar-nos de toda fragilidade ou modelos de bem-estar que “deixam para trás” povos inteiros. Não raro, depositamos a esperança num aperfeiçoamento sem limites, em formas de progresso que podem exacerbar as desigualdades, em soluções imediatas incapazes de curar as feridas dos povos. Então, enquanto alguns perseguem a quimera de uma autoafirmação ilimitada, muitos continuam sem o essencial. A Igreja recorda – com voz humilde, mas firme – que a verdadeira realização não nasce da supressão das fragilidades, mas de um crescimento harmonioso: onde a liberdade e a responsabilidade se entrelaçam com o cuidado recíproco e a verdadeira solidariedade, e onde o progresso se mede pela dignidade de cada um e pelo bem dos povos.

 

13. Construir um mundo onde todos possam “florescer” exige, em terceiro lugar, uma corresponsabilidade corajosa. Nenhuma mão, sozinha, é suficiente para aguentar o peso dos desafios que assolam o mundo; e nenhuma mão é tão fraca que não possa dar o seu contributo: «A força manifesta-se na fraqueza» (2 Cor 12, 9). A cada um o seu pedaço da muralha: cientistas e estudiosos, empresários e trabalhadores, educadores e legisladores, sociedade civil, movimentos populares e comunidades de fé. Esta é a lógica da subsidiariedade, que valoriza a cooperação entre gerações, povos, disciplinas e culturas como caminho principal para fazer crescer a estabilidade, a prosperidade e a paz. As tensões e as diferenças não devem intimidar, pois, quando orientadas por uma responsabilidade comum, podem tornar-se forças criativas.

 

14. Por fim, edificar no bem exige uma linguagem evangélica. Evitemos palavras que humilhem ou criem oposições. Escolhamos a clareza que ilumina e a franqueza que abre caminhos. Não abençoemos entusiasmos ingénuos, não alimentemos medos estéreis. Em vez disso, indiquemos critérios de discernimento – dignidade da pessoa, destinação universal dos bens, opção pelos pobres, cuidado da Casa comum, paz – e transformemo-los em ações: planeamento responsável, avaliações de impacto humano e social, inclusão dos mais frágeis, alfabetização digital, pesquisa e indústria orientadas para a justiça e a paz.

 

PERMANECER HUMANOS

 

15. No recente Jubileu Ordinário de 2025, caminhámos como peregrinos da esperança e fomos cumulados de graças. Fortalecidos por estes dons, podemos avançar com ânimo confiante perante as árduas tarefas e os exigentes desafios que se apresentam no nosso futuro. Na era da inteligência artificial, em que a dignidade humana corre o risco de ser ofuscada por novas formas de desumanização, temos o dever urgente de permanecer profundamente humanos, salvaguardando com amor essa magnífica humanidade, que nos foi plenamente dada e manifestada em Cristo, e que jamais alguma máquina poderá substituir no seu esplendor. O verdadeiro progresso nasce sempre de um coração aberto ao outro, de uma inteligência disponível para ouvir, de uma vontade que procura mais o que une do que o que separa.

 

16. A todos os fiéis católicos, a todos os cristãos, a todos os homens e mulheres de boa vontade, dirijo um sentido apelo: não tenhamos medo de sujar as mãos no canteiro de obras do nosso tempo. Como Neemias, rezemos, planifiquemos com sabedoria, trabalhemos com perseverança, recolocando Deus no horizonte do nosso agir e o ser humano no centro das nossas escolhas. Então, as pedras rejeitadas – os pobres, os doentes, os migrantes, os pequenos – tornar-se-ão a pedra angular, e na terra erguer-se-á uma sólida e acolhedora morada comum, onde o amor e a verdade finalmente se encontrarão e a justiça e a paz se beijarão (cf. Sl 85, 11). Esta é a bênção que imploramos de Deus e a tarefa que nos espera: ser construtores de comunhão, não arquitetos de Babel; servos do Reino que vem, não senhores de torres destinadas a ruir. E, com espírito de pastor e pai, peço a todos que pareis a construção da enésima Babel, congregando forças para edificar no bem, a fim de que a humanidade nunca perca a própria beleza e o mundo possa reconhecer mais uma vez, no coração do ser humano, o lugar onde Deus deseja habitar.

 

17. Neste primeiro capítulo, pretendo percorrer, resumidamente, o caminho através do qual a Doutrina social da Igreja tomou forma no recente Magistério dos Papas e do Concílio Vaticano II, a fim de destacar o seu caráter dinâmico. Realmente, em todas as épocas, as res novae impulsionam este ensinamento a confrontar-se com as interrogações da história à luz da Verdade revelada. Também a inteligência artificial, por isso, deve ser entendida não como um apêndice temático, nem como uma emergência a gerir, mas como uma transformação que interpela, a partir de dentro, as categorias da Doutrina social, exigindo o seu desenvolvimento na fidelidade ao Evangelho.

 

18. No entanto, este itinerário seria verdadeiramente incompreensível se, antes de nos debruçarmos sobre o contributo de cada um dos Pontífices e sobre os documentos mais relevantes, não aclarássemos algumas convicções fundamentais sobre o modo como a Igreja está presente na história e se relaciona com o mundo. Sem tal esclarecimento, a Doutrina social correria o risco de parecer uma ingerência indevida em questões temporais ou um código ético externo a ser aplicado de cima para baixo. Na realidade, ela nasce de uma Igreja que caminha com a humanidade, reconhece a autonomia das realidades terrenas e a distinção entre comunidade eclesial e comunidade política e, precisamente por isso, aspira a servir o bem comum.

 

MH*

UMA IGREJA QUE CAMINHA NA HISTÓRIA DA HUMANIDADE

19. A Igreja, presente no mundo como sinal de unidade para toda a família humana, reconhece nas questões e nos desafios do tempo atual o lugar onde deve exercer a própria vocação à escuta, ao diálogo e ao serviço, deixando-se interpelar por tudo o que diz respeito à existência dos homens e das...

SABEDORIA DA PALAVRA E DIÁLOGO COM AS CIÊNCIAS HUMANAS

23. A Igreja considera todos os que procuram sinceramente «a verdade, a bondade e a beleza» como companheiros de caminho, tendo-os como «preciosos aliados» na defesa da dignidade de cada pessoa e no cuidado da criação. Assumindo o estilo pastoral do Concílio Vaticano II – que convida a ouvir,...

