43. Merece atenção especial o contexto da transmissão da fé, objeto das presentes Considerações, expresso por meio da categoria de “mudança de época”. Como se sabe, foi o Papa Francisco quem tornou famosa essa expressão em seu discurso à Cúria romana por ocasião da troca de votos natalinos, em 21 de dezembro de 2019, afirmando: «estamos a viver não simplesmente uma época de mudanças, mas uma mudança de época. Encontramo-nos, portanto, num daqueles momentos em que as mudanças já não são lineares, mas epocais; constituem opções que transformam rapidamente o modo de viver, de se relacionar, de comunicar e elaborar o pensamento, de comunicar entre as gerações humanas e de compreender e viver a fé e a ciência». Como já havia sido lembrado há mais de dez anos pelo Documento Final da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe, realizada em maio de 2007 em Aparecida (Brasil), dessa mudança «o nível mais profundo é cultural. Desaparece a concepção integral do ser humano, sua relação com o mundo e com Deus».
44. Essa situação está fundamentalmente ligada à crise do modelo cultural da modernidade, que afeta de maneira particular o contexto europeu. Pode-se perguntar, portanto, se falar de “mudança de época”, no singular, faz jus aos processos que as Igrejas, em todas as partes do mundo, estão enfrentando. A resposta a essa questão é, sem dúvida, positiva, pelo menos se nos mantivermos em um nível geral, por motivos ligados ao conhecido fenômeno da globalização, que favoreceu a difusão efetiva da influência da cultura ocidental em todas as regiões do planeta. Aliás, é inegável que algumas experiências, como a tragédia da pandemia da Covid-19, tenham reforçado a consciência generalizada de pertencer a uma única família, embora não faltem tendências que se movem na direção oposta.
45. A urgência de abordar as questões suscitadas pela mudança de época também foi manifestada pelo Papa Leão XIV em sua primeira Carta Encíclica Magnifica humanitas: «Estamos a viver uma rápida fase de transição, uma “mudança de época” em que, enquanto alguns disputam o futuro das novas tecnologias e outros se dedicam à reflexão sobre elas, a maioria das pessoas permanece a aguardar, observa de longe, simplesmente esperando que tudo corra bem. Exatamente por isso, impõem-se à nossa consciência questões decisivas, que não podem já ser evitadas: Para onde vamos? Para que meta desejamos orientar-nos? Que direção escolher enquanto comunidade humana e enquanto povos?». As características gerais dessa mudança foram destacadas pelo Santo Padre: «a inteligência artificial e outras inovações remodelam a nossa compreensão do trabalho e das relações, inclusive levantando questões sobre a identidade humana. A degradação ecológica ameaça a nossa casa comum. Os sistemas políticos muitas vezes não respondem ao clamor dos pobres. Populismo e polarização ideológica aprofundam as divisões entre as nações. Muitos são atingidos pelo consumismo, individualismo e indiferença». A isso pode-se acrescentar também a crescente disparidade econômica, que, às vezes, leva à desestabilização de regiões inteiras. Trata-se de fatores globais que acarretam profundas mudanças sociais. Tais transformações afetam praticamente todos os contextos culturais e não poupam nem mesmo a Igreja, pois ela está encarnada na história e participa da vida dos povos.
46. Por um lado, de fato, o apelo exercido por um estilo de vida economicamente confortável e a legítima aspiração a melhores condições de vida, favorecida também pelo já mencionado desenvolvimento tecnológico, contribuem para a difusão de mentalidades materialistas e individualistas em todos os continentes. Isso, juntamente com outros fatores, alimenta, em nível global, o fenômeno das migrações, muitas vezes marcado por aspectos dramáticos. Por outro lado, esses mesmos processos, inclusive nos países de evangelização antiga, favoreceram a formação de contextos multiculturais nos quais, ao lado do secularismo, coexistem expressões culturais próprias de diferentes povos, chamados a enfrentar o desafio de uma convivência pacífica. É, portanto, necessário reconhecer que tais dinâmicas não são vividas de maneira uniforme nas diversas regiões do planeta. Da mesma forma, deve-se ressaltar que a relação com a modernidade ocidental — que caracteriza sobretudo um perfil específico da Igreja — se manifesta de maneiras diferenciadas, dependendo das culturas às quais pertencem as diversas comunidades cristãs. Essa realidade é reconhecida pelo Papa Leão XIV: «o Povo de Deus não é composto apenas por muitos povos, mas é constituído, no seu seio, por funções, vocações, culturas e tradições diversas, chamadas a apoiar-se e a enriquecer-se mutuamente. […] Pertence intimamente à vida da Igreja a tensão fecunda entre a universalidade da missão e o enraizamento local: ela traz dentro de si o horizonte do mundo inteiro, assumindo as questões de cada contexto como lugar concreto onde o Evangelho se faz história». Pode-se concluir, portanto, que um dos aspectos mais relevantes da mudança de época diz respeito ao estabelecimento de uma nova relação entre a fé – e, portanto, sua transmissão – e as culturas.
A CRISE DA TRANSMISSÃO DA FÉ
47. Um aspecto característico da mudança de época que afeta, por diferentes motivos, sobretudo o Ocidente — ou seja, aqueles países em que a fé cristã teve também uma relevância sociológica majoritária — diz respeito à crise da transmissão geracional da fé cristã. Isso já havia sido apontado pela Evangelii gaudium: «Também não podemos ignorar que, nas últimas décadas, se produziu uma ruptura na transmissão geracional da fé cristã no povo católico. É inegável que muitos se sentem desiludidos e deixam de se identificar com a tradição católica, que cresceu o número de pais que não batizam os seus filhos nem os ensinam a rezar, e que há um certo êxodo para outras comunidades de fé».
48. Isso tem muito a ver, especialmente na Europa, nos Estados Unidos da América e no Canadá, mas também na Austrália e na Nova Zelândia, com uma fase avançada de secularização, que levou a uma crise significativa do cristianismo vivido no âmbito familiar. Na verdade, cada vez menos pais cumprem a tarefa de colocar seus filhos em contato com a luz viva da mensagem evangélica. É justamente desses contextos familiares que provém a maioria dos jovens, homens e mulheres que, apesar de terem frequentado os ambientes católicos da paróquia, acabam vivendo a transição para a idade adulta com uma atitude de indiferença religiosa substancial. Para essas pessoas que, mesmo tendo recebido o Batismo, perderam o senso cristão da vida, Jesus, sua mensagem de amor, aquela luz que Ele veio irradiar na história humana, já não representa nem um elemento essencial de sua identidade nem um recurso confiável para discernir o que é justo fazer em vista de uma vida humanamente digna.
49. Isso não diz respeito, porém, apenas ao chamado Ocidente avançado. Na Europa oriental, por exemplo, que passou pela grave provação dos regimes totalitários comunistas e pela consequente instauração de uma sociedade baseada no ateísmo de Estado – ainda que os efeitos não tenham sido os mesmos em todos os lugares – foi a geração dos atuais pais que sofreu com a interrupção da transmissão da fé. Isso é atestado, em particular, pelos bispos dos territórios da antiga União Soviética, que puderam constatar «que a fé havia passado das avós […] para os netos, mas sem o envolvimento direto da geração intermediária. Em consequência disso, a geração dos “netos” não encontrou nos pais uma fé vivida na experiência cotidiana». Testemunhos semelhantes são oferecidos também pelos bispos da Albânia. Por isso, concluem os bispos da Igreja greco-católica da Hungria, «não podemos mais considerar como certo que os pais transmitam automaticamente a fé aos seus filhos. O que no passado se revelava eficaz, na situação atual não produz mais os mesmos frutos».
