VENITE AD ME

CONSIDERAÇÕES SOBRE A TRANSMISSÃO DA FÉ EM UMA MUDANÇA DE ÉPOCA
INTRODUÇÃO
1. [Venite ad me] «Vinde a mim, todos os que estais cansados e carregados de fardos, e eu vos darei descanso» (Mt 11,28). O Senhor Jesus Cristo apresenta-se como fonte de descanso profundo diante do cansaço e das fadigas do coração humano. Assim, a transmissão da fé surge como um encontro, no qual Cristo se aproxima de cada pessoa na realidade concreta de sua vida, concedendo-lhe aquela verdadeira paz que só n’Ele é possível encontrar.
2. Jesus é a verdadeira luz do mundo e quem crê n’Ele, o Ressuscitado vivo, vence as trevas da morte e vive graças à luz da vida (cf. Jo 1, 6-9; 8,12). Esta é a fé da Igreja e esta é a fé que todo crente é chamado a difundir até os confins da terra. Tal compromisso — o da transmissão da fé, adaptado às condições socioculturais atuais — está no centro das presentes Considerações.
3. Essa responsabilidade de cada crente em Cristo, a verdadeira luz do mundo, representa um tema de grande atualidade para a vida e a missão da Igreja. O Dicastério havia sido solicitado várias vezes pelo Papa Francisco a apresentar uma reflexão sobre o assunto e havia acionado o procedimento ordinário para chegar às presentes Considerações. Os acontecimentos recentes, especialmente a eleição ao sólio pontifício do Papa Leão XIV, a celebração do Jubileu, bem como a perspectiva do próximo Jubileu da Redenção de 2033, constituem um estímulo adicional para avançar mais rapidamente na elaboração do documento.
4. As presentes Considerações pretendem, fundamentalmente, relançar a toda a comunidade eclesial o convite que o Santo Padre Leão XIV dirigiu aos bispos italianos, ao encontrá-los em junho de 2025: «Em primeiro lugar, é necessário um impulso renovado no anúncio e na transmissão da fé. Trata-se de colocar Jesus Cristo no centro tanto do anúncio quanto da existência e, seguindo o caminho indicado pela Evangelii gaudium, ajudar as pessoas a viver uma relação pessoal com Ele, para descobrir a alegria do Evangelho. Em uma época de grande fragmentação, é necessário voltar aos fundamentos da nossa fé, ao kerygma. Esse é o primeiro grande compromisso que motiva todos os outros». Portanto, como observa ainda o Santo Padre, a «evangelização deve hoje, de modo particular, confrontar-se também com as novas condições e dinâmicas na transmissão da fé de geração em geração. Em algumas regiões do mundo, esta transmissão está praticamente interrompida, o que exige a capacidade de assumir novos desafios». O objetivo específico do documento é, portanto, oferecer tanto uma reflexão específica quanto a sugestão de caminhos concretos para o anúncio do kerygma na mudança de época que estamos atravessando.
5. Tal anúncio é aquele capaz de despertar a fé naqueles que há muito não a praticam (pense-se, em particular, no mundo dos adultos e das novas gerações) ou de promover uma experiência de fé (fides qua) naqueles que ainda não conheceram Cristo, sem entrar no trabalho específico da catequese e da formação dos fiéis, ambas chamadas a oferecer também uma introdução ordenada e gradual à doutrina da Igreja (fides quae). A reflexão das presentes Considerações sobre a fides qua precede a questão da transmissão do depositum fidei, que este documento não pretende abordar de forma exaustiva.
6. Ao elaborar estas Considerações, foi realmente valiosa a contribuição de muitas Conferências Episcopais Nacionais, que responderam com grande solicitude ao pedido do Dicastério de enviar materiais relativos ao tema da transmissão da fé.
7. De particular relevância são os testemunhos, enviados pelos bispos, daqueles que descobriram ou redescobriram — ainda jovens ou já adultos — o Senhor Jesus e Seu Evangelho. Muitos deles são reproduzidos no último capítulo das presentes Considerações.