A DOUTRINA SOCIAL COMO DISCERNIMENTO COMUNITÁRIO

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A EVOLUÇÃO DO MAGISTÉRIO SOCIAL DESDE LEÃO XIII AOS DIAS DE HOJE

28. Depois de ter recordado a forma como a Igreja está presente na história e dialoga com o mundo, desejo agora debruçar-me sobre o desenvolvimento da Doutrina social no Magistério que, desde o século XIX aos nossos dias, tem acompanhado as grandes transformações sociais. Evidentemente, não poderei...

OS PRIMEIROS PASSOS DA DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA

29. Aquilo que hoje chamamos de “Doutrina social da Igreja” não surgiu de repente na era contemporânea, mas reúne e organiza uma longa tradição de reflexão eclesial sobre a vida social, cujas fontes se encontram na Sagrada Escritura, nos Padres da Igreja e nas elaborações teológicas e jurídicas da...

OS ANOS DO CONCÍLIO VATICANO II

33. Com São João XXIII, inicia-se uma nova etapa do Magistério social, marcada por uma atenção mais explícita à dimensão mundial das questões sociais e à linguagem dos direitos. Na Mater et magistra, apresenta a fé cristã como uma luz capaz de unir o céu e a terra, recordando que a Igreja, embora...

O MAGISTÉRIO RECENTE

37. O fecundo Magistério social de São João Paulo II situa-se na confluência entre a crise dos grandes sistemas ideológicos do século XX e o início da globalização económica. Na Encíclica Laborem exercens, redigida noventa anos após a publicação da Rerum novarum, ele inaugura uma nova modalidade de...

UMA LEITURA DA HISTÓRIA À LUZ DA FÉ

45. Ao considerar este percurso na sua totalidade, compreende-se que a Doutrina social da Igreja não é fruto de um projeto de gabinete, mas o resultado de um processo paciente, no qual os Papas – com o Concílio Vaticano II – deram um contributo original à luz das “coisas novas” do seu tempo. Cada...

46. A Doutrina social da Igreja é uma realidade viva, em diálogo com a história, as culturas e as ciências. Ao mesmo tempo, guarda um núcleo de verdades que não declina. Pode ser considerada, portanto, uma forma de sabedoria capaz de orientar, ainda, a vida pessoal e social dos fiéis. Neste segundo capítulo, desejo deter-me em alguns fundamentos e princípios da Doutrina social que ajudam a interpretar as “coisas novas” do nosso tempo à luz da dignidade fundamental da pessoa humana. Considero que hoje, para salvaguardar a pessoa humana na era da inteligência artificial, devemos voltar a refletir sobre o bem comum, a destinação universal dos bens, a subsidiariedade, a solidariedade e a justiça social. Estou convencido de que a relação harmoniosa entre estes princípios exige que sejam considerados no seu conjunto, para que se torne claro o modo como se complementam e iluminam mutuamente.

 

47. Ao propor estas reflexões, desejo, em primeiro lugar, ajudar os fiéis leigos, bem como os demais homens e mulheres de boa vontade, a redescobrir a sua tarefa de levar ao quotidiano, às relações familiares, ao trabalho e à participação social, os princípios que pretendo recordar, deixando-se animar pela intenção de encarnar o amor de Deus na trama concreta da história. Gostaria, ao mesmo tempo, de encorajar as universidades e instituições académicas a dar novo impulso a estes princípios, repensando-os em conformidade com os nossos dias para se enfrentar eficazmente a revolução digital. Desta forma, a investigação teológica e filosófica poderá aprofundar e apoiar o caminho pastoral da Igreja, colaborando com o Magistério na tarefa de iluminar a consciência dos fiéis e orientar o seu empenho em tornar a vida das nossas sociedades mais justa e fraterna.

MH**

FUNDAMENTOS DA DOUTRINA SOCIAL - O SER HUMANO, IMAGEM DO DEUS TRINITÁRIO

48. A Doutrina social da Igreja remete-nos ao núcleo central da nossa fé: o mistério do Deus vivo, revelado em Jesus Cristo como comunhão de Pessoas, Pai, Filho e Espírito Santo, amor em relação, que se doa reciprocamente e se comunica ao mundo. Como recorda o Concílio, o ser humano é chamado à...

FUNDAMENTOS DA DOUTRINA SOCIAL A IGUAL DIGNIDADE DE TODOS OS SERES HUMANOS

51. São João Paulo II declarou que «o sentido mais agudo da dignidade e da unicidade da pessoa humana, bem como do respeito devido ao caminho da consciência, constitui certamente uma conquista positiva da cultura moderna». Esta afirmação insere-se na linha traçada pelo Concílio Vaticano II, que...

FUNDAMENTOS DA DOUTRINA SOCIAL O ALTÍSSIMO VALOR DOS DIREITOS HUMANOS

54. A Igreja reconhece com gratidão que «o movimento rumo à identificação e à proclamação dos direitos do homem é um dos mais relevantes esforços para responder de modo eficaz às exigências imprescindíveis da dignidade humana». E, como afirmou João Paulo II, a Declaração Universal dos Direitos do...

PRINCÍPIOS DA DOUTRINA SOCIAL - O PRINCÍPIO DO BEM COMUM

59. Reconhecer que cada mulher e cada homem possuem em si mesmos uma dignidade inalienável e direitos que nenhum poder humano deve ferir ou eliminar exige que se reconfigure o modo como vivemos juntos, as nossas escolhas económicas e políticas, o rosto concreto das nossas cidades. Daqui nasce o...

PRINCÍPIOS DA DOUTRINA SOCIAL - O PRINCÍPIO DA DESTINAÇÃO UNIVERSAL DOS BENS

65. «Dentre as multíplices implicações do bem comum, assume particular importância o princípio da destinação universal dos bens». Este princípio recorda-nos, em primeiro lugar, que os bens da terra – o solo, a água, o ar, os recursos naturais – são dados por Deus à inteira família humana para...

PRINCÍPIOS DA DOUTRINA SOCIAL - O PRINCÍPIO DE SUBSIDIARIEDADE

68.O princípio de subsidiariedade tem origem na mesma visão da pessoa que orientou a nossa reflexão sobre a dignidade e o bem comum. Se cada mulher e cada homem são chamados a ser protagonistas da própria vida e a participar na construção da sociedade, então também a organização social deve...

PRINCÍPIOS DA DOUTRINA SOCIAL - O PRINCÍPIO DE SOLIDARIEDADE

73. Depois de ter abordado o bem comum e a subsidiariedade, desejo agora deter-me no princípio de solidariedade. Nasce da visão da pessoa que a fé gera: cada ser humano é criado à imagem de Deus e inserido numa rede de relações que o ligam aos outros, aos povos e à criação. São Paulo VI recordava...

PRINCÍPIOS DA DOUTRINA SOCIAL - O PRINCÍPIO DA JUSTIÇA SOCIAL

77.Para a comunidade cristã, a justiça social é uma forma concreta de seguir Jesus e de fidelidade ao seu Evangelho. No Novo Testamento, Jesus anuncia a «Boa-Nova aos pobres» ( Lc 4, 18) e identifica-se com os pequenos, os doentes, os presos e os estrangeiros (cf. Mt 25, 31-46). Ensina-nos, assim,...

O DESENVOLVIMENTO HUMANO INTEGRAL

82. Na Encíclica Populorum progressio, Paulo VI afirma que o desenvolvimento só é autêntico se for “integral”, ou seja, destinado a «promover todos os homens e o homem todo». Nas décadas seguintes, a Doutrina social da Igreja retomou e aprofundou esta expressão para indicar como os grandes...

UM TESTE PARA A IGREJA

86. Para concluir, gostaria de abordar um ponto que me é particularmente caro. A Doutrina social não é apenas uma palavra dirigida à sociedade: é também um exame de consciência para a Igreja, casa e escola de comunhão, chamada sempre a averiguar se os princípios evocados neste capítulo são vividos,...

90. Depois de ter recordado os princípios que iluminam a Doutrina social, desejo agora focar-me em alguns desafios que dizem respeito à nossa forma de viver este tempo. A imagem bíblica que acompanha estas páginas é a da construção: por um lado, a torre de Babel, onde a obra comum é guiada por um projeto de domínio que acaba por desumanizar (cf. Gn 11, 1-9); por outro, as ruínas de Jerusalém que, sob a liderança de Neemias, são reconstruídas por partes, como obra de responsabilidade partilhada (cf. Ne 2-6). Somos levados a interrogar-nos sobre o grande estaleiro de obras da nossa época: o que estamos a construir? Enquanto o desenvolvimento tecnológico altera rapidamente linguagens, relações, instituições e formas de poder, nós, cristãos, podemos e devemos escolher em que projeto trabalhar, e com que estilo, para salvaguardar e valorizar a magnífica humanidade que recebemos como dom. Não se trata de uma escolha sobre o nosso futuro, mas sobre o presente, porque a inteligência artificial e as outras tecnologias emergentes fazem já parte do nosso quotidiano.

 

91. Estou convicto de que a forma concreta de viver as relações sociais à luz do Evangelho não foi estabelecida de uma vez por todas, mas continua, de geração em geração, uma tarefa confiada à comunidade cristã. Sob a orientação do Espírito, a Igreja deixa-se iluminar pela Palavra na leitura dos sinais dos tempos e na procura criativa de novos caminhos para que as relações entre as pessoas e os povos se tornem mais conformes às exigências do Reino de Deus. Por isso, encorajo todos, em particular os fiéis leigos, a não ter medo de se deixar interpelar pela realidade, a escutar-se mutuamente e a assumir com firmeza a própria responsabilidade na construção duma sociedade mais humana e fraterna.

MH***

O PARADIGMA TECNOCRÁTICO E O PODER DIGITAL

92. Na Encíclica Laudato si’, o Papa Francisco denunciava a crescente afirmação de um paradigma tecnocrático no mundo globalizado: a tendência de deixar que a lógica da eficiência, do domínio e do lucro governe por si só as escolhas pessoais, sociais e económicas. Assim, torna-se mais evidente que...

A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

97. Não tenho a intenção de apresentar aqui uma tratado sobre a inteligência artificial, nem revisitar uma bibliografia já vastíssima, pois existem contributos autorizados – também no âmbito eclesial – aos quais é possível fazer referência. Limito-me a recordar alguns elementos essenciais a um...

A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL - UMA AJUDA PRECIOSA QUE REQUER ATENÇÃO

100. À luz de quanto foi exposto, podemos compreender melhor por que razão a inteligência artificial pode ser uma ajuda preciosa, exigindo, ao mesmo tempo, uma abordagem sóbria e vigilante. Nos últimos anos, o seu uso privado cresceu de modo notável e em vários setores reflete-se sobre as...

A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL - RESPONSABILIDADE, TRANSPARÊNCIA E GESTÃO DA IA

102. O uso da IA nunca é uma questão puramente técnica: ao interferir em processos que afetam a vida das pessoas, ela incide sobre direitos, oportunidades, reputação e liberdade. Decisões delicadas que dizem respeito ao trabalho, ao crédito, ao acesso a serviços e à reputação das pessoas correm o...

O QUE NÃO PODEMOS PERDER

112. Depois de ter evocado as questões da responsabilidade e da gestão da IA, é necessário voltar ao cerne da questão: o que significa salvaguardar o humano. O risco não é apenas o do mau uso de algumas tecnologias, mas que o paradigma tecnocrático em que estamos imersos, potencializado pela...

O QUE NÃO PODEMOS PERDER - NARRATIVAS DE FUNDO: TRANSUMANISMO E PÓS-HUMANISMO

  115. Na tentativa de evidenciar os pressupostos culturais que acompanham a revolução digital em curso, gostaria agora de focar-me em algumas correntes que interpretam o progresso como uma superação do humano e que podem ser agrupadas sob os nomes de transumanismo e pós-humanismo. Estas...

O QUE NÃO PODEMOS PERDER - OS LIMITES, O CORAÇÃO E A GRANDEZA DO SER HUMANO

118. A nossa relação com a vida parece estar hoje em crise. Tudo o que se apresenta como “limite” – incapacidade, doença, velhice, sofrimento, vulnerabilidade – tende a ser interpretado, antes de mais, como um defeito a corrigir, e não como um espaço onde o humano amadurece e se abre à relação. Em...

O VERDADEIRO “MAIS QUE HUMANO”: GRAÇA E HUMANISMO CRISTÃO

127. A expressão “mais que humano” não pertence apenas à linguagem das promessas da tecnologia. Há séculos que a tradição cristã afirma que o ser humano não está confinado aos limites da própria natureza, mas é chamado a transcender-se a si mesmo: não para fugir da realidade ou por desprezo dos...

DUAS CIDADES E DOIS AMORES

129. O humanismo cristão não rejeita a ciência e a técnica: acolhe-as com gratidão e realismo, inserindo-as, “com os pés bem assentes na terra”, numa vocação mais elevada. A inteligência criativa do ser humano é um dom que pode aliviar sofrimentos e abrir novas possibilidades, mas deve permanecer...

131. Depois de traçado o horizonte no qual se situa o desafio da transformação tecnológica, particularmente ligado à IA e às correntes transumanistas e pós-humanistas, não podemos limitar-nos a análises gerais. Quando as linguagens e os instrumentos mudam, alteram-se também os gestos quotidianos e as relações sociais. Por isso, é necessário deter-nos nalguns âmbitos em que essas transformações têm repercussões muito concretas e, por vezes, dramáticas. À luz dos princípios da Doutrina social da Igreja, a transformação digital exige-nos a redescoberta da verdade como bem comum, a tutela da dignidade do trabalho e a salvaguarda da liberdade contra todas as formas de dependência e mercantilização.

MH****

A VERDADE COMO BEM COMUM - VERDADE E DEMOCRACIA

132. A utilização de plataformas digitais e sistemas de IA acelera mudanças profundas na comunicação pública e política. Ferramentas que poderiam favorecer o debate e a participação são frequentemente utilizadas para construir narrativas distorcidas e anular as distinções entre o verdadeiro e o...

A VERDADE COMO BEM COMUM - COMUNICAÇÃO E IMAGINÁRIO COLETIVO

135. Neste horizonte, é importante recordar que a comunicação «não é apenas a transmissão de informações, mas a criação de uma cultura». Os conteúdos que circulam nos ambientes digitais influenciam o modo como as pessoas percebem o mundo, introduzindo na consciência coletiva imagens e narrativas...

A VERDADE COMO BEM COMUM - POR UMA ECOLOGIA DA COMUNICAÇÃO

137. A nossa primeira tarefa consiste em não demonizar nem idolatrar os instrumentos, mas em orientá-los a partir dum ponto de referência: a verdade é um bem comum e não propriedade daqueles que detêm poder ou visibilidade. Importa, pois, promover uma ecologia da comunicação: quanto às regras...

A VERDADE COMO BEM COMUM - UMA ALIANÇA EDUCATIVA PARA A ERA DIGITAL

139. Numa época em que a verdade está frequentemente submetida a interesses e estratégias comunicativas, o mundo da educação assume uma importância decisiva. No entanto, as rápidas transformações tecnológicas evidenciam o quanto não estamos preparados a nível educativo. A propagação dos meios de...

A VERDADE COMO BEM COMUM - CENTRALIDADE DA ESCOLA

143. A escola é o local onde as novas gerações podem aprender a procurar e amar a verdade, a questionar-se sobre o sentido da vida e sobre a dignidade de cada pessoa. Por isso, muitos pais, desejosos que os filhos cresçam capazes de relações, dotados de espírito crítico e com valores sólidos,...

A DIGNIDADE DO TRABALHO NA TRANSIÇÃO DIGITAL - O VALOR DO TRABALHO

148. Desde as origens da Doutrina social, com a Rerum novarum, a Igreja tem chamado a atenção para a proteção dos trabalhadores e para a necessidade de combater qualquer tipo de exploração. Mas, sobretudo, o Magistério reconheceu no trabalho «a chave essencial» para compreender toda a questão...

A DIGNIDADE DO TRABALHO NA TRANSIÇÃO DIGITAL - O PROBLEMA DO DESEMPREGO

151. São João Paulo II recordou que o desemprego é um mal grave e, sobretudo quando assume proporções massivas, pode tornar-se uma verdadeira calamidade social, que interpela de modo especial a responsabilidade do Estado. Hoje, na “quarta revolução industrial”, esta preocupação torna-se mais...

A DIGNIDADE DO TRABALHO NA TRANSIÇÃO DIGITAL - UMA ECONOMIA QUE VALORIZE A DIGNIDADE

157. O mercado do trabalho é uma das áreas na qual, com maior evidência, se manifestam os riscos das novas tecnologias. É, por isso, necessário recordar que a liberdade económica não é absoluta e deve ser sempre avaliada à luz do bem comum e da dignidade de cada pessoa. A iniciativa empreendedora...

A DIGNIDADE DO TRABALHO NA TRANSIÇÃO DIGITAL - FAMÍLIA E JOVENS: CONDIÇÕES SOCIAIS DA ESPERANÇA

165. A família é um bem social primário. Fundada na união estável entre um homem e uma mulher, é o primeiro ambiente em que cada um desenvolve as suas potencialidades, toma consciência da própria dignidade e aprende as primeiras formas de verdade e bondade, interiorizando hábitos que preparam para...

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SALVAGUARDAR A LIBERDADE CONTRA A DEPENDÊNCIA E A MERCANTILIZAÇÃO - DEPENDÊNCIAS E CONTROLE SOCIAL

170. Depois de ter refletido sobre a verdade e a educação, o trabalho e as famílias, devemos abordar o impacto da revolução digital na liberdade humana, considerando como enfrentar tanto os riscos associados à psicologia individual como os grandes dramas sociais. Não se devem subestimar as formas...

SALVAGUARDAR A LIBERDADE CONTRA A DEPENDÊNCIA E A MERCANTILIZAÇÃO - QUEBRAR AS CORRENTES DAS NOVAS FORMAS DE ESCRAVATURA

173. Esta visão distorcida da pessoa traduz-se hoje em diversas formas de servidão diretamente ligadas à economia digital. No mundo da IA, nada é imaterial ou mágico. Cada resposta que parece imediata e perfeita provém de uma longa cadeia de mediações, de uma rede alargada de recursos naturais, de...

UMA RESPONSABILIDADE PARTILHADA

180. Os diversos campos em análise – a busca da verdade na vida pública, a educação no ambiente digital, as transformações do trabalho, a fragilidade das famílias e as novas formas de escravatura – não são fenómenos isolados. Eles manifestam o mesmo desafio: se a técnica se torna critério absoluto,...

182. Depois de ter considerado a forma como a IA está a transformar certos aspetos da vida e da sociedade, com graves consequências para a dignidade humana, é necessário dirigir o olhar a um âmbito ainda mais dramático: a guerra. Aqui, a questão não diz respeito apenas à eficiência de novos instrumentos, mas ao risco de que a técnica, dissociada da ética e da responsabilidade, torne mais rápida e impessoal a decisão sobre a vida e a morte, e apresente o recurso à força como uma opção imediata e exequível. Num mundo cada vez mais interdependente, a paz não é um tema entre tantos outros, mas uma condição do bem comum universal e um parâmetro para medir a maturidade moral dos povos, especialmente de quem é chamado a assumir responsabilidades de governo.

 

183. A revolução digital está a modificar a gramática dos conflitos. A guerra visível é acompanhada por formas híbridas: ataques cibernéticos, manipulação da informação, campanhas de influência, automatização de decisões estratégicas. A IA entra nestes processos como um fator de aceleração, num panorama em que muitas tecnologias são intrinsecamente ambivalentes: o que nasce para defender pode ser rapidamente alterado para atacar, e a fronteira entre proteção e agressão tende a dissipar-se. A IA pode reforçar a defesa e a proteção dos civis, mas também pode baixar a fasquia do uso da força, tornar as responsabilidades menos claras, alimentar uma cultura em que o inimigo é reduzido a um dado e a vítima a um “dano colateral”. Diante destas transformações, devemos invocar os princípios da Doutrina social – dignidade da pessoa, bem comum, destinação universal dos bens, subsidiariedade, solidariedade, justiça – como critérios para julgar se as tecnologias servem realmente a humanidade ou acabam por subjugá-la, e considerá-los como orientações para as nossas escolhas.

 

184. Neste capítulo, pretendo comparar duas lógicas opostas, que já evoquei com imagens bíblicas: por um lado, a tentação de construir a torre de Babel, confiando no poder e no orgulho; por outro, a paciência em reconstruir Jerusalém “por partes”, como no tempo de Neemias, salvaguardando o humano e o bem comum.

 

185. Se olharmos para as dinâmicas mundiais, reconhecemos cada vez mais claramente a expansão de uma cultura do poder, feita de polarizações e violências. A Babel moderna não é apenas o paradigma tecnocrático globalizado, mas também o confronto à distância entre imperialismos opostos, entre potências que desejam conservar a sua supremacia e potências que aspiram a conquistá-la, com uma multiplicidade de conflitos locais. Além disso, é a corrida pelo desenvolvimento de tecnologias cada vez mais poderosas, ou pela garantia do seu controle, segundo uma dinâmica desumanizante que parece não conhecer limites. E, no entanto, ao lado deste desvio, vislumbramos grande parte da humanidade que procura permanecer humana e empenhar-se na construção da cidade da convivência e da paz. Dela, todos nós somos frequentemente artífices sem o saber e arquitetos descoordenados, capazes de gestos generosos, mas desprovidos duma visão de conjunto: trata-se de uma construção mais lenta, menos visível e espetacular, que aguarda ser melhor compreendida e mais coordenada, para se tornar compromisso consciente e articulado de cada comunidade, desde a família ao governo dos Estados e suas relações. É a este horizonte de empenho, a este estaleiro de esperança, que damos o nome de “civilização do amor”.

 

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A CIVILIZAÇÃO DO AMOR NA ERA DIGITAL

186. Quando São Paulo VI introduziu a expressão “civilização do amor”, o mundo estava marcado pela Guerra fria, pela corrida ao armamento e por fortes desequilíbrios económicos. Naquele contexto, a Igreja apontava um caminho alternativo à oposição ideológica entre sistemas, imaginando uma ordem...

A CULTURA DO PODER

188. Na época em que vivemos, vai-se consolidando uma cultura do poder, na qual a disponibilidade de meios e a capacidade de dominar tendem a ditar a agenda e os critérios de decisão, relegando o bem comum da humanidade para segundo plano e reduzindo o drama concreto dos povos em guerra a uma...

A CULTURA DO PODER - A NORMALIZAÇÃO DA GUERRA

189. Em 1965, na Assembleia da ONU, ressoou com força o brado de São Paulo VI: «Nunca mais a guerra, nunca mais a guerra». Temos de reconhecer que, apesar dos desejos e das declarações de paz, os últimos sessenta anos foram marcados por conflitos duma ferocidade impressionante, que muitas vezes...

A CULTURA DO PODER - A FORÇA SEM LIMITES

193. Um elemento decisivo do panorama atual é o crescimento da indústria bélica, que se tornou um setor-chave na economia de alguns países. A estreita ligação entre interesses económicos, aparatos militares e decisões políticas gera uma “nação armada”, na qual a guerra parece quase uma continuação...

A CULTURA DO PODER - ARMAS E IA

197. A este cenário associa-se o desenvolvimento incessante dos sistemas de armas, em particular das armas relacionadas com a IA. A Santa Sé observou recentemente que a crescente facilidade com que os sistemas de armas com autonomia operativa podem ser utilizados torna a guerra mais “viável” e...

A CULTURA DO PODER - A CRISE DO MULTILATERALISMO

201. A cultura do poder decorre também da crise do sistema multilateral. As instituições criadas para salvaguardar a ideia dum destino comum dos povos e dum bem comum mundial parecem enfraquecidas, não apenas devido a limitações estruturais, mas porque muitas vezes falta uma vontade partilhada de...

A CULTURA DO PODER - UM SUPOSTO REALISMO POLÍTICO

204. Vivemos numa época de notável cegueira espiritual e cultural. Um falso pragmatismo convida-nos a cortar as raízes da memória, como se fosse possível inaugurar uma espécie de “nova criação” desligada do passado; mesmo quem invoca grandes princípios morais pode cair neste niilismo histórico,...

CONSTRUIR A CIVILIZAÇÃO DO AMOR

210. A construção de um mundo em estado de beligerância permanente é um mal, e deve ser chamado pelo seu nome. Esta forma de descrever a realidade em que vivemos pode parecer sombria ou pessimista, mas considero tratar-se duma denúncia necessária. A perspectiva cristã, porém, não se esgota na...

CONSTRUIR A CIVILIZAÇÃO DO AMOR - TODOS PODEMOS FAZER A NOSSA PARTE

212. Neste ponto, porém, insinua-se uma subtil tentação: pensar que os problemas são demasiado grandes e nós demasiado pequenos; e que, por isso, as nossas escolhas nada alteram. Trata-se de uma forma elegante de rendição, muitas vezes disfarçada de realismo. Claro, nem todos têm o mesmo poder de...

CONSTRUIR A CIVILIZAÇÃO DO AMOR - DESARMAR AS PALAVRAS

214. O primeiro contributo que podemos dar para uma civilização mais humana é prestar atenção às nossas palavras. «Desarmemos as palavras e contribuiremos para desarmar a Terra». O poder das palavras é enorme e experimentamo-lo na comunicação quotidiana, quando alguém nos diz algo que altera o...

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CONSTRUIR A CIVILIZAÇÃO DO AMOR - CONSTRUIR A PAZ NA JUSTIÇA

215. Todos nós, sem exceção, podemos contribuir para o alicerce da paz, que é a justiça. Não procuramos, pois, uma paz qualquer, uma ausência de conflito a todo o custo, mas aquela verdadeira paz que nasce da justiça. «Existe uma estreita relação entre a justiça de cada um e a paz de todos». Ao...

CONSTRUIR A CIVILIZAÇÃO DO AMOR - ASSUMIR O OLHAR DAS VÍTIMAS

216. Há situações em que, para permanecermos humanos, temos de abandonar as hesitações e tomar posição. Há conflitos nos quais não é justo permanecer neutros nem é suficiente pensar “não ser cúmplice”. Quando nos deparamos com bombardeamentos contra civis; com ataques a hospitais, escolas ou...

CONSTRUIR A CIVILIZAÇÃO DO AMOR - CULTIVAR UM SAUDÁVEL REALISMO

218. Precisamos de um saudável realismo, que evite tanto o idealismo político como o cinismo. Existe, realmente, um idealismo que, para salvar a sua visão do mundo, seleciona os acontecimentos, distorce-os, nomeia-os de novo e acaba por se envolver com uma realidade construída à medida das próprias...

CONSTRUIR A CIVILIZAÇÃO DO AMOR - REVITALIZAR O DIÁLOGO

219. Para construir a civilização do amor, devemos praticar o diálogo. Ele é o principal instrumento da convivência entre as pessoas e entre os povos, sendo alternativa ao conflito aberto. Já o recordava Pio XII na véspera da Segunda Guerra Mundial, quando afirmava que com a paz nada se perde,...

CONSTRUIR A CIVILIZAÇÃO DO AMOR - A NECESSIDADE DA DIPLOMACIA E DO MULTILATERALISMO

224. Nas relações internacionais, o diálogo é o instrumento insubstituível da diplomacia para prevenir conflitos e restabelecer laços de confiança. Contra as comunicações impulsivas, as retóricas agressivas e as lógicas de poder que marcam o nosso tempo, «a vocação da diplomacia é favorecer o...

CONSTRUIR A CIVILIZAÇÃO DO AMOR - REZAR E TER ESPERANÇA

228. Estas pistas de ação nutrem-se da oração e alimentam-na. Com efeito, para nós, a paz «vem de Deus, do Deus que nos ama a todos incondicionalmente». É um dom entregue por Jesus aos seus discípulos no dia da Páscoa: «A paz esteja convosco! Esta é a paz de Cristo Ressuscitado, uma paz desarmada e...

229. «Veja cada um como edifica» (1 Cor 3, 10): são palavras de São Paulo, que exorta os cristãos de Corinto a guardar a unidade. Queridos irmãos e irmãs, interrogámo-nos sobre o mundo que estamos a construir, perguntando-nos o que significa salvaguardar a pessoa humana na era da inteligência artificial. No final deste percurso, desejo entregar-vos um itinerário de vida cristã sóbrio e exigente, com o qual podemos viver esta mudança de época à luz do Evangelho. É um caminho que nasce da contemplação do desígnio de Deus, vive a unidade eclesial alimentando-se da Palavra e da Eucaristia, edifica o mundo no bem e reza com a Virgem Maria.

230. Num mundo marcado por tantas estratégias que visam conquistar mercados e espaços de influência, muitas vezes revestidas de retóricas apaziguadoras e construções ideológicas sedutoras, o nosso coração sente a necessidade de descobrir um desígnio diferente, sábio e benevolente, semelhante ao que Maria contempla no Magnificat, quando proclama que, de geração em geração, a misericórdia de Deus se estende sobre aqueles que O temem. Este desígnio de misericórdia permeia a história também hoje, no meio de mudanças rápidas e inquietantes marcadas por algoritmos e redes globais, e torna-se a bússola para uma existência evangélica na era digital.

 

231. No centro está o mistério da Encarnação: o Verbo fez-se carne e veio habitar entre nós. A carne do Filho, pobre e vulnerável, remete para a carne de tantos irmãos e irmãs despojados da sua dignidade e reduzidos ao silêncio; e através desta proximidade, o dom da paz entra no mundo de forma paradoxal: enquanto poder de nos tornarmos filhos de Deus, reavivado quando nos deixamos tocar pelo choro das crianças, pela fragilidade dos idosos, pelo silêncio das vítimas, pelo cansaço daqueles que lutam contra o mal que não desejariam cometer. Nesta carne ferida e amada, o Pai mostra-nos a verdadeira humanidade de uma vida que se realiza na abertura e na comunhão, a ponto de nos fazer desejar que a sua vontade se faça assim na terra como no Céu.

 

232. Nas promessas do transumanismo e de algumas correntes pós-humanistas, que aspiram a uma humanidade aperfeiçoada e quase desencarnada, reconhecemos um desejo que nos diz respeito: a necessidade de uma vida mais plena, menos exposta à fragilidade e ao sofrimento. A Encarnação abre, porém, um caminho diferente. Enquanto ideologias antigas e novas impelem o homem a superar tecnicamente os limites e a elevar-se acima dos outros para afirmar um domínio, o mistério do Filho de Deus que entra na nossa condição narra um movimento oposto: o Deus vivo desce à nossa história para nos libertar de toda a forma de escravatura, toma sobre si a nossa fraqueza e transforma-a num lugar de salvação. Não há circunstância ou condição humana que não seja digna de Deus: «Segundo o ensinamento da nossa fé, temos e adoramos, nos nossos mistérios, um Deus que nasce na manjedoura, um Deus que vive e viaja pela Judeia, um Deus que morre na cruz, um Deus morto que jaz no sepulcro». O futuro da humanidade encontra assim o seu critério na capacidade de acolher esta forma divina de se aproximar, de partilhar o peso do mundo, de transformar as relações a partir de dentro. «Ó maravilha […] o homem é Deus e este Deus-Homem passa por todos esses graus, suporta todos esses estados e os enobrece, santifica e deifica em si mesmo!». O que salva o homem é o amor divino que desce ao ponto mais vulnerável da sua história e a regenera profundamente.

 

233. Por isso, como fiel entre os fiéis, convido a contemplar no rosto do Filho uma magnífica humanidade que ilumina também a era da IA. Em Cristo compreendemos que o homem é chamado a ser colaborador na obra da criação, em vez de espectador resignado de processos tecnológicos que restringem a sua liberdade e responsabilidade. A dignidade que o Espírito Santo grava em cada um de nós reconhece-se também na capacidade de refletir de modo crítico, de escolher e de amar gratuitamente, de estabelecer relações autênticas. Nenhum sistema de cálculo, por mais sofisticado que seja, gera um coração que se entrega ou uma consciência que discerne o bem. Mesmo quando as máquinas se destacam pela eficiência, o centro da história continua a ser um rosto humano que pede para ser olhado. Este rosto humano é a plenitude para a qual caminha a história. É o mistério da recapitulação, a certeza de que o Pai decidiu reunir em Cristo, única Cabeça, todas as coisas, no céu e na terra (cf. Ef 1, 10). Neste desígnio, nada do que é autenticamente humano se perderá, mas tudo será purificado e reunido n’Aquele que recolhe cada fragmento de vida, cada lágrima e cada conquista humana autêntica, para as subtrair ao nada e as entregar, redimidas, ao Pai.

234. A espiritualidade que necessitamos é uma espiritualidade eucarística, ou seja, uma espiritualidade da unidade eclesial no amor. A Encarnação e a Páscoa revelam Deus que entra na nossa condição humana e a transfigura no dom de si mesmo. Este dom continua presente e operante na Eucaristia, na qual o Senhor se comunica e reúne a Igreja, para que a sua oferta se torne princípio de unidade e fonte de vida nova. Desta comunhão nasce também a solidariedade cristã, pois a «união com Cristo é, ao mesmo tempo, união com todos os outros aos quais Ele Se entrega». Como explicava Santo Agostinho aos novos cristãos da sua Igreja, o pão e o vinho no altar são o sacramento da unidade dos fiéis em Cristo: «O que se vê tem um aspeto material, o que se compreende produz um efeito espiritual. Se quiseres compreender [o mistério] do corpo de Cristo, escuta o que o Apóstolo diz aos fiéis: Vós sois o corpo de Cristo e os seus membros ( 1 Cor 12, 27). Se vós, portanto, sois o corpo e os membros de Cristo, sobre a mesa do Senhor está depositado o mistério de vós mesmos: recebei o mistério de vós mesmos. Ao que sois, respondei: Amém, e ao responder, vós o atestais. É-vos dito, na verdade: O Corpo de Cristo, e vós respondeis: Amém. Sede membros do corpo de Cristo, para que o vosso Amém seja verdadeiro».

 

235. O “Amém” que dizemos na liturgia, o Corpo que comungamos e o Sangue que bebemos dão forma a toda a nossa vida. A Eucaristia «é o encontro pessoalíssimo com o Senhor, e no entanto não é jamais apenas um ato de devoção individual». Nela manifesta-se que «somos a Igreja de Cristo, somos os membros do seu corpo. N’Ele, somos irmãos e irmãs. E, em Cristo, apesar de muitos e diferentes, somos uma só coisa: In Illo uno unum». A Eucaristia abre-nos à justiça e à partilha, com uma atenção preferencial para com quem carrega o fardo da pobreza e da marginalização. E, enquanto as novas redes económicas e tecnológicas podem gerar exclusão, isolamento e dependências, a Igreja alimentada pela Eucaristia é chamada a mostrar outro critério, preservando os vínculos, devolvendo voz aos que se não veem e orientando os processos para a dignidade das pessoas.

 

236. A espiritualidade que desejo transmitir é a do “sábio arquiteto” que, animado pela esperança do Reino de Deus, se dedica a construir o mundo no bem (cf. 1 Cor 3, 10). Como escrevi no início desta reflexão, hoje a nossa construção deve ter como fundamento a relação com Deus; como regra, a aceitação do limite humano como algo natural e positivo; como estilo, a corresponsabilidade e a linguagem evangélica. No final do percurso, o projeto de uma civilização do amor delineia-se mais claramente e a construção parece estar já em andamento, sobretudo graças às muitas pedras vivas firmemente unidas a Cristo, a pedra angular (cf. 1 Pe 2, 4-6). Nesta obra somos chamados a assumir um papel ativo, sem nos refugiarmos no espiritualismo ou nos nossos pequenos mundos: devemos ser fiéis à verdade, investir na educação, cuidar das relações, amar a justiça e a paz.

 

237. Permaneçamos fiéis à verdade! Vivendo imersos em fluxos incessantes de informações, opiniões e imagens, sabemos como é fácil direcionar decisões e preferências através de algoritmos cada vez mais sofisticados. Neste contexto, é importante conservar um coração que ama a verdade, que deseja o que é justo mais do que conteúdos apelativos, que busca a sabedoria mais do que o impacto imediato. A verdade que não devemos perder é aquela sobre Deus e sobre o ser humano, tal como Cristo nos revelou. É necessário abandonar uma visão individualista e técnica do homem, como se a realidade fosse pura matéria a ser moldada em função de interesses egoístas, tanto individuais como de grupo. Cultivemos, em vez disso, aquilo que o Papa Francisco definiu como um «antropocentrismo situado», que reconhece o ser humano como criatura inserida numa teia de relações com os outros seres vivos e com toda a criação. A fidelidade à verdade exige integrar as possibilidades oferecidas pela técnica num caminho de sabedoria, capaz de salvaguardar simultaneamente a dignidade de cada pessoa e o futuro da nossa Casa comum.

 

238. Invistamos na educação, que começa por nós próprios! Todos precisamos de nos formar para viver o mundo digital de forma humana, como parte integrante da educação na fé e na vida boa do Evangelho. Devemos educar-nos para considerar o mundo digital como um novo continente a ser evangelizado, e que requer missionários generosos e maduros na fé. Em particular, são necessários adultos que redescubram a sua vocação de artesãos em educar, dispostos a um trabalho diário e paciente, apoiado por alianças educativas amplas e partilhadas. Acompanhar crianças e adolescentes na utilização das tecnologias como espaço de relação responsável, ajudando-os a reconhecer nelas os riscos e a escolher o que faz crescer a liberdade interior, representa hoje uma forma concreta de caridade e de salvaguarda da sua dignidade. Educar as novas gerações para acreditarem que a evolução das tecnologias não segue um percurso inevitável, mas que pode ser orientada pela responsabilidade pessoal e coletiva, constitui um dos serviços mais preciosos ao bem comum.

 

239. Cuidemos das relações! Numa época que tende a acelerar e a fragmentar, a carne humana continua a pedir para ser cuidada e reconhecida por mãos capazes de ternura, por mentes atentas e por palavras bondosas. A cultura digital multiplica as conexões e oferece novas possibilidades de encontro; no entanto, o coração humano conserva uma necessidade inalienável de proximidade. Convido a preservar os lugares e os momentos em que a presença física continua a ser decisiva: a mesa partilhada, a comunidade cristã que se reúne, a visita a quem está só, o serviço aos pobres. São sinais de uma humanidade que continua a acreditar que cada corpo é templo do Espírito e casa de Deus, e é precisamente esta aliança entre glória e fragilidade que se torna o critério para avaliar os modelos antropológicos propostos pela cultura atual.

