137. A nossa primeira tarefa consiste em não demonizar nem idolatrar os instrumentos, mas em orientá-los a partir dum ponto de referência: a verdade é um bem comum e não propriedade daqueles que detêm poder ou visibilidade. Importa, pois, promover uma ecologia da comunicação: quanto às regras públicas, isso significa estabelecer normas que tornem mais transparentes as lógicas de seleção e amplificação dos conteúdos, e que protejam os dados pessoais; por outro lado, quanto ao âmbito social e cultural, implica o reforço dos organismos intermédios, um jornalismo sério e espaços de debate onde prevaleçam a argumentação e a averiguação, em vez da reação impulsiva; quanto à escola e à família, o amadurecer da exigência duma nova consciência educativa e o formar para a utilização correta e crítica das ferramentas digitais, da IA e das plataformas de compra e investimento; quanto à universidade, o grande desafio da integração dos saberes, preparando tanto a capacidade de relacionar e fundir os conhecimentos para interpretar a complexidade, como as técnicas para averiguar os acontecimentos.
138. Também as comunidades cristãs devem empenhar-se numa comunicação transparente e na busca fiel da verdade dos factos. Infelizmente, nem sempre foi assim. Assistimos com vergonha à difícil descoberta de verdades dolorosas, também sobre membros da Igreja e realidades eclesiais. De modo particular, alguns jornalistas apaixonados pela verdade desempenharam um papel fundamental em trazer à luz injustiças e abusos. Gostaria de lhes repetir as palavras que disse o Papa Francisco, dirigindo-se aos vaticanistas: «Agradeço-vos inclusive pelo que narrais sobre quanto não funciona na Igreja, pela vossa ajuda a não o esconder debaixo do tapete e pela voz que destes às vítimas de abusos». Todavia, a vigilância e a transparência são, em primeiro lugar, uma grave responsabilidade da própria Igreja e não devemos aguardar que outros nos obriguem a enfrentar verdades incómodas sobre nós próprios.
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