8. Uma última precisão diz respeito ao gênero do documento, que se trata de Considerações e não de uma Nota doutrinária. Seu objetivo, de fato, é principalmente estimular a reflexão eclesial e o empenho pastoral em torno da transmissão da fé. Por isso, o texto examina uma pluralidade de pontos de vista, sem, no entanto, pretender encerrar a questão, que permanece aberta a novas análises e desenvolvimentos. Isso significa que estas Considerações não se caracterizam, como outros textos do Dicastério para a Doutrina da Fé, pela precisão da linguagem e pela sistematicidade da exposição, mas adotam um estilo mais coloquial, como fica evidente sobretudo na mencionada seção dedicada aos testemunhos.
VENITE AD ME
CAPÍTULO I - O ANÚNCIO DO AMOR DO PAI
CAPÍTULO II - A LUZ DA FÉ
CAPÍTULO III - A MUDANÇA DE ÉPOCA
CAPÍTULO IV - A CENTRALIDADE DO KERYGMA
CAPÍTULO V - A TRANSMISSÃO DA FÉ NAS COMUNIDADES
CAPÍTULO VI - FÉ E CULTURA
CAPÍTULO VII - ALGUMAS CONSIDERAÇÕES ESPECÍFICAS
CAPÍTULO VIII - TESTEMUNHOS

CONCLUSÃO
138. O Dicastério para a Doutrina da Fé recebeu do Papa Francisco, nos últimos momentos de sua vida, a incumbência de oferecer à Igreja uma reflexão sobre a transmissão da fé; tal pedido foi posteriormente reiterado pelo Papa Leão XIV. O Dicastério acolheu essa tarefa no espírito da renovação missionária exigida de todo o povo de Deus, incluindo as instituições da Cúria. De fato, seu serviço não se limita à guarda de um acervo de doutrinas a serem acreditadas (credere Deum), mas abrange também a promoção de tudo o que favorece o envolvimento pessoal e ativo na acolhida da luz da fé (credere Deo e credere in Deum). Em particular, isso diz respeito à Secção Doutrinal do Dicastério, que é chamada a promover «os estudos destinados a aumentar a compreensão e a transmissão da fé ao serviço da evangelização, a fim de que a sua luz seja critério para compreender o significado da existência». A questão da transmissão da fé, portanto, não nos afasta do depositum fidei, nem implica a redução da abordagem à mera dimensão subjetiva da fides qua. Trata-se simplesmente de um apelo aos fiéis para que retornem ao cerne do patrimônio da fé cristã: o kerygma é, de fato, seu conteúdo central, que atravessa como um fio de ouro a hierarquia harmoniosa das «verdades da doutrina católica» e ilumina todos os conteúdos do depositum fidei, atraindo para a experiência de um encontro pessoal e comunitário com o Cristo vivo.
139. Ao longo da reflexão desenvolvida no presente documento, o Dicastério para a Doutrina da Fé acolheu com alegria a resposta generosa de numerosas Conferências Episcopais, que compartilharam sua sincera preocupação a respeito deste tema. A riqueza das contribuições recebidas ultrapassa os limites de um único documento; portanto, a questão abordada pelas presentes Considerações permanece aberta a aprofundamentos adicionais e a novos desdobramentos. Este Dicastério reconhece que tal âmbito pertence à competência de outro Dicastério, o Dicastério para a Evangelização – Secção para as Questões Fundamentais da Evangelização no Mundo, que há tempo está empenhado em um caminho de pesquisa e diálogo não apenas sobre a transmissão da fé, mas também sobre outros temas a ela relacionados: o catecumenato, as diversas formas de catequese, a formação dos fiéis, os contextos comunitários de acolhimento e crescimento dos novos crentes, etc.
140. Gostaríamos, agora, de encerrar estas Considerações sobre a transmissão da fé no contexto da mudança de época com uma imagem muito querida por todos os fiéis, capaz de representar um símbolo de esperança para o futuro. Trata-se da imagem da liturgia do acendimento do círio pascal e de sua colocação no altar, após a procissão ao longo da nave da igreja, durante a solene Vigília Pascal no rito latino. Como se sabe, após o acendimento do círio, tem início a procissão: com exceção do diácono que carrega o círio, todos caminham com as velas apagadas nas mãos. Em seguida, primeiro o celebrante e, depois, os demais participantes recebem do círio pascal, ou de velas acesas a partir dele, a chama com a qual acendem sua própria vela e, por sua vez, podem transmiti-la a outros.