50. Essa ruptura na transmissão da fé na família também é observada na América Latina e no Caribe, onde se manifesta sobretudo como uma interrupção da continuidade orgânica entre família e sociedade. De fato, como observam os bispos do Chile: «Durante décadas, considerou-se natural que houvesse uma continuidade entre família, escola, cultura e comunidade eclesial. Nesse contexto, a fé podia ser descrita como algo que se transmitia de maneira relativamente orgânica de uma geração para outra». A esse respeito, os bispos das Antilhas observam um enfraquecimento da continuidade entre gerações, sobretudo no que diz respeito à catequese e à prática sacramental. Em outro contexto, como o do Panamá, onde a fé ainda está bem presente nas manifestações populares e nos momentos importantes da vida, percebe-se que ela «não é mais transmitida de forma natural dentro das famílias». Na Colômbia, assim como em outros lugares do planeta, são os avós que suprem as lacunas da catequese doméstica, em paralelo com aquela paroquial; em outras regiões, por outro lado, por motivos ligados à cultura local, chega-se até mesmo a adiar o batismo dos filhos para uma idade mais adulta, como no caso da Amazônia peruana. Em suma, todos esses depoimentos mostram que uma espécie de “automatismo” na transmissão da fé deixou de existir.
51. Um problema semelhante afeta também a maioria das Igrejas da Ásia, sobretudo nas regiões tecnologicamente mais avançadas. Nesses casos, porém, trata-se de um cristianismo que sempre foi minoritário no âmbito social e que só recentemente vem enfrentando algumas dificuldades na transmissão da fé no seio da família. Na Coreia, por exemplo, os bispos observam que, devido à preocupação dos pais, sobretudo com a carreira acadêmica e profissional dos filhos, a tarefa da catequese dos mais jovens é assumida principalmente pelos avós. Também os bispos da Malásia, Singapura e Brunei denunciam a prioridade dada às exigências da carreira, enquanto a formação espiritual é progressivamente reduzida ao uso pessoal dos meios modernos de comunicação. Em Bangladesh, observa-se uma situação semelhante, agravada ainda mais por um contexto social de maioria muçulmana. No Japão, por outro lado, encontram-se dificuldades, em certos aspectos, semelhantes às do mundo ocidental, sobretudo no que se refere à catequese paroquial e à grande difusão dos matrimônios entre pessoas pertencentes a tradições religiosas diferentes que, de certa forma, dificultam a transmissão da fé no seio da família. Isso também ocorre nos países da Ásia Central, que outrora pertenciam ao bloco soviético, nos quais a Igreja permaneceu, no entanto, uma realidade minoritária e vive condições análogas às das comunidades da Europa Oriental, onde, por várias décadas, sobreviveu, sob regimes totalitários, uma «Igreja do silêncio».
52. Apesar da grande variedade de contextos, nem mesmo a África está isenta de dinâmicas que interrompem a transmissão geracional da fé. Em primeiro lugar, isso se deve a uma certa secularização dos costumes induzida pela influência de um estilo de vida ocidental, adotado sobretudo pelas gerações mais jovens. Existem, no entanto, também outros fatores, ligados principalmente à relação com as culturas locais. Em particular, pode-se constatar que uma obra de inculturação do Evangelho não plenamente realizada, apesar das manifestações públicas de religião ainda difundidas na vida social, conduz a uma fé superficial, desprovida de raízes e mais exposta a influências externas. É o que testemunham, por exemplo, os bispos da África do Sul: «apesar de o Cristianismo ser amplamente difundido, ele permanece frequentemente em um nível superficial, necessitando de uma encarnação mais profunda do Evangelho na espiritualidade africana». Portanto, um dos principais desafios para a transmissão da fé, que caracteriza de maneira transversal o continente africano, diz respeito à crescente concorrência, cada vez mais agressiva, exercida por movimentos religiosos de diversas origens e ao retorno às práticas religiosas tradicionais, mesmo após o batismo.
53. Sem entrar na complexidade das causas que geraram tais transformações, é dentro desse contexto de verdadeira reescrita das condições fundamentais da existência humana que deve ser situada a crise da transmissão geracional da fé e o desafio que ela representa para a Igreja. No passado, tais condições eram interpretadas sobretudo a partir do Cristianismo, tanto na sociedade como um todo quanto no seio das comunidades individuais. De maneira mais geral, é preciso reconhecer que não está em crise apenas a transmissão da fé, mas também uma certa visão do ser humano e de seus valores fundadores e fundamentais e essenciais, que havia encontrado no próprio Evangelho sua plenitude. A crise da modernidade, símbolo da mudança de época, contribuiu assim para o surgimento de uma nova cultura, que passou a competir com as estruturas tradicionais de transmissão da fé. Isso levou, por sua vez, à crise do chamado modelo de cristandade, acompanhada pela percepção generalizada, em diversas regiões do mundo, de que a tarefa dos sacerdotes se limita frequentemente à “manutenção” das estruturas existentes, quando o mundo ao seu redor mudou radicalmente.
UMA NOVA CULTURA DIFUNDIDA
54. Partindo dessa situação, a Evangelii gaudium convida à seguinte constatação: «Novas culturas continuam a formar-se nestas enormes geografias humanas [as metrópoles] onde o cristão já não costuma ser promotor ou gerador de sentido, mas recebe delas outras linguagens, símbolos, mensagens e paradigmas que oferecem novas orientações de vida, muitas vezes em contraste com o Evangelho de Jesus. Uma cultura inédita palpita e está em elaboração na cidade. O Sínodo [de 2012 sobre a nova evangelização] constatou que as transformações destas grandes áreas e a cultura que exprimem são, hoje, um lugar privilegiado da nova evangelização. Isto requer imaginar espaços de oração e de comunhão com características inovadoras, mais atraentes e significativas para as populações urbanas. Os ambientes rurais, devido à influência dos mass-media, não estão imunes destas transformações culturais que também operam mudanças significativas nas suas formas de vida».
55. Trata-se, portanto, de refletir sobre a questão da transmissão da fé no contexto dessa cultura inédita que hoje se expande do coração das cidades em direção às periferias e atinge também os ambientes rurais. Trata-se de uma cultura generalizada e profundamente influente, como observam os bispos dos Estados Unidos da América: hoje os fiéis «tendem a ser mais absorvidos pela cultura do que pela fé. A cultura, por meio das redes sociais e do discurso público, molda a maneira de pensar dos católicos [...] mais do que a própria fé, a tradição e a devoção». O mesmo fenômeno se observa em muitos outros contextos, sobretudo naqueles mais marcados pela cultura ocidental e por um estilo de vida urbano. Conforme denunciam os bispos da Romênia, a rápida secularização dessas sociedades faz com que «a falta de prática religiosa não seja mais percebida socialmente como uma ausência a ser justificada». Para os países de evangelização antiga, portanto, já se pode falar de sociedades pós-cristãs.
56. A tendência dessa cultura inédita parece consistir na exaltação da “soberania do eu”, que pretende sentir-se autônomo e livre para administrar todos os aspectos de sua existência, submetendo às suas necessidades os outros seres humanos e a própria realidade que o rodeia. Trata-se da difusão de um individualismo cada vez mais acentuado, que gera separação, divisão, inveja, ciúme, abuso de poder, narcisismo e egolatria. Vêm à mente as palavras contundentes da encíclica Fratelli tutti: «O individualismo não nos torna mais livres, mais iguais, mais irmãos. A mera soma dos interesses individuais não é capaz de gerar um mundo melhor para toda a humanidade. Nem pode sequer preservar-nos de tantos males, que se tornam cada vez mais globais. Mas o individualismo radical é o vírus mais difícil de vencer. Ilude. Faz-nos crer que tudo se reduz a deixar à rédea solta as próprias ambições, como se, acumulando ambições e seguranças individuais, pudéssemos construir o bem comum».
57. Esse individualismo generalizado é talvez um dos efeitos mais evidentes daquele longo processo de secularização que atingiu a consciência humana contemporânea, especialmente nos contextos ocidentais, privando-a do fôlego e do horizonte da transcendência. Como afirma a Evangelii Gaudium, o «processo de secularização tende a reduzir a fé e a Igreja ao âmbito privado e íntimo. Além disso, com a negação de toda a transcendência, produziu-se uma crescente deformação ética, um enfraquecimento do sentido do pecado pessoal e social e um aumento progressivo do relativismo; e tudo isso provoca uma desorientação generalizada, especialmente na fase tão vulnerável às mudanças da adolescência e juventude».
58. Tudo isso, naturalmente, tem repercussões no processo de transmissão da fé. Entre os fenômenos apontados pelos bispos, além das dificuldades já mencionadas relacionadas à família, há uma separação substancial entre o indivíduo e a comunidade, como observado pelos bispos espanhóis: «O indivíduo e a família sofrem as consequências da crise cultural e social que acompanha tal processo e, por sua vez, tornam-se a causa dessa crise, por motivo do enfraquecimento da transmissão da fé e da consequente fratura dos vínculos indispensáveis para a vida em sociedade». Isso significa que o indivíduo tem dificuldade em inserir-se em uma tradição que o precede, em um “nós” que dá forma não apenas ao seu pensamento e ao seu sentimento, mas também à sua crença. Por consequência, os mais jovens, sobretudo, ficam à mercê das modas do momento, como observam os bispos do Brasil: «A progressiva perda do senso de pertença eclesial, associada à difusão de formas subjetivas de religiosidade, tem fragilizado os processos tradicionais de iniciação cristã. Nesse contexto, não se pode mais pressupor que o batismo conduza automaticamente a uma fé madura e integrada à vida comunitária». Como consequência, nesses contextos, a fé é percebida sobretudo como um fato privado, como destacam os bispos austríacos: «A religião está cada vez mais sendo privatizada em nossa sociedade, com a tendência de afastá-la do espaço público. [...] Não é possível, por assim dizer, enterrar a experiência cristã no coração sem que isso tenha efeitos sobre a realidade do mundo e da sociedade». Tudo isso é ainda mais agravado naqueles países, como a França e o Canadá, nos quais o laicismo se expressa também no plano legislativo, limitando a liberdade de manifestar a própria fé em locais públicos.
AS TECNOLOGIAS DIGITAIS
59. Um dos sinais mais evidentes da mudança de época que estamos vivendo é, sem dúvida, a difusão das tecnologias digitais. Estas, como observa o Papa Leão XIV na Magnifica humanitas, levaram ao surgimento de uma «situação nova, em que o poder e a disseminação das tecnologias emergentes se inserem no curso da vida quotidiana, moldam os processos de decisão e incidem profundamente no imaginário coletivo». Em particular, prossegue o documento, a «propagação dos meios de comunicação digitais gera uma cultura do imediato e da hiperestimulação, que fomenta cansaço, tédio e apatia face ao esforço necessário para procurar a verdade». Como já observou o Sínodo sobre a sinodalidade no Relatório de Síntese da primeira Sessão de 2023, «a cultura digital representa uma mudança fundamental na maneira como concebemos a realidade e nos relacionamos conosco mesmos, uns com os outros, com o ambiente que nos rodeia e também com Deus». Sobretudo nas novas gerações, essa cultura caracteriza-se não apenas, como frequentemente se destaca, por um acesso mais amplo ao conhecimento, mas também por uma mudança nas próprias categorias de pensamento e, em última análise, na maneira de se relacionar com a realidade. Além disso, se considerarmos os cenários abertos pela irrupção da inteligência artificial, surge o risco cada vez mais concreto, como lembrou o Santo Padre, de que tal cultura leve a «alterar radicalmente alguns dos pilares fundamentais da civilização humana, que por vezes temos como garantidos. Ao simular vozes e rostos humanos, sabedoria e conhecimento, consciência e responsabilidade, empatia e amizade, os sistemas conhecidos como inteligência artificial não só interferem nos ecossistemas informativos, como também invadem o nível mais profundo da comunicação, ou seja, o das relações entre as pessoas. O desafio, por conseguinte, não é tecnológico, mas antropológico». Isso tem consequências relevantes para a inculturação da fé.
60. A difusão das tecnologias digitais e o avanço da inteligência artificial, como é natural, também afetam a fé e a religião. Se, por um lado, no mundo digital não faltam oportunidades para compartilhar testemunhos de vida e experiências espirituais, além de permitir uma difusão mais ampla dos conteúdos da catequese em comparação com os meios disponíveis no passado, as novas tecnologias oferecem, sem dúvida, possibilidades inéditas de evangelização. Por outro lado, porém, em alguns contextos, o anúncio de fé corre o risco de se tornar desencarnado, desligado da vida concreta ou ligado a ideologias promovidas por minorias barulhentas. Isso pode levar a distorções da própria fé ou da consciência, ou induzir as pessoas a construir uma chamada fé “à sua própria medida”, moldada segundo seus próprios gostos e preferências, em vez de se basear no ensinamento da Igreja.
