110. Uma comunidade profundamente empenhada em transmitir, de geração em geração, aquela luz e aquele fogo do amor de Deus que Jesus quis levar ao meio da humanidade e que chegou até os nossos dias deverá, além do que foi exposto até aqui, dedicar algumas atenções específicas em relação ao tema das presentes Considerações. O que se segue é uma lista exemplificativa, que poderá ser ampliada e organizada de acordo com uma ordem de prioridade diferente.
111. A primeira dessas atenções diz respeito ao cultivo da piedade popular. Nesse âmbito, como se sabe, há também aspectos que exigem um processo de amadurecimento e enriquecimento; no entanto, permanece evidente a grande força de que dispõe esse recurso da tradição católica. Ninguém poderá jamais negar que justamente a piedade popular é, ainda hoje, um importante meio de transmissão da fé. Por isso, é necessário promover em relação a ela um compromisso renovado de inteligência e de coração. Aliás, sua grande flexibilidade permite que ela se renove constantemente e adquira estilos muito diversos ao longo dos séculos, conseguindo mesmo sobreviver aos ataques que a cultura — e, às vezes, até os próprios membros da Igreja — frequentemente lançaram contra ela.
112. No que diz respeito à força evangelizadora da piedade popular e, portanto, ao seu importante papel na transmissão da fé, são valiosas as orientações contidas nos números 122-126 da Evangelii gaudium. Nelas se pode ler, de fato, que na «piedade popular, pode-se captar a modalidade em que a fé recebida se encarnou numa cultura e continua a transmitir-se». Na verdade, toda inculturação autêntica da fé produz sempre uma forma de expressão popular da mesma. O ser humano vive de palavras e gestos que constituem o horizonte dentro do qual pode desenvolver-se e criar as condições para o encontro com o outro. Toda cultura traduz-se em práticas concretas e reflete-se e é transmitida por meio delas. A mesma consideração vale também para a experiência de fé. Toda inculturação da fé cria práticas religiosas específicas que a refletem e permitem que ela seja transmitida de geração em geração. Por isso, então, na «piedade popular, por ser fruto do Evangelho inculturado, subjaz uma força ativamente evangelizadora que não podemos subestimar: seria ignorar a obra do Espírito Santo. Ao contrário, somos chamados a encorajá-la e fortalecê-la para aprofundar o processo de inculturação, que é uma realidade nunca acabada. As expressões da piedade popular têm muito que nos ensinar e, para quem as sabe ler, são um lugar teológico a que devemos prestar atenção particularmente na hora de pensar a nova evangelização» e na questão da transmissão da fé.
113. Nesse contexto, é útil lembrar a força de atração que, entre as novas gerações, exercem as peregrinações de origem antiga e recente, bem como o desejo de pertencer a alguma confraria, como, por exemplo, vem ocorrendo recentemente na Espanha. Para muitos jovens, sobretudo nos contextos ocidentais, a busca por um sentido, em um mundo cada vez mais fechado em si mesmo, e a busca por um pertencimento religioso capaz de dar alguma forma à própria necessidade de identidade, em um mundo cada vez mais individualizado, representam necessidades muito importantes, que encontram resposta justamente na participação em peregrinações e no desejo de integrar uma confraria. No contexto do tema principal das presentes Considerações, torna-se urgente questionar-se sobre como “aproveitar” da melhor forma essas perguntas e essas necessidades dos nossos contemporâneos mais jovens, para que se tornem um canal pelo qual a luz de Cristo possa inundar suas existências, muitas vezes conturbadas.
114. Uma segunda atenção deve ser voltada para a homilia. O Papa Francisco dedicou-lhe um amplo espaço na Exortação Apostólica Evangelii gaudium, como testemunho de sua importância para o anúncio e a transmissão da fé; remetemos a ela para um aprofundamento. Uma homilia bem preparada pode desempenhar um papel decisivo na apresentação dos conteúdos da fé de forma narrativa, capaz de reler a Palavra de Deus à luz da vida concreta do povo e, assim, suscitar uma experiência viva de encontro com Cristo. O próprio Jesus aparece nos Evangelhos, antes de tudo, como um grande contador de histórias. Raramente ele inicia seus discursos com conceitos abstratos: recorre, em vez disso, a imagens, metáforas e parábolas; frequentemente faz referência à vida cotidiana das pessoas, propondo relatos capazes de abrir a imaginação de quem ouve, antes mesmo de tocar a inteligência. As parábolas, de fato, não se limitam a informar: são capazes de formar e transformar seus ouvintes. As histórias contadas por Jesus não servem simplesmente para tornar o discurso mais interessante, mas constituem a chave hermenêutica por meio da qual o ouvinte é introduzido no mistério do Reino. Nesse caso, a grande tradição homilética dos Padres da Igreja, tanto do Oriente quanto do Ocidente, pode oