CAPÍTULO II - A LUZ DA FÉ

CAPÍTULO II - A LUZ DA FÉ

24. À luz do que foi dito até aqui, compreende-se melhor o fundamento do Cristianismo, tal como foi expresso por Bento XVI: «Ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo». Um novo horizonte e um rumo decisivo são os da alegria, como lembra o Papa Francisco no início da Evangelii gaudium: «A Alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus. Quantos se deixam salvar por Ele são libertados do pecado, da tristeza, do vazio interior, do isolamento. Com Jesus Cristo, renasce sem cessar a alegria».

 

25. Este é, portanto, o cerne da experiência cristã: o encontro com o Senhor Jesus, que nos coloca em contato com a verdadeira luz do amor divino, faz com que não nos percamos nas trevas e nos conduz à vida. É justamente nesse sentido que se pode falar da luz da fé, como se afirma na primeira carta encíclica de mesmo nome do Papa Francisco, para cuja redação Bento XVI também contribuiu: «A luz da fé é a expressão com que a tradição da Igreja designou o grande dom trazido por Jesus. Eis como Ele Se nos apresenta, no Evangelho de João: “Eu vim ao mundo como luz, para que todo o que crê em Mim não fique nas trevas” (Jo 12, 46). E São Paulo exprime-se nestes termos: “Porque o Deus que disse: ‘das trevas brilhe a luz’, foi quem brilhou nos nossos corações” (2 Cor 4, 6). No mundo pagão, com fome de luz, tinha-se desenvolvido o culto do deus Sol, Sol invictus, invocado na sua aurora. Embora o sol renascesse cada dia, facilmente se percebia que era incapaz de irradiar a sua luz sobre toda a existência do homem. De fato, o sol não ilumina toda a realidade, sendo os seus raios incapazes de chegar até às sombras da morte, onde a vista humana se fecha para a sua luz. Aliás “nunca se viu ninguém — afirma o mártir São Justino — pronto a morrer pela sua fé no sol”. Conscientes do amplo horizonte que a fé lhes abria, os cristãos chamaram a Cristo o verdadeiro Sol, “cujos raios dão a vida”. A Marta, em lágrimas pela morte do irmão Lázaro, Jesus diz-lhe: “Eu não te disse que, se acreditares, verás a glória de Deus?” (Jo 11, 40). Quem acredita, vê; vê com uma luz que ilumina todo o percurso da estrada, porque nos vem de Cristo ressuscitado, estrela da manhã que não tem ocaso».

 

26. A experiência da fé pode, assim, ser imaginada como o encontro vital e decisivo com aquele “verdadeiro sol” que é Cristo, o qual liberta das trevas e enche de luz a existência humana. É uma experiência de luz que, por sua própria natureza, irradia-se para outras existências a fim de iluminá-las com a mesma luz; essas, resplandecendo por sua vez, ampliarão o raio de propagação da luz originária: a verdadeira luz do mundo, que é Cristo. Como não lembrar, a esse respeito, as palavras do próprio Jesus dirigidas aos seus discípulos: «Vós sois a luz do mundo» (Mt 5,14)?

 

27. É precisamente a esse dinamismo que devemos nos referir quando refletimos sobre o delicado tema da transmissão da fé no contexto contemporâneo, aqui evocado como um tempo de mudança de época. O texto da Lumen fidei confirma isso com extrema precisão: «Quem se abriu ao amor de Deus, acolheu a sua [de Cristo] voz e recebeu a sua [de Cristo] luz, não pode guardar este dom para si mesmo. Uma vez que é escuta e visão, a fé transmite-se também como palavra e como luz; dirigindo-se aos Coríntios, o apóstolo Paulo utiliza precisamente estas duas imagens. Por um lado, diz: “Animados do mesmo espírito de fé, conforme o que está escrito: Acreditei e por isso falei, também nós acreditamos e por isso falamos” ( 2 Cor 4, 13); a palavra recebida faz-se resposta, confissão, e assim ecoa para os outros, convidando-os a crer. Por outro, São Paulo refere-se também à luz: “E nós todos que, com o rosto descoberto, refletimos a glória do Senhor, somos transfigurados na sua própria imagem” ( 2 Cor 3, 18); é uma luz que se reflete de rosto em rosto, como sucedeu com Moisés cujo rosto refletia a glória de Deus depois de ter falado com Ele: “[Deus] brilhou nos nossos corações, para irradiar o conhecimento da glória de Deus, que resplandece na face de Cristo” ( 2 Cor 4, 6). A luz de Jesus brilha no rosto dos cristãos como num espelho, e assim se difunde chegando até nós, para que também nós possamos participar desta visão e refletir para outros a sua luz, da mesma forma que a luz do círio, na liturgia de Páscoa, acende muitas outras velas. A fé transmite-se por assim dizer sob a forma de contato, de pessoa a pessoa, como uma chama se acende noutra chama. Os cristãos, na sua pobreza, lançam uma semente tão fecunda que se torna uma grande árvore, capaz de encher o mundo de frutos».