61. Além disso, observou-se que a cultura digital tende a remodelar algumas categorias fundamentais de pensamento, como o espaço, o tempo e a autoridade, que constituem elementos essenciais do próprio conceito de tradição. Portanto, ao mudar a forma de conceber a tradição, a transmissão da fé não pode deixar de ser transformada desde suas bases. No que diz respeito ao espaço, como já mencionado, o senso de pertencimento a um contexto local e concreto se atenuaria, embora não desaparecesse, pois as pessoas estão, ao mesmo tempo, inseridas em uma rede global, na qual as distâncias físicas parecem relativizadas, se não mesmo superadas. No que diz respeito ao tempo, mudaria, por outro lado, o próprio significado da memória: o fato de todos os conteúdos publicados na rede permanecerem indefinidamente, juntamente com a rapidez que caracteriza as trocas entre as pessoas, contribui para a perda de um senso genuíno da história e do passado, pois tudo é nivelado em uma espécie de presente eterno. Isso torna os usuários da rede particularmente sensíveis às modas do momento.
62. No que diz respeito à autoridade, é preciso prestar muita atenção à advertência do Papa Leão XIV em sua primeira encíclica, Magnifica humanitas: «Ferramentas que poderiam favorecer o debate e a participação são frequentemente utilizadas para construir narrativas distorcidas e anular as distinções entre o verdadeiro e o falso, misturando dados e opiniões. A desinformação não surge com a IA, embora nela encontre hoje um poderoso multiplicador. A possibilidade de manipular conteúdos, imagens e vídeos expõe os cidadãos a perspectivas parciais ou enganosas. O problema diz respeito à dimensão cultural e moral, uma vez que a qualidade da comunicação pública depende diretamente da confiança social e tem impacto sobre ela. Com efeito, uma informação verdadeira não surge dum controle centralizado ou automatizado. No discurso público, a verdade factual – uma vez que requer averiguação, correspondência com as fontes e responsabilidade argumentativa – tem uma dimensão racional; uma vez que requer averiguação, correspondência com as fontes e responsabilidade argumentativa; mas é, sobretudo, relacional: constrói-se através de vínculos de confiança e experiências partilhadas, num confronto honesto com os outros e o mundo». Portanto, o acesso generalizado a múltiplas fontes de conhecimento e, ao mesmo tempo, a presença de um grande número de vozes colocadas todas no mesmo plano, cujo único critério de distinção é a eficácia comunicativa, colocam em séria crise a credibilidade das instituições tradicionais, pois, para muitos, já não está claro quem é realmente capaz de oferecer uma palavra autorizada sobre as questões fundamentais da vida humana.
NOVAS FRONTEIRAS DA EVANGELIZAÇÃO
63. Uma visão realista dessa situação não deve, porém, levar ao desespero quanto ao futuro da Igreja. Entre as oportunidades que o Espírito Santo oferece no atual contexto de mudança de época, há, de fato, a de uma adesão à fé mais consciente e convicta, como afirmam os bispos belgas: trata-se de «uma oportunidade positiva para permitir que as pessoas optem conscientemente por aprofundar sua fé». Uma atitude semelhante é encontrada também em um contexto geograficamente distante, como o do Chile, cujos bispos observam que «a fé não pode mais ser dada como certa como uma herança cultural estável, nem como adesão espontânea a um universo simbólico compartilhado. Pelo contrário, parece ser uma proposta que deve ser acolhida com liberdade, acompanhada nos diversos percursos e comprovada no plano existencial». Além disso, é importante não esquecer um fenômeno que está afetando as regiões mais secularizadas da Europa e da América, ou seja, o número crescente de conversões e retornos à Igreja, sobretudo por parte de jovens e adultos jovens. Particularmente relevante é o caso da França, onde, diante de um declínio geral dos batismos na infância e da prática religiosa, registra-se um crescimento excepcional e constante dos pedidos para receber o sacramento do Batismo por parte de jovens e adultos. Os resultados de uma pesquisa realizada a pedido da Conferência Episcopal Francesa revelam que, em relação ao ano anterior, o número de adultos que receberam o Batismo em 2026 cresceu 28%, de modo que esse número mais do que triplicou em comparação com os dados de 2016. Como já mencionado, esse fenômeno diz respeito sobretudo às novas gerações: a grande maioria tem menos de 40 anos e, desses, cerca de metade está na faixa etária entre 18 e 25 anos. De acordo com os depoimentos coletados, entre as motivações que levam a solicitar o sacramento estão o encontro com a fé após um momento de crise (por exemplo, um luto ou uma doença), ter vivido experiências espirituais e de beleza, ou ainda o contato com outros fiéis, tanto no âmbito pessoal quanto nas redes sociais.
