CAPÍTULO IV - A CENTRALIDADE DO KERYGMA

CAPÍTULO IV - A CENTRALIDADE DO KERYGMA

72. Diante da situação acima descrita, parece totalmente natural que, para os crentes, se trate de recomeçar a partir de uma grande época de anúncio do Evangelho, dando finalmente seguimento ao que o Papa Francisco pedia na Evangelii gaudium a respeito da urgência de toda a Igreja dar início a uma nova etapa evangelizadora. Esse convite foi reiterado pelo Papa Leão XIV, que reconhece a necessidade de «uma missão cristocêntrica e kerigmática, que nasce de um encontro com Cristo capaz de transformar a vida e que se difunde mais por atração do que por conquista. É uma missão integral, que une o anúncio explícito, o testemunho, o compromisso e o diálogo, sem ceder à tentação do proselitismo nem a uma lógica de mera conservação ou expansão institucional». Não o fazemos, antes de tudo, para responder a um novo desafio histórico, mas por fidelidade à própria identidade cristã, que não pode deixar de incluir a doação de si na transmissão da luz de Cristo. Tendo tudo isso em vista, é oportuno refletir sobre o tema do anúncio do kerygma e sobre como ele reorienta a vida e a missão da Igreja.

 

73. A revelação divina, como ensina o Concílio Vaticano II, não é uma simples transmissão de verdades doutrinárias nem uma “instrução” de Deus à humanidade, mas um diálogo de aliança: «Deus invisível, na riqueza do seu amor fala aos homens como amigos e convive com eles, para os convidar e admitir à comunhão com Ele». Isso faz com que o kerygma, o anúncio fundamental da fé, exija daquele que o acolhe uma resposta que não se limita ao nível intelectual, mas envolve toda a existência no acolhimento do apelo que Deus faz à pessoa para compartilhar Sua própria vida. Justamente porque não se limita apenas ao âmbito cognitivo, mas é dotada, por assim dizer, de um alcance existencial (cf. Jo 17,3), tal resposta é, por sua natureza, um evento de salvação: «Se, pois, com tua boca confessares Jesus como Senhor e, no teu coração creres que Deus o ressuscitou dos mortos, serás salvo» (Rm 10,9).

 

74. A verdade evangélica, portanto, é salvífica, é viva; mais ainda, é uma pessoa: o próprio Cristo (cf. Jo 14,6). Isso se reflete na estrutura do ato de fé, que se caracteriza, ao mesmo tempo, pela «entrega total» a Cristo do ser humano individual iluminado por sua graça (fides qua) e pelas “coisas em que se crê” (fides quae), que explicitam o conteúdo desse ato de entrega. A correção da exposição da fé e a busca humana de sentido, que nunca se esgota completamente (cf. 1 Cor 15,28), estão intimamente ligadas.

 

DESPERTAR UMA EXPERIÊNCIA DE FÉ

 

75. A esse respeito, portanto, vale ainda o que podemos ler na Evangelii gaudium: «na catequese tem um papel fundamental o primeiro anúncio ou kerygma, que deve ocupar o centro da atividade evangelizadora e de toda a tentativa de renovação eclesial. O kerygma é trinitário. É o fogo do Espírito que se dá sob a forma de línguas e nos faz crer em Jesus Cristo, que, com a sua morte e ressurreição, nos revela e comunica a misericórdia infinita do Pai. Na boca do catequista, volta a ressoar sempre o primeiro anúncio: “Jesus Cristo ama-te, deu a sua vida para te salvar, e agora vive contigo todos os dias para te iluminar, fortalecer, libertar”. Ao designar-se como “primeiro” este anúncio, não significa que o mesmo se situa no início e que, em seguida, se esquece ou substitui por outros conteúdos que o superam; é o primeiro em sentido qualitativo, porque é o anúncio principal, aquele que sempre se tem de voltar a ouvir de diferentes maneiras e aquele que sempre se tem de voltar a anunciar, duma forma ou doutra, durante a catequese, em todas as suas etapas e momentos».

 

76. A primeira reflexão que as palavras que acabamos de ouvir nos sugerem é que o anúncio da verdade fundadora e fundamental do cristianismo — Jesus Cristo, vivo, te ama e deu a vida para te salvar — deve ocorrer de forma a suscitar uma experiência de fé, capaz de dar início a um processo de formação da própria identidade cristã. Assim, delineia-se uma tríplice etapa que deve caracterizar uma transmissão da fé recentrada no kerygma: em primeiro lugar, o anúncio central da presença e do amor de Cristo Ressuscitado; depois, a experiência interior de sua presença e de seu amor, suscitada por esse anúncio; por fim, o início de um caminho de conhecimento e de amor a Cristo, possibilitado pela acolhida do anúncio por parte de quem o recebe com coração livre e sincero.