 

28. O mesmo documento, no parágrafo seguinte, lembra ainda que a «transmissão da fé, que brilha para as pessoas de todos os lugares, passa também através do eixo do tempo, de geração em geração. Dado que a fé nasce de um encontro que acontece na história e ilumina o nosso caminho no tempo, a mesma deve ser transmitida ao longo dos séculos». Se, portanto, por um lado, a transmissão da fé se assemelha ao acender de uma chama a partir de outra chama, em um contato que poderíamos chamar de pessoal, por outro lado, a comunidade dos discípulos sempre se sentiu chamada a criar ocasiões nas quais a fé pudesse ser transmitida: ocasiões em que fosse possível a todos entrar em contato com a verdadeira luz da vida, aquela que liberta de toda escuridão e que se encontra no Senhor Jesus. Os discípulos sentiram, portanto, o dever de transmitir a fé; um dever que deve ser preservado e honrado de geração em geração.

 

29. A transmissão da fé tem seu fundamento último na iniciativa de Deus, que em Cristo revelou seu rosto e confiou aos Apóstolos a tarefa de anunciar o Evangelho a todas as nações. Essa missão, no entanto, não se concluiu com a pregação apostólica, mas continua na história por meio da Igreja. O Concílio Vaticano II afirma, de fato, que «a Igreja, na sua doutrina, vida e culto, perpetua e transmite a todas as gerações tudo aquilo que ela é e tudo quanto acredita». A Igreja é, assim, o sujeito histórico e vivente no qual o Evangelho é ouvido, guardado, celebrado e continuamente atualizado sob a ação do Espírito Santo. Por essa razão, a fé não é transmitida, em primeiro lugar, como um conjunto de conteúdos doutrinários ou de informações religiosas, mas como uma forma de vida eclesial na qual o crente é progressivamente introduzido. O sujeito principal da transmissão da fé é, portanto, a Igreja em sua totalidade, a qual, ao receber incessantemente o dom da Palavra divina, comunica-o e o testemunha por meio da pregação, da liturgia, da caridade e da experiência concreta da comunhão. Pode-se, portanto, afirmar com razão que a Igreja «é uma Mãe que nos ensina a falar a linguagem da fé».

 

FORMAS DE TRANSMISSÃO DA FÉ

 

30. É importante afirmar com clareza que a força mais autêntica da missão evangelizadora da comunidade dos discípulos do Senhor continua sendo sempre a da atração, como lembrou Bento XVI na homilia da Santa Missa de inauguração da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe: «A missão de Cristo realizou-se no amor. Ele acendeu no mundo o fogo da caridade de Deus (cf. Lc 12,49). É o amor que dá a vida: por isso a Igreja é convidada a difundir no mundo a caridade de Cristo, porque os homens e os povos “tenham a vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10). [...] A Igreja se sente discípula e missionária desse Amor : missionária somente enquanto discípula, isto é capaz de deixar-se sempre atrair, com renovado enlevo, por Deus que nos amou e nos ama por primeiro (1Jo 4,10). A Igreja não faz proselitismo. Ela cresce muito mais por “atração”: como Cristo “atrai todos a si” com a força do seu amor, que culminou no sacrifício da Cruz, assim a Igreja cumpre a sua missão na medida em que, associada a Cristo, cumpre a sua obra conformando-se em espírito e concretamente com a caridade do seu Senhor». Essa reflexão também foi adotada pelo Papa Leão XIV: «Retomo-a hoje, com alegria, e partilho-a convosco. A mim mesmo e a vós, lanço o convite a prestar muita atenção ao que o Papa Bento XVI indicou como a “força” que preside a este movimento de atração: essa força é a Charis, o Agape, o Amor de Deus que se fez carne em Jesus Cristo e que, no Espírito Santo, é dado à Igreja, santificando todas as suas ações. Na verdade, não é a Igreja que atrai, mas Cristo, e se um cristão ou uma comunidade eclesial atrai, é porque através desse “canal” chega a seiva vital da Caridade que brota do Coração do Salvador».