141. Por três vezes, a proclamação “A luz de Cristo” (ou com a fórmula alternativa “Eis a luz de Cristo”), o Diácono anuncia ao mundo a presença da luz de Cristo, que se torna visível no acendimento progressivo das velas. Assim, a partir da única chama do círio pascal, todas as velas dos fiéis são acesas lenta e ordenadamente e, ao final da procissão, as luzes da igreja também são acesas.
142. Gostaríamos, assim, de imaginar o impulso que estas Considerações desejam oferecer à Igreja neste momento de mudança de época. Elas pretendem relembrar com veemência que Cristo é a verdadeira luz: Ele ilumina porque liberta das trevas e nos introduz na plenitude da vida, que é a realização do acolhimento do amor incondicional de Deus em nosso coração. A nós, crentes, já foi concedido o dom de encontrar a luz e de deixar que nossa vida seja iluminada pela “verdadeira luz” do mundo (cf. Jo 1,9). Cabe agora a nós transmitir esse mesmo dom aos homens e mulheres de nosso tempo, que talvez nem sempre de forma consciente também esperem poder iluminar sua existência com essa mesma fonte de toda graça, luz que resplandece no mundo.
143. Não se pode, enfim, deixar de mencionar o testemunho de tantos leigos evangelizadores que, nos tempos recentes, alcançaram a santidade. Muitos jovens admiraram a paixão pela evangelização em São Carlo Acutis, assim como o exemplo admirável de Santa María Antonia de Paz y Figueroa, conhecida como Mama Antula, em sua longa peregrinação evangelizadora. Além disso, numerosos leigos dedicaram suas vidas ao compromisso de levar a luz de Cristo: São Sebastião, São Paulo Chông Hasang, São Peter to Rot. Juntamente com eles, as contemplativas e os contemplativos alimentam o fogo da fé por meio da oração e da intercessão, pois sem a ação do Espírito Santo todos os nossos esforços se tornam vãos. Convidamos, portanto, todas as comunidades a promoverem, em seu seio, momentos de oração e intercessão que apoiem a transmissão da luz da fé.
144. Maria, que se fez presente entre os diversos povos por meio das mais variadas formas de fé e devoção, tornando assim mais reconhecível sua proximidade maternal, leva sempre consigo a luz e o amor do Senhor. O Evangelho conta que ela agiu assim desde o início, quando levou Jesus a Isabel (cf. Lc 1,39-45). Ela continua a fazê-lo também hoje, oferecendo a beleza do Evangelho. Maria, de fato, meditou atentamente e guardou em seu coração tudo o que Cristo fez e disse (cf. Lc 2,19.51). Ela foi a grande testemunha da encarnação e do nascimento do Senhor até sua morte na cruz e sua ressurreição, acompanhando-o ao longo de toda a sua vida terrena. Por isso, diante do rosto de Maria, o povo fiel reconhece «nesta imagem materna, […] todos os mistérios do Evangelho». Quem olha para a fé mariana dos simples com uma atitude exclusivamente intelectual corre o risco de não compreender que, muitas vezes, o Evangelho de Cristo é transmitido de forma mistagógica, por meio de símbolos, experiências, confiança e afeto. A Maria, Mestra da transmissão da fé, pedimos que interceda por nós no compromisso renovado de levar a luz de Cristo às novas gerações.
O Sumo Pontífice Leão XIV, na Audiência concedida ao abaixo assinado, Prefeito, juntamente com o Secretário da Seção Doutrinal do Dicastério para a Doutrina da Fé, no dia 21 de agosto de 2026, Memória litúrgica de São Pio X, Papa, aprovou o presente documento, deliberado na Secção Ordinária deste Dicastério em 24 de junho de 2026, Solenidade da Natividade de São João Batista, e ordenou sua publicação.
Dado em Roma, na sede do Dicastério para a Doutrina da Fé, em 22 de outubro de 2026, Memória litúrgica de São João Paulo II.
Víctor Manuel, Cardeal Fernández
Prefeito
Mons. Armando Matteo
Secretário
da Secção Doutrinal
Ex Audientia Die: 21 Augusti 2026
(As notas deste documento estão apenas disponíveis na página do Vaticano aqui:)
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