A CULTURA DO PODER - A CRISE DO MULTILATERALISMO

A CULTURA DO PODER - A CRISE DO MULTILATERALISMO

201. A cultura do poder decorre também da crise do sistema multilateral. As instituições criadas para salvaguardar a ideia dum destino comum dos povos e dum bem comum mundial parecem enfraquecidas, não apenas devido a limitações estruturais, mas porque muitas vezes falta uma vontade partilhada de as apoiar e reformar, e de reconhecer a sua autoridade moral. Em vez de progredirmos, estamos a retroceder em relação à mudança histórica do século XX. Depois de 1989, o colapso na Europa dos regimes comunistas foi acompanhado por uma globalização predominantemente económica, desprovida de uma arquitetura política adequada capaz de sustentar o diálogo e a paz. Confiou-se quase cegamente aos mercados a capacidade de produzir bem-estar, democracia e estabilidade, quando, na realidade, a globalização não gerou automaticamente unidade e paz, mas suscitou reações fundamentalistas, identitárias e nacionalistas. O resultado está longe dum multilateralismo autêntico: parece antes um multipolarismo desordenado e conflituoso, onde prevalece a desconfiança em relação ao outro.

 

202. Ressurge a tentação de construir a identidade coletiva contra um inimigo, alimentando narrativas nas quais cada um se apresenta como vítima com direito à vingança. As simplificações – “primeiro eu”, “amigo-inimigo”, “nós-eles” – facilitam decisões frequentemente irresponsáveis, que minam a confiança mútua entre as nações. A força do direito internacional é assim substituída pelo pretenso “direito do mais forte”, e os seus instrumentos – desde os tribunais competentes em crimes de guerra aos tribunais chamados a dirimir controvérsias entre Estados – são em muitos casos contornados ou enfraquecidos, com consequências devastadoras para a cultura política e a convivência.

 

203. Neste contexto, a construção da paz passou para segundo plano: em nome de lógicas de poder, deixam-se de lado a cooperação para o desenvolvimento, o desarmamento, a prevenção de conflitos e a construção da confiança mútua. Assim, enfraquecem-se também as conquistas do direito humanitário: o princípio da proporcionalidade na resposta às agressões; a garantia do acesso à água, aos alimentos e aos bens essenciais; o respeito pela vida dos civis e das crianças são tratados como reminiscências ingénuas do passado.

 

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