 

A FAMÍLIA

 

31. Entre os âmbitos nos quais a Igreja é chamada a comunicar e a fazer resplandecer a luz de Cristo, a família constitui o primeiro e mais essencial lugar de transmissão da fé. Já no Novo Testamento se destaca o papel dos familiares na transmissão da fé. A Timóteo, por exemplo, o apóstolo Paulo dirige-se dizendo: «Recordo-me também da fé sincera que há em ti, fé que habitou, primeiro, em tua avó Loide e em tua mãe Eunice, e que certamente habita também em ti» (2 Tm 1,5). Esse aspecto também foi destacado pelo Papa Leão XIV: «Na família, a fé é transmitida, de geração em geração, juntamente com a vida: é partilhada como o alimento da mesa e os afetos do coração. Isso torna-a um lugar privilegiado para encontrar Jesus, que nos ama e quer sempre o nosso bem».

 

32. Ao longo das décadas, com a formação e a consolidação das comunidades cristãs, surge também seu papel ativo na tarefa de transmitir a fé. Em particular, com a difusão da prática do batismo infantil, as comunidades e as famílias sentem-se unidas na responsabilidade comum de introduzir os mais novos ao encontro com o Senhor Jesus. Trata-se da consciência de que, se as crianças recebem a vida dos pais, no batismo elas recebem «o sentido para a viver: a fé. Quando sabemos que um bem é essencial, imediatamente o procuramos para aqueles que amamos. Quem de nós, afinal, deixaria os recém-nascidos sem roupa ou alimento, à espera que escolham como se vestir e o que comer quando crescerem? […] se comida e vestuário são necessários para viver, a fé é mais do que necessária, porque com Deus a vida encontra a salvação».

 

33. Permanece, em todo caso, a necessidade de uma profunda integração entre a Igreja e a família, como lembra claramente também a Lumen fidei: a «estrutura do Batismo põe em evidência a importância da sinergia entre a Igreja e a família na transmissão da fé. Os pais são chamados — como diz Santo Agostinho — não só a gerar os filhos para a vida, mas a levá-los a Deus, para que sejam, através do Batismo, regenerados como filhos de Deus, recebam o dom da fé. Assim, juntamente com a vida, é-lhes dada a orientação fundamental da existência e a segurança de um bom futuro; orientação esta, que será ulteriormente corroborada no sacramento da Confirmação com o selo indelével do Espírito Santo». A esse respeito, é interessante a ligação que se pode vislumbrar na Igreja latina entre a liturgia do acendimento do círio pascal — prelúdio à grande celebração da Páscoa, centro e ápice da fé cristã — e a celebração do Batismo, porta dessa mesma fé, sobretudo na referência a Cristo Luz, que deve ser acolhido na existência de cada crente.

 

34. Nessa perspectiva, soa como particularmente significativo o que o próprio documento magisterial afirma mais adiante: «Em família, a fé acompanha todas as idades da vida, a começar pela infância: as crianças aprendem a confiar no amor de seus pais. Por isso, é importante que os pais cultivem práticas de fé comuns na família, que acompanhem o amadurecimento da fé dos filhos. Sobretudo os jovens, que atravessam uma idade da vida tão complexa, rica e importante para a fé, devem sentir a proximidade e a atenção da família e da comunidade eclesial no seu caminho de crescimento da fé».