64. Em termos estatísticos gerais, esse fenômeno ainda atinge porcentagens relativamente limitadas em relação à população total; no entanto, isso não significa que não se trate de eventos significativos e sempre motivo de alegria. É preciso, porém, ressaltar que uma visão mais ampla da situação sugere a adoção de uma atitude prudente ao avaliar essa realidade. De fato, se, por um lado, registra-se um aumento efetivo na demanda pelos sacramentos da iniciação cristã nessas regiões altamente secularizadas, por outro, constata-se uma dificuldade paralela na perseverança dos neófitos, que, muitas vezes, após um breve período após a recepção do Batismo, retornam a um estado de indiferença prática. Por essa razão, embora seja oportuno evitar atitudes triunfalistas a esse respeito, não se pode negar que tais fenômenos constituem sinais concretos de esperança e de vitalidade evangélica. Ao mesmo tempo, a situação descrita convida a redescobrir a importância da comunidade no acolhimento e no acompanhamento dos novos fiéis.
65. É possível constatar como, nesses casos, o anúncio evangélico, realizado das mais variadas formas — desde o passa-palavra ao convite para uma peregrinação, passando por uma presença ativa nos novos meios de comunicação —, permite acolher uma autêntica busca de sentido que renasce em meio à asfixia da imanência. Essa busca pode se apresentar sob muitas formas, que não devem ser menosprezadas: a busca por uma maior amplitude do coração, a necessidade de paz e harmonia com o mundo, o desejo de consolo e cura, as experiências de ruptura e de conflito que levam a recomeçar, novas formas de beleza, uma certa recuperação do antigo e das tradições, além de muitos outros exemplos que poderiam ser multiplicados. Trata-se de realidades que devemos contemplar com gratidão, reconhecendo nelas a obra do Espírito Santo, que continua a agir nos corações das pessoas.
66. Reafirma-se, portanto, essencialmente a necessidade de transmitir a fé a partir do kerygma. Isso vale tanto para os países secularizados de antiga tradição cristã quanto para aqueles em que a Igreja se caracteriza geralmente como minoria, por exemplo, na Ásia. De fato, muitos países asiáticos também são afetados pela secularização e pelo individualismo, sobretudo nas regiões que passam por um rápido crescimento econômico. No entanto, o impacto dessas influências culturais sobre as comunidades de fiéis é diferente daquele observado nas sociedades de tradição cristã. Justamente o fato de serem muitas vezes minoritárias no âmbito social (com algumas notáveis excessões, como as Filipinas e o Timor Leste) levou as Igrejas na Ásia a se desenvolverem como comunidades bem definidas do ponto de vista sociológico; isso favoreceu a consolidação de uma identidade forte, que lhes permitiu atravessar a história apesar de contextos por vezes hostis ou marcados por verdadeiras perseguições. Na atual situação de mudança de época, esse fato apresenta, do ponto de vista da transmissão da fé, duas ordens de consequências: por um lado, as comunidades cristãs não são imunes à cultura secularizada generalizada acima descrita, o que provoca, portanto, uma erosão da prática religiosa, sobretudo nas novas gerações; por outro lado, elas são chamadas a superar uma adesão ao cristianismo baseada na mera inércia da pertença social, para que ela se torne uma escolha pessoal e consciente, capaz de orientar suas próprias escolhas de vida. Isso vale especialmente para regiões que se destacam pela presença de culturas milenares, como a Índia ou a China, nas quais o esforço de encarnar o anúncio evangélico na vida das pessoas deve confrontar-se com a maneira particular como uma determinada cultura se relaciona com âmbitos como a verdade, o bem e a beleza. A isso se soma a necessidade de repensar a própria maneira de anunciar o Evangelho, privilegiando formas narrativas em vez da simples transmissão de conceitos abstratos. Esse esforço é imprescindível para preparar o terreno do coração de cada ser humano (cf. Mt 13,3-8) para o encontro autêntico com a Boa Nova.
