9. Ao falar da missão do Batista, o evangelista João o qualifica como a testemunha da luz, como aquele que deve dar seu testemunho da verdadeira luz, daquela luz que, por si só, tem o poder de iluminar todo ser humano (cf. Jo 1,6-9). Essa verdadeira luz tem o nome de Jesus, o Cristo, o Filho de Deus feito homem para a salvação do mundo. Ele é, em última análise, a «verdadeira luz do mundo», e quem seguir seus passos nunca se perderá nas trevas, mas sempre encontrará dentro de si a plena luz da vida (cf. Jo 8,12). Esse é o cerne de todo o Cristianismo e é também o impulso que leva os crentes a transmitir, em todos os tempos — inclusive no nosso —, a fé que vivem.
10. Jesus é realmente a verdadeira luz que ilumina todo ser humano, pois aquilo que ninguém jamais tinha visto nem poderia ver, Ele revelou: o amor incondicional que habita no coração de Deus-Trindade. Esta é a boa nova do Evangelho do Filho: Deus é, para sempre e para todos, amor (cf. 1Jo 4,8). Ele é Pai, Filho e Espírito Santo. Essa boa nova, desconhecida até à vinda de Jesus, é agora capaz de nos conduzir à salvação e à felicidade plenas e, ao mesmo tempo, pela graça do Espírito Santo, de evidenciar e purificar tudo o que possa ser um obstáculo à vida nova que ela nos abre.
11. De forma ainda mais radical, Jesus anuncia a verdade de que, por esse amor do Pai, não existe nenhum espaço humano marcado pelo fracasso ou pelo pecado que não possa ser reintegrado ao seu destino original. Pelo contrário, graças à ação contínua do Espírito Santo, que age da forma que só Ele conhece, a luz e o poder desse amor estão sempre à disposição de qualquer pessoa, em qualquer tempo e em qualquer lugar. Quem acolhe essa revelação abandona para sempre o reino das trevas, abrindo-se finalmente à luz da vida e a uma vida de luz.
12. Justamente por essa razão, toda a existência de Jesus é permeada pelo desejo de iluminar cada ser humano com a boa nova do Deus, que é amor para sempre. Assim, Ele vai ao encontro dos outros com o coração aberto e livre e se deixa alcançar por eles. Ele segue os passos dos homens e mulheres de seu tempo e se deixa encontrar por eles. Quem o busca, encontra-o; e se o busca, é porque já foi alcançado por Cristo (cf. Fl 3,12). Jesus não coloca obstáculos entre si e as pessoas. Está sempre atento, sempre presente, nunca distraído e sua palavra jamais soa abstrata. Ele deseja continuamente orientar o coração e a mente de todos para a verdadeira luz do amor do Pai, de sua misericórdia, que são amor e misericórdia simplesmente para a vida boa de todos. Ninguém fica de fora. A vida de cada um é digna de ser vivida em plenitude.
13. Aqueles, então, que se abrem à luz da revelação do amor de Deus recebem de Jesus uma palavra de perdão, uma palavra de libertação, uma palavra de amor, uma palavra de liberdade, uma palavra de vida, uma palavra de esperança (cf. Lc 4,18-19). Jesus desperta em todos aqueles que vão ao seu encontro e se abrem a Ele com coração sincero um impulso de renovado interesse e amor pela vida: pela própria vida, pela vida dos outros e pela vida de tudo o que existe (cf. Jo 14,6). O amor de Deus reconduz cada homem e cada mulher às boas razões de seu próprio ser no mundo.
14. Com isso em mente e no coração, o Jesus que os evangelistas narram está sempre a caminho. Ele não espera. Não cria um santuário próprio nem uma escola. Ele se move, viaja. Entra nas aldeias e nas cidades de seu povo e de seu tempo. Ele conversa com as pessoas simples, mas também com aqueles que ocupam cargos de poder público, religioso ou político. Por meio desses gestos e dessas palavras, Jesus leva a bom termo a revelação confiada ao povo de Israel (cf. Mt 4,12-17; Mc 1,14-15; Lc 3,21-22).
