CAPÍTULO VI - FÉ E CULTURA

CAPÍTULO VI - FÉ E CULTURA

102. Ampliando agora o horizonte da reflexão sobre a transmissão da fé para além da dimensão propriamente eclesial, é necessário abordar a questão da relação entre fé e cultura. Uma primeira observação diz respeito ao fato de que muitos estudiosos destacam como, em nosso tempo, está em curso uma crise mais geral da transmissão do saber e dos valores, que abrange também o que é o objeto específico das presentes Considerações. Uma segunda observação pode ser extraída de algumas palavras de São João Paulo II, que destacam a importância, com vistas à transmissão da fé, de realizar uma síntese entre fé e cultura: «A síntese entre cultura e fé não é só uma exigência da cultura, mas também da fé. Como ensinou o meu predecessor Paulo VI, “importa evangelizar — não de maneira decorativa, como que aplicando um verniz superficial, mas de maneira vital, em profundidade e isto até às raízes — a cultura e as culturas do homem... a partir sempre da pessoa e fazendo continuamente apelo para as relações das pessoas entre si e com Deus”. Se, de fato, é verdade que a fé não se identifica com alguma cultura […] não é menos verdadeiro que, precisamente por isto, a fé é chamada a inspirar e impregnar todas as culturas. É o homem todo, na realidade da sua existência quotidiana, que é salvo em Cristo e é, por isso, o homem todo que deve realizar-se em Cristo. Uma fé que não se torna cultura é uma fé não de modo pleno acolhida, não inteiramente pensada e nem com fidelidade vivida».

 

103. O que foi dito nos leva a reconhecer que a obra de transmissão da fé é, de alguma forma, inseparável de sua inculturação em um determinado contexto, entendendo-se aqui a “cultura” tanto em seu sentido antropológico mais amplo — como conjunto de estilos de vida, crenças, valores e instituições que caracterizam uma determinada sociedade — quanto no sentido mais restrito, como conjunto de conhecimentos intelectuais desenvolvidos sobretudo no âmbito acadêmico.

 

104. Levando em consideração, antes de tudo, esse primeiro significado de “cultura”, é preciso lembrar que a inculturação da fé constitui uma etapa necessária em sua transmissão, na medida em que a mensagem evangélica deve ser tornada compreensível para pessoas que compartilham valores e categorias que não coincidem perfeitamente com os helenístico-semíticos, nos quais o texto bíblico foi originalmente formulado. No contexto da transmissão da fé, inculturação significa «a encarnação do Evangelho nas culturas autóctones e, ao mesmo tempo, a introdução dessas culturas na vida da Igreja»: nesse caso, portanto, a inculturação da fé torna-se uma verdadeira evangelização, mesmo que não seja realizada de forma completa e perfeita, tratando-se de «um caminho lento, que acompanha toda a vida missionária e que responsabiliza os vários agentes da missão ad gentes, as comunidades cristãs à medida que se vão desenvolvendo, e os Pastores que têm a responsabilidade de discernimento e de estímulo na sua realização». Isso faz com que a própria cultura se torne, por sua vez, um meio de transmissão da fé, pois, «quando o Evangelho se inculturou num povo, no seu processo de transmissão cultural também transmite a fé de maneira sempre nova; daí a importância da evangelização entendida como inculturação».

 

105. É preciso, no entanto, lembrar que não se evangeliza um “lugar”, mas sempre pessoas, as quais não devem ser isoladas de seu contexto: «cada um [deve] levar o Evangelho às pessoas com quem se encontra, tanto aos mais íntimos como aos desconhecidos». A isso se soma a tarefa dos fiéis — necessária também em países de antiga tradição cristã — de traduzir a Boa Nova nas diversas formas culturais específicas que caracterizam as sociedades modernas ou que emergem em determinados setores sociais, como o mundo dos jovens ou o dos pobres. Isso exige, sem dúvida, uma valorização dos carismas presentes em todo o povo de Deus em um autêntico espírito de sinodalidade, pois, em última análise, eles são obra do Espírito Santo. Nesse processo, a contribuição da piedade popular também pode ser certamente valiosa.

 

106. A presença de diversos grupos sociais em nossas cidades, com culturas e linguagens específicas e muitas vezes autônomas, exige um esforço especial de inculturação da fé. Ou seja, há a urgência de uma difusão capilar no anúncio do Evangelho: não se pode se contentar em se dirigir apenas à cultura de alguns grupos majoritários, mas é necessário aprender a dialogar com as mais diversas situações e condições de vida presentes hoje. Trata-se, portanto, de alcançar aquilo que, em linguagem técnica, costuma ser denominado o âmbito das subculturas (por exemplo, os jovens das periferias urbanas, as diversas comunidades de migrantes, os trabalhadores sazonais, os habitantes de pequenas aldeias, etc.). A esse respeito, convém lembrar que a Comissão Teológica Internacional dedicará uma parte de seu trabalho no próximo quinquênio às formas culturais de transmissão da fé e oferecerá valiosos estímulos ao trabalho aqui apenas brevemente mencionado.

 

107. Em síntese, é preciso reiterar a importância decisiva da inculturação da fé nos dias de hoje. Quando a fé se conecta com as raízes e as expressões culturais de um povo, de fato, sua transmissão se torna mais fácil e fecunda.

 

108. No que diz respeito à cultura no sentido acadêmico-intelectual, por outro lado, podemos recordar as palavras do Papa Francisco: «O anúncio às culturas implica também um anúncio às culturas profissionais, científicas e acadêmicas. É o encontro entre a fé, a razão e as ciências, que visa desenvolver um novo discurso sobre a credibilidade, uma apologética original que ajude a criar as predisposições para que o Evangelho seja escutado por todos». É verdade que a pesquisa intelectual é, no máximo, uma preparação que introduz à fé, à maneira daquilo que tradicionalmente se chamou de praeambula fidei, e não uma transmissão da fé em sentido estrito. No entanto, é claro que uma apresentação razoável dos conteúdos da fé e de suas exigências constitui uma ajuda inegável ao anúncio do kerygma, na medida em que, em particular, contribui para despertar as grandes questões na mente e no coração das pessoas.

 

109. Um exemplo particularmente significativo a ser considerado na construção de tal apresentação razoável da fé é, sem dúvida, a Doutrina Social da Igreja, graças à qual os crentes entram em diálogo aberto com a sociedade e também com os não crentes. Embora permaneça no âmbito do conhecimento teológico, a Doutrina Social da Igreja recorre amplamente às categorias próprias das ciências políticas, econômicas e sociais, conseguindo frequentemente demonstrar toda a pertinência da proposta cristã para a construção de uma sociedade mais justa e fraterna. Nesse sentido, também os ensinamentos sociais da Igreja podem desempenhar uma função análoga à dos praeambula fidei. De fato, a Doutrina Social da Igreja «baseia-se na Sagrada Escritura e na Tradição e, em diálogo com as ciências, ajuda-nos a ler os desafios do presente com lucidez, identificando caminhos adequados para viver, com alegria e ao serviço do mundo, um límpido testemunho cristão».

 

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