 

35. É significativo recordar aqui uma página intensa de memórias escrita pelo jesuíta Aimé Duval, na qual é possível vislumbrar a obra silenciosa e quase natural do testemunho cristão vivido pelos pais em relação aos próprios filhos. Escreve o padre Duval, no contexto do relato de sua conturbada trajetória humana e religiosa: «Eu era o quinto de uma família de nove filhos. Antes de mim: Lucie, Marie, Hélène, Marcel; e depois: René, Raymond, Suzanne e André. Nessa família, não me ensinaram a piedade de um modo expansivo e extraordinário. No dia a dia, havia apenas a oração da noite, recitada em conjunto. Mas disso, eu me lembro e me lembrarei até meus olhos se fecharem. Minha irmã. Minha irmã Hélène recitava as orações, longas para crianças (um quarto de hora). Ela acelerava o ritmo, gaguejava, tomava atalhos, até o momento em que meu pai lhe dizia no dialeto: “Recomeça... Repita... ”. Foi assim que aprendi, naquele momento, que era preciso conversar com o Bom Deus com lentidão, seriedade e gentileza paciente. Meu pai. O que me emociona hoje é lembrar-me da atitude do meu pai. Ele, que estava sempre cansado por causa dos trabalhos no campo ou do transporte de lenha, ele, que demonstrava sem vergonha que estava cansado ao voltar do trabalho, eis que, após cada jantar, se ajoelhava, com os cotovelos apoiados no assento de uma cadeira, a testa entre as mãos, sem olhar para os filhos ao seu redor, sem se mover, sem tossir, sem demonstrar impaciência. E eu pensava: “Meu pai, que é tão forte, que comanda sua casa e seus dois bois grandes, que se mantém orgulhoso diante dos golpes do destino e tão pouco tímido diante do prefeito, dos ricos e dos espertalhões, eis que se torna bem pequeno diante do Bom Deus. Realmente, é algo bem diferente conversar com o Bom Deus. De fato, o Bom Deus deve ser alguém muito grandioso para que meu pai se ajoelhe, e também alguém muito familiar para que ele converse com Ele vestindo suas roupas de trabalho...”. Minha mãe. Quanto à minha mãe, nunca a vi de joelhos. Cansada demais, ela sentava-se no meio da sala, com o caçula nos braços, o vestido preto até os calcanhares, seus lindos cabelos castanhos soltos sobre o pescoço e todas as crianças ao seu redor, encostadas nela. Ela acompanhava com os lábios as orações do início ao fim; não queria perder nem um pingo, recitava-as por conta própria. O mais curioso é que ela não parava de nos olhar, cada um sob seu olhar. Um olhar mais demorado para os pequenos. Ela nos olhava, mas nunca dizia nada. Nem mesmo quando os pequenos se mexiam e cochichavam, nem mesmo quando o trovão estrondava sobre a casa, nem mesmo quando o gato derrubava uma panela. E eu pensava: “De verdade, o Bom Deus é muito bondoso por permitir que conversemos com Ele com uma criança nos braços, usando seu avental de trabalho. De verdade, o Bom Deus é alguém importante para que o gato ou o trovão não tenham mais importância”. As mãos do meu pai, os lábios da minha mãe, ensinaram-me sobre o Bom Deus muito mais do que meu catecismo. Ele é Alguém, Ele é Alguém próximo. Só se fala com Ele de verdade quando se trabalhou».

 

36. Este comovente relato de uma iniciação simples e alegre das crianças ao mistério de Deus, possibilitada pelo testemunho dos pais, confirma plenamente a intuição repetidamente evocada pelo Papa Francisco: a fé deve ser transmitida, no seio da família, “no dialeto”. Por ocasião da Festa do Batismo do Senhor, em 7 de janeiro de 2018, ele dirigiu-se assim aos pais que haviam levado seus filhos ao batismo: «Gostaria de vos dizer apenas uma coisa, que se refere a vós [pais]: a transmissão da fé só pode ser feita “em dialeto”, no dialeto da família, no dialeto do pai e da mãe, do avô e da avó. Depois virão os catequistas que desenvolverão esta primeira transmissão, com ideias, com explicações.... Mas não vos esqueçais disto: faz-se “em dialeto”, e se o dialeto faltar, se em casa os pais não falarem entre eles aquela linguagem do amor, a transmissão não será muito fácil, não se poderá fazer. Não vos esqueçais. A vossa tarefa consiste em transmitir a fé, mediante o dialeto do amor da vossa casa, da família». Esse ponto também foi reiterado pelo Papa Leão XIV: «os primeiros catequistas são os pais, aqueles que primeiro nos falaram e nos ensinaram a falar. Assim como aprendemos a nossa língua materna, também o anúncio da fé não pode ser delegado a outros, mas acontece no lugar onde vivemos. Em primeiro lugar, nas nossas casas, à volta da mesa: quando há uma voz, um gesto, um rosto que conduz a Cristo, a família experimenta a beleza do Evangelho».