15. Chama a atenção, de maneira especial, a forma como Jesus proclama o Evangelho do Deus que é amor para sempre e para todos. São numerosas, em sua pregação, as referências à vida cotidiana das pessoas, ao reino dos animais e ao mundo das árvores, das plantas e das flores, assim como abundam as referências aos ofícios de sua época, à preparação da comida e às brincadeiras das crianças. Jesus demonstra também um notável conhecimento do uso dos números e recorre frequentemente à construção de edifícios ou a fenômenos meteorológicos; conhece as moedas do seu tempo e tem profunda familiaridade com os diversos grupos religiosos presentes na época e, de várias maneiras, ligados ao judaísmo. É realmente um homem que “olha” com plena atenção e convida constantemente todos a “ver” com o mesmo olhar para a trama da criação e da história humana. Esta é, na verdade, sua certeza inabalável: quando o coração está livre de todo egoísmo e ansiedade desnecessária, é possível reconhecer as pegadas do amor de Deus até mesmo no evento mais pequeno e aparentemente insignificante (cf. Lc 12,22-34), e é justamente esse mesmo amor que o leva a se expressar por meio da linguagem da vida cotidiana das pessoas.
16. Não é de se surpreender, portanto, que tal pregação, ao mesmo tempo em que conquista facilmente o coração das pessoas simples — que a sentem tão próxima e familiar —, desconcerte e, em certa medida, inquiete aqueles que detêm o poder político e religioso da época. É como uma luz capaz de revelar todos os possíveis usos e abusos desse poder: «Sabeis que os chefes das nações as dominam e os grandes impõem sua autoridade. Entre vós não seja assim» (Mt 20,25-26); «Ai de vós igualmente, doutores da Lei, porque carregais as pessoas com fardos insuportáveis» (Lc 11,46).
17. Ao cumprir sua missão, Jesus não se limita apenas ao anúncio do amor incondicional de Deus. Ele dá testemunho concreto desse amor por meio de uma predileção especial por todos aqueles que já quase não esperam mais nada de ninguém: nem de seus parentes, nem de seus amigos, nem de seus compatriotas, nem de seus correligionários e talvez nem mesmo do Deus da Aliança dos Pais. Devido à sua condição de sofrimento, causada por doenças incuráveis ou por trágicos reveses do destino, essas pessoas são frequentemente consideradas “os últimos” da sociedade. No entanto, são justamente elas que se tornam “os primeiros” no coração do Senhor Jesus (cf. Mt 20,16). São, de fato, esses “últimos/primeiros” aqueles que, mais do que todos os outros, Jesus convida a se aproximarem da luz que ilumina cada homem e cada mulher, ou seja, da luz do amor do Pai. É assim que, com sua proximidade, com suas palavras e com seus milagres, Jesus reacende neles a esperança de ainda poderem ter esperança, a confiança de ainda poderem ter confiança, a possibilidade de ainda terem possibilidades. Ele realiza neles o prodígio de ainda poderem acreditar em um milagre para sua própria existência.
18. Ao longo de sua pregação, Jesus entra então, quase inevitavelmente, em conflito com uma sociedade religiosa e política que fazia da Lei de Moisés seu fundamento estrutural, mas na qual, em sua aplicação concreta, muitas vezes prevaleciam atitudes de divisão e exclusão. Enquanto seu Pai, que está nos céus, faz nascer o sol sobre todos (cf. Mt 5,45) e faz chover sobre todos, a discriminação e a separação entre as pessoas constituíam uma característica muito difundida no ambiente político e religioso de seu tempo, assim como no nosso. Ao trazer a luz de um amor divino que deseja reconectar cada um com sua existência, ainda que conturbada, com as outras pessoas de seu entorno e, por fim, com o próprio Deus, com vistas a uma fraternidade de justiça e paz, Jesus não pode deixar de entrar em conflito com os poderes de seu tempo, uma vez que sua mensagem tem a força de uma autoridade (cf. Mc 1,27). Ao anunciar o rosto de amor de Deus, Jesus priva de todo fundamento aquele exercício despótico do poder religioso e político de sua época, que esqueceu sua própria natureza de serviço e de unidade. Deus não abençoa a divisão, muito menos a discriminação. Ele é Pai e ama todo ser vivo (cf. Sab 1,13-14). Nenhuma lei ou autoridade humana ou religiosa poderá jamais declarar alguém indigno de seu amor ou do amor dos demais seres humanos.