67. Apesar da variedade de situações que caracterizam este vasto continente, também a África se depara com o problema da secularização e do individualismo de origem ocidental, que afetam sobretudo os contextos urbanos e as novas gerações. Nas Igrejas africanas, no entanto, a resposta a tais influências culturais sobre a transmissão da fé insere-se no quadro de dois desafios igualmente exigentes, aos quais já se fez referência: a inculturação do Evangelho nas culturas locais e a “concorrência” do proselitismo por parte de outras religiões. A importância do primeiro aspecto é atestada pelos bispos da Nigéria: «A presença significativa de clero autóctone facilitou a transmissão da fé no seio das culturas locais, pois eles atuam como modelos de referência com os quais é possível se identificar e como guias espirituais, preenchendo eficazmente a lacuna entre os valores tradicionais nigerianos e os ensinamentos católicos». Outra iniciativa valiosa são as «Pequenas Comunidades Cristãs» (Small Christian Communities), que, conforme relatado pelos bispos da Tanzânia, «atuam como unidades primárias para a oração, a catequese e a vida comunitária. A fé é frequentemente transmitida por meio de uma abordagem que vê a comunidade como uma família».
68. Como já foi mencionado, a transmissão da fé na África (mas também em outros lugares) sofre com a ação antagonista de grupos religiosos que propõem um “Evangelho da prosperidade”, aproveitando-se das necessidades materiais imediatas. Em regiões como a Costa do Marfim, por exemplo, observa-se, por um lado, a busca por movimentos que garantam bem-estar e felicidade, enquanto, por outro, registra-se o retorno de muitos batizados às práticas tradicionais e esotéricas.
69. É preciso reconhecer que, muitas vezes, a atratividade de tal proposta decorre de algumas carências objetivas nas formas de anúncio do Evangelho, que nem sempre conseguem levar em conta de maneira adequada as necessidades reais e concretas das famílias. Isso implica que as comunidades cristãs sejam chamadas a buscar formas saudáveis de apresentar o Evangelho como resposta eficaz também às necessidades mais tangíveis, seguindo o exemplo de Jesus, que percorria a terra de Israel «fazendo o bem e curando a todos» (At 10,38), demonstrando assim saber responder não apenas às questões últimas, mas também às “penúltimas”. De fato, nem sempre esses anseios têm uma origem egoísta (por exemplo, a preocupação com o bem-estar dos filhos, o cuidado com a saúde, o desejo de restaurar os laços familiares, etc.). Descobrir que a Igreja pode oferecer uma ajuda espiritual concreta diante dessas preocupações prepara o coração para receber o anúncio kerygmático com vigor renovado.
70. Em outros contextos africanos, por outro lado, como na República Democrática do Congo, além das pressões exercidas por grupos fundamentalistas, as comunidades cristãs também sofrem a ameaça de uma expansão agressiva de grupos islâmicos. Todos esses fatores exercem influência sobre muitos fiéis que não receberam uma formação sólida na fé ou não vivenciaram em primeira mão o efeito transformador do kerygma em suas vidas.
71. Não podemos, por fim, ignorar o fato de que, em muitas partes do mundo, os crentes em Jesus ainda são vítimas de verdadeiras perseguições por parte de grupos religiosos extremistas. A esse respeito, é urgente reiterar que toda forma de violência exercida em razão da crença professada é uma violação inadmissível da dignidade humana, pois «quem, para legitimar o terrorismo, a violência ou a guerra, usa o nome de Deus, trai a sua imagem: fazer guerra em nome da religião significa, na realidade, ferir a própria religião». Trata-se de perversões da mensagem religiosa que devem ser abertamente denunciadas e que toda autoridade política é chamada a reprimir sem hesitação.
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