 

37. A transmissão da fé encontrou assim, até tempos recentes, justamente nos contextos familiares o principal local de passagem entre as gerações. São sobretudo os pais que constituem aquele primeiro “tabernáculo” no qual os pequenos podem vislumbrar toda a beleza e a força de ser discípulos do Senhor Jesus. Esse testemunho se concretiza em uma trama de gestos simples e cotidianos: a oração pessoal e em casal, a leitura do Evangelho, a recordação das palavras e dos gestos de Jesus, a memória dos santos padroeiros, a invocação constante da proteção maternal da Virgem Maria, a participação na missa dominical, a visita aos santuários e as diversas formas de piedade popular, a atenção aos mais pobres e desfavorecidos, mas também por meio da oração de ação de graças antes das refeições e da bênção do Senhor por ocasião dos aniversários de um dos membros da família, bem como da montagem devota do presépio por ocasião das festas natalinas.

 

38. No entanto, é preciso constatar que essa situação favorável está gradualmente se esvaindo. De fato, como será visto mais adiante com maior detalhe, uma das características da nossa época é o fato de que, embora mantenha sua importância em algumas regiões da África e da Ásia, a transmissão da fé no âmbito familiar foi interrompida em muitas partes do mundo. Consequentemente, a transmissão da experiência da fé cristã às novas gerações não ocorre mais de forma, por assim dizer, “automática”.

 

A COMUNIDADE ECLESIAL

 

39. É somente nesse momento, e posteriormente, que a comunidade eclesial entra no processo de transmissão da fé. O que uma pessoa recebeu de seus pais — o testemunho de fé em Jesus, que revelou plenamente o rosto do amor infinito de Deus, libertando os seres humanos das trevas e abrindo-os à verdadeira luz da vida — encontra na Igreja os meios e as oportunidades para que se torne o princípio fundamental de sua maneira de encarar o mundo. Por meio da catequese, da celebração dos sacramentos, dos diversos espaços que favorecem uma participação ativa na vida comunitária – como propõe o atual caminho sinodal –, do compromisso em favor dos mais desfavorecidos e do encontro na casa do Senhor aos domingos, alcança-se aquela maturidade da fé que consiste, em última análise, em olhar para tudo “com os olhos de Jesus”.

 

40. Graças à ação coordenada entre pais e comunidade eclesial, de fato, cada um aprende que «na fé, Cristo não é apenas Aquele em quem acreditamos, a maior manifestação do amor de Deus, mas é também Aquele a quem nos unimos para poder acreditar. A fé não só olha para Jesus, mas olha também a partir da perspectiva de Jesus e com os seus olhos: é uma participação no seu modo de ver». Essa é a plena realização do processo que aqui chamamos de transmissão da fé: permitir que cada um alcance tal intimidade com o Senhor Jesus a ponto de poder, finalmente, olhar para si mesmo, para os outros, para o mundo e para o mistério de Deus com os próprios olhos de Jesus. Percebe-se, assim, que o acompanhamento da comunidade é essencial não apenas para acolher o Evangelho, mas também para permanecer fiel ao dom recebido, pois é muito difícil perseverar sozinho.

 

41. É preciso constatar, além disso, que, nos países de antiga tradição cristã, esse contexto de transmissão da fé parece hoje comprometido, pois é caracterizado cada vez mais pela presença de «“pessoas batizadas que, porém, não vivem as exigências do Batismo”, não sentem uma pertença cordial à Igreja e já não experimentam a consolação da fé. Mãe sempre solícita, a Igreja esforça-se para que elas vivam uma conversão que lhes restitua a alegria da fé e o desejo de se comprometerem com o Evangelho». Além disso, cresce, sobretudo entre os jovens, o número daqueles que não conhecem Jesus e o Evangelho.

 

42. Justamente por essa razão, a transmissão da fé exige hoje, particularmente, a evangelização dos adultos e a superação de uma ação pastoral concentrada exclusivamente na catequese de crianças e adolescentes.

 

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