 

240. Amemos a justiça e a paz! As mesmas tecnologias que facilitam a comunicação e o acesso aos recursos podem sustentar modelos que exploram os mais fracos, alimentam novas formas de escravatura e transformam o conflito numa oportunidade de lucro. Cada escolha técnica ou económica transforma-se numa ocasião de discernimento espiritual, uma oportunidade para verificar se os progressos da IA abrem espaços de justiça e participação ou se concentram riqueza e poder nas mãos de poucos. Convido a olhar com lucidez para as cadeias de produção digital, para as condições de trabalho escondidas por trás dos nossos dispositivos, para os mecanismos que tiram partido da manipulação e da guerra; e, ao mesmo tempo, a procurar caminhos concretos para fazer crescer a equidade, a participação e o cuidado da criação. A esperança que anunciamos vem do céu «para gerar uma nova história aqui em baixo»: precisamente por isso, quem acredita empenha-se para que em vez das desigualdades se abra espaço a uma maior justiça e «em vez da indústria da guerra se afirme o artesanato da paz».

 

241. Olhando para o futuro, desejo evocar a imagem de Neemias, que no início deste percurso escolhemos como companheiro e figura de referência. Neemias ouve o clamor de uma cidade ferida, leva essa dor para a oração, discerne perante Deus, pede ajuda, obtém permissão para partir, organiza o trabalho, enfrenta resistências internas e externas e, tijolo por tijolo, reconstrói com o povo as muralhas de Jerusalém. Reconheço nele uma parábola luminosa da nossa vocação a ser, na era da transformação digital, não resignados espectadores das fraturas sociais e culturais, nem meros analistas de ruínas, mas mulheres e homens que entram nos estaleiros da história – laboratórios de investigação, empresas tecnológicas, escolas, meios de comunicação, instituições, comunidades locais – para reconstruir o que ruiu e proteger o que está exposto. Tal como Neemias, também nós somos chamados a unir escuta e coragem, oração e responsabilidade, para que a cidade dos homens se torne mais habitável, mesmo quando as lógicas tecnocráticas e os interesses particulares parecem prevalecer.

 

242. A imagem da reconstrução de Jerusalém remete para a promessa do Novo Testamento, da cidade santa que recebemos, em primeiro lugar, como dom. No Apocalipse, a nova Jerusalém desce até nós como um dom para todo o povo de Deus, «preparada, qual noiva adornada para o seu esposo» (Ap 21, 2). As muralhas de Jerusalém já não são fortificações defensivas, mas os ornamentos preciosos da Esposa do Cordeiro. As suas portas, que Neemias protegia com tanta atenção, estão permanentemente abertas a todas as nações. A presença de Deus oferece a todos luz e vida. A cidade é um novo Éden, com a sua água viva oferecida aos sedentos e com a sua árvore da vida, cujas folhas «servem de medicamento para as nações» (Ap 22, 2). Na espera de plena realização, esta visão apresenta-se diante de nós como uma exortação, um apelo para superar as nossas divisões e trabalhar juntos: este é o caminho de Jesus Cristo, ontem, hoje e sempre.

243. O quarto ponto deste programa de vida cristã – depois da fé que contempla o desígnio de amor do Pai, da caridade que nos une num único corpo eclesial e da esperança que sustenta a nossa ação no mundo – é a oração. O cântico de Maria acompanha o nosso empenho. Perante Isabel, que lhe anuncia que se tornou a mãe do Senhor, Maria irrompe num hino de louvor e de alegria: a sua alma glorifica o Senhor e o seu espírito exulta em Deus, seu Salvador, porque Ele escolheu para o seu desígnio de salvação uma jovem, pobre e humilde. Improvisamente, Maria vê toda a história com os olhos desta descoberta. Nada mudou à sua volta: a situação sociopolítica da sua época permanece a mesma, com os romanos a dominarem a sua terra e o seu povo dividido e humilhado. No entanto, tudo mudou dentro dela, e isso permite-lhe ver o invisível. Deus já manifestou o poder do seu braço, já dispersou os soberbos, derrubou os poderosos, exaltou os humildes, encheu de bens os famintos e despediu os ricos de mãos vazias. Ele já socorreu Israel, seu servo. Deus «declara-se da parte dos últimos. O seu é um projeto que com frequência está escondido sob o terreno obscuro das vicissitudes humanas, que veem triunfar “os soberbos, os poderosos e os ricos”. Contudo a sua força secreta está destinada a revelar-se no final».

 

244. A Virgem Maria não só ensina a ver a obra invisível de Deus, como orienta o nosso olhar «nas fraturas que marcam a humanidade, onde ocorre a distorção do mundo no contraste entre humildes e poderosos, entre pobres e ricos, entre saciados e famintos», educando-nos «a adotar uma perspectiva diferente, a fim de observar o mundo a partir de baixo, com os olhos de quem sofre, e não com a ótica dos grandes; considerar a história sob o prisma dos pequenos, e não com o dos poderosos; interpretar os acontecimentos da história a partir do ponto de vista da viúva, do órfão, do estrangeiro, da criança ferida, do exilado, do fugitivo». Assim, a Virgem torna-se «poetisa e profetisa da redenção», porque dos seus lábios jorra «o hino mais forte e inovador que jamais foi entoado, o Magnificat; é ela que revela o desígnio transformador da economia cristã, o resultado histórico e social, que continua a haurir do cristianismo a sua origem e a sua força».

 

245. Com a mesma fé de Maria, tornemo-nos tecelões de esperança no nosso mundo, partilhando o que somos e o que temos, de modo que a presença de Jesus cresça entre nós e o seu Reino tome forma. Na humilde fidelidade de cada dia, também a era da IA pode tornar-se uma etapa em que o Espírito faz amadurecer a civilização do amor na nossa vida: o Senhor continua a renovar todas as coisas e mantém aberta, em cada época, a possibilidade de se tornar história de salvação à luz da Encarnação. Confio este desejo à Mãe de Cristo, à mulher do Magnificat, para que acompanhe os nossos passos no presente em mudança e guarde em cada um de nós a confiança no Evangelho, de modo que possamos testemunhar a beleza duma magnifica humanidade habitada por Deus.

 

Dado em Roma, junto de São Pedro, a 15 de maio do ano 2026, segundo do meu Pontificado.

 

LEÃO PP. XIV

 

 

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