19. A tensão entre as palavras e os gestos de Jesus e os desentendimentos com o poder de sua época atinge o ápice na decisão das autoridades religiosas e políticas de condená-lo à morte. Sua pregação, acompanhada de sinais extraordinários, deve ser interrompida e reduzida ao silêncio para sempre. Assim se decide sua morte na cruz, à qual o poder romano dá seu aval.
20. Mas essa condenação à morte não tem força para apagar a “verdadeira luz do mundo”. Aquele patíbulo injusto torna-se, na economia da salvação, o trono mais elevado do qual ressoa com absoluta clareza a mensagem evangélica e se manifesta ao mundo inteiro o poder iluminador do Evangelho do Filho e o seu Evangelho é este: Deus é amor para todos, Deus é misericórdia para todos. Ele é verdadeiramente para todos, e por isso o é também para aqueles que condenam e matam o Filho. O “sim” que Deus, em Jesus, diz ao ser humano e que mantém ardentemente acesa a verdadeira luz do mundo, que é o seu Filho, nunca pode ser transformado em um “não”. O amor do Pai, do Filho e do Espírito Santo pela humanidade é sem reservas, sem limites, sem medida e, em última análise, sem fronteiras (cf. 1Jo 4,7-8).
21. Nos momentos finais da vida terrena de Jesus, encontram pleno cumprimento as belíssimas palavras do antigo e maravilhoso livro do Cântico dos Cânticos: «Águas torrenciais não puderam extinguir o amor, nem rios poderão afogá-lo» (8,7). A incompreensão e a obstinação que levam os líderes do povo à condenação de Jesus, com a plena cumplicidade das autoridades romanas, não conseguem extinguir seu desejo de tirar a humanidade das trevas e acender nela a luz da vida. Pelo contrário, a boa e grande notícia do Cristianismo é justamente esta: nem mesmo o poder da morte conseguiu apagar a verdadeira luz do mundo.
22. Essa é, portanto, a certeza fundamental dos cristãos, sem a qual, como diz o apóstolo Paulo, tudo seria em vão: «E se Cristo não ressuscitou, vã é a nossa pregação, e vã nossa fé» (1 Cor 15,14). Essa mesma consciência foi expressa também por ocasião do Sínodo dos Jovens: «CRISTO VIVE: é Ele a nossa esperança e a mais bela juventude deste mundo! Tudo o que toca torna-se jovem, fica novo, enche-se de vida». É isso que os discípulos do Senhor, em todos os tempos, acreditam, anunciam e testemunham com a própria vida: Cristo está vivo e deseja que todo ser humano esteja vivo. Ele está sempre conosco e não nos abandona (cf. Mt 28,20). Por mais que uma pessoa se afaste d’Ele, Jesus nunca se afastará dela. Por meio de sua Igreja, o Ressuscitado permanece, em todos os tempos, ao lado de cada um, pronto para iluminar sua existência com o amor divino, enchendo-a de vida, de força e de esperança. A comunhão eclesial é hoje o lugar privilegiado onde Cristo continua a se deixar encontrar por meio de homens e mulheres progressivamente transformados por sua própria vida.
23. Para tornar possível sua missão de ser luz do mundo, a Igreja celebra com alegria o cumprimento da grande promessa de Cristo: «o Paráclito, o Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome, ele vos ensinará tudo e vos recordará o que eu vos tenho dito» (Jo 14,26); «ele dará testemunho de mim. E vós também dareis testemunho» (Jo 15,26-27). Sem a ação do Espírito Santo no íntimo dos corações, torna-se impossível transmitir a verdadeira luz de Cristo, como nos lembra também a Sequência de Pentecostes: «Vem, Pai dos pobres […] sem a tua força, nada há no homem». Nele depositamos nossa confiança, enquanto nos dispomos a buscar as diversas formas de cooperar com sua graça na evangelização do nosso tempo. É a Ele que pedimos o fervor e a alegria necessários para responder com fidelidade a esse chamado.
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