 

77. Não se trata, portanto, de uma mera transmissão de conteúdos, por mais importantes que sejam, mesmo que digam respeito à salvação de cada ser humano. Deve ser um anúncio “perfomativo”, capaz de tocar verdadeiramente o coração daqueles que o recebem e de impulsionar seus passos em direção ao coração do Senhor Jesus, onde é possível contemplar e entrar em contato com aquele fogo de amor que Ele veio lançar sobre a terra (cf. Lc 12,49). O anúncio do kerygma deve fazer arder os corações daqueles a quem se dirige, segundo o modelo sublime que o próprio Jesus realiza diante dos discípulos de Emaús: «E diziam um para o outro: “Não estava ardendo o nosso coração, quando ele nos falava pelo caminho e nos abria as Escrituras?”» (Lc 24,32).

 

78. A ligação entre o kerygma e a catequese, no contexto de uma mudança de época, é muito estreita, a ponto de a segunda «nem sempre poder ser distinguida do primeiro anúncio», pelo que ela «é chamada a ser, antes de tudo, um anúncio da fé». Justamente a esse respeito, pode ser útil relembrar uma situação que já se tornou frequente. Como já foi observado, acontece cada vez com mais frequência que os pais cristãos não consigam mais transmitir a fé aos próprios filhos; no entanto, o simples fato de pedir o Batismo para os próprios filhos ou de acompanhá-los à catequese já manifesta uma certa presença da fé e um testemunho frágil, mas verdadeiro, que não devem ser menosprezados. Nesses casos, é até mesmo possível que as crianças ou os adolescentes que chegam à catequese ainda não tenham recebido um primeiro anúncio explícito do Evangelho. Justamente por isso, a catequese torna-se o lugar onde esse anúncio pode ser proposto novamente, confirmando a necessidade de uma profunda renovação kerigmática da própria catequese, pois ela, não raro, não consegue suscitar uma experiência intensa de encontro com Cristo, que possa perdurar no tempo.

 

79. Por outro lado, é um fato que o elevado número de crianças e adolescentes que se afastam da Igreja e dos sacramentos imediatamente após concluírem o percurso de iniciação cristã ou o percurso na escola católica indica que a catequese ainda tem dificuldade em encontrar os caminhos mais adequados para motivar um encontro pessoal sólido e duradouro com Cristo.

 

A QUESTÃO DA LINGUAGEM

 

80. No contexto desta mudança de época, o verdadeiro desafio para a Igreja é que a palavra do Evangelho seja assumida «como critério vivente a fim de orientar escolhas concretas, inspirar caminhos de conversão pessoal e comunitária, promover reformas de estruturas e apoiar novos modos de testemunho evangélico na vida pública». Nesse sentido, valendo-se dos numerosos documentos e recursos que o Dicastério para a Evangelização preparou, parece hoje mais urgente do que nunca analisar, com olhar sapiencial, as formas atuais de organizar a catequese, para que a transmissão da fé não fique confinada a linguagens que possam ser rotuladas como “escolásticas”, “dogmáticas” ou “moralistas”. Com demasiada frequência, de fato, uma comunicação repetitiva e autorreferencial da mensagem evangélica corre o risco de não tocar o coração dos fiéis. Por isso, a linguagem da fé não deve limitar-se a uma exposição fria de conceitos; deve certamente possuir aquela clareza que facilita a compreensão, mas, acima de tudo, deve caracterizar-se como um apelo do coração, lembrando que «o Senhor salva-nos falando ao nosso coração a partir de seu Sagrado Coração» e que « “o programa do cristão [...] é ‘um coração que vê’”». Só assim será uma linguagem que realmente provocará algo na vida das pessoas, pois será a expressão da própria voz do Senhor, o único que pode tocar verdadeiramente o coração das pessoas: «Fala-me ao coração a linguagem da verdade; somente tu o podes fazer».

 

81. Em resumo, para que a transmissão da fé seja realmente eficaz, ela deve se configurar como uma relação interpessoal envolvente. Para isso, «deve-se privilegiar a linguagem da proximidade, a linguagem do amor desinteressado, relacional e existencial que toca o coração, atinge a vida, desperta esperança e anseios». Essa comunicação não pretende falar primeiro, mas nasce, antes de tudo, da escuta, tornando possível uma verdadeira troca de dons entre quem anuncia e quem acolhe o anúncio, facilitando assim o encontro com Cristo que caminha conosco.

 

82. Isso significa que a transmissão da fé pode se realizar ali onde a linguagem se torna testemunho, tornando-se ela própria um evento do Espírito. Como disse santo Alberto Hurtado, citado na Exortação Apostólica Christus vivit: «“Ser apóstolo não é levar uma tocha na mão, possuir a luz, mas ser a luz. [...] O Evangelho [...], mais do que uma lição, é um exemplo. A mensagem transformada em vida vivida”». Dessa forma, a Igreja poderá oferecer também hoje uma palavra que seja, ao mesmo tempo, memória e profecia, capaz de reacender o coração dos discípulos ao longo do caminho, acompanhados pelo Mestre, permitindo que a graça suscite aquela adesão mística à fé[84], a respeito da qual permanecem insuperáveis as palavras do profeta Jeremias: «parecia haver no meu coração um fogo devorador, cerrado nos meus ossos. Tentei aguentar, mas não fui capaz» (Jr 20,9).

 

A FORMAÇÃO CRISTÃ

 

83. Do que foi dito decorre que as comunidades de fiéis são fortemente chamadas a promover, em momentos oportunos e inoportunos, uma renovação do anúncio do kerygma. Aliás, ainda na Evangelii gaudium, destacava-se outro aspecto realmente importante a esse respeito: «Não se deve pensar que, na catequese, o kerygma é deixado de lado em favor duma formação supostamente mais “sólida”. Nada há de mais sólido, mais profundo, mais seguro, mais consistente e mais sábio que esse anúncio. Toda a formação cristã é, primariamente, o aprofundamento do kerygma que se vai, cada vez mais e melhor, fazendo carne, que nunca deixa de iluminar a tarefa catequética, e permite compreender adequadamente o sentido de qualquer tema que se desenvolve na catequese. É o anúncio que dá resposta ao anseio de infinito que existe em todo o coração humano. A centralidade do kerygma requer certas características do anúncio que hoje são necessárias em toda a parte: que exprima o amor salvífico de Deus como prévio à obrigação moral e religiosa, que não imponha a verdade mas faça apelo à liberdade, que seja pautado pela alegria, o estímulo, a vitalidade e uma integralidade harmoniosa que não reduza a pregação a poucas doutrinas, por vezes mais filosóficas que evangélicas».

 

84. Aqui retorna o grande ensinamento do Concílio Vaticano II a respeito da hierarquia das verdades entre os mistérios cristãos. Lemos, de fato, no número 11 da Unitatis redintegratio que «no diálogo ecumênico, os teólogos católicos, sempre fiéis à doutrina da Igreja, quando investigarem juntamente com os irmãos separados os divinos mistérios, devem proceder com amor pela verdade, com caridade e humildade. Na comparação das doutrinas, lembrem-se que existe uma ordem ou “hierarquia” das verdades da doutrina católica, já que o nexo delas com o fundamento da fé cristã é diferente». Essa perspectiva foi ampliada pela Evangelii gaudium para o âmbito do anúncio do Evangelho, da teologia e da proposta moral. Por essa razão, na mudança de época que nos cabe viver, não parece oportuno, no âmbito da comunicação da fé às novas gerações, aos catecúmenos adultos e aos chamados “recomeçantes”, dispersar-se por tantos aspectos da doutrina católica, por mais importantes que sejam, perdendo de vista o que nela há «“de mais sólido, de mais profundo, de mais seguro, de mais consistente”»: o amor de Deus, que é como uma chama capaz de devolver vida, alegria, esperança e confiança a toda existência humana. A essa chama, graças à ação do Espírito, acede-se por meio do encontro — com fé e na fé — com o Senhor Jesus.

 

85. É justamente ao anunciar o kerygma de maneira renovada e renovadora, apaixonada e apaixonante, que a comunidade de fiéis poderá honrar a tarefa de transmitir, de geração em geração, a luz que Jesus veio trazer à terra.

 

86. Concretamente, para que possa realmente suscitar uma experiência de fé, o anúncio do kerygma deverá assumir um estilo, uma linguagem e um tom capazes de alcançar as pessoas onde elas se encontram, com seus desejos e seus sonhos, com suas lutas e suas dificuldades. Deve, portanto, ser capaz de apresentar a boa nova do amor e da misericórdia de Deus de tal forma que aqueles que a recebem possam compreender efetivamente que é justamente a eles que esse amor e essa misericórdia se dirigem. É esse o estilo que caracteriza as parábolas do Senhor Jesus, as quais ainda hoje cativam os corações de quem as ouve.

 

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