148. Desde as origens da Doutrina social, com a Rerum novarum, a Igreja tem chamado a atenção para a proteção dos trabalhadores e para a necessidade de combater qualquer tipo de exploração. Mas, sobretudo, o Magistério reconheceu no trabalho «a chave essencial» para compreender toda a questão social, pois através dele a pessoa desenvolve muitas dimensões da sua existência. Nesta perspectiva, compreende-se também a grande intuição de São Bento de Núrsia, que uniu oração e trabalho, indicando a atividade quotidiana como parte da resposta da pessoa ao chamamento de Deus. Feitos à imagem do Criador, por meio das nossas obras, prolongamos de certa forma a sua: contribuímos para o progresso da sociedade e para a construção do bem comum, fazemos frutificar as capacidades recebidas, melhoramos e embelezamos o mundo, sustentamos as nossas famílias, entramos em relações de cooperação e, na escuta e no diálogo, aprendemos a construir juntos algo que ninguém poderia fazer sozinho.
149. Por estas razões, o trabalho não é um mero instrumento, mas expressa e enriquece a dignidade da nossa vida. É uma exigência inscrita na condição humana, um ordinário caminho para a maturidade, o desenvolvimento e a realização pessoal. Nesta perspectiva, por vezes e em situações de emergência, são necessários apoios económicos para os pobres, embora não possam tornar-se a única resposta, pois o objetivo é dar a cada um condições para viver dignamente através do próprio trabalho.
150. Hoje em dia, o entrecruzar-se de automação, robótica e IA está a transformar rapidamente a própria estrutura do trabalho. Diz-se que isto trará grandes melhorias para todos. Na realidade, as “novas formas” de trabalhar não são necessariamente melhores, porque «enquanto a IA promete impulsionar a produtividade encarregando-se das tarefas ordinárias, os trabalhadores são frequentemente obrigados a adaptar-se à velocidade e às exigências das máquinas, em vez de estas serem concebidas para ajudar quem trabalha. Assim, contrariamente aos publicitados benefícios da IA, as abordagens atuais à tecnologia podem, paradoxalmente, desqualificar os trabalhadores, submetê-los a uma vigilância automatizada e relegá-los a funções rígidas e repetitivas. A necessidade de acompanhar a tecnologia pode minar o sentido da própria capacidade de agir dos trabalhadores e sufocar as capacidades inovadoras que são chamados a imprimir no seu trabalho». Precisamente para evitar esta deriva, é necessário conceber sistemas centrados na pessoa e não apenas no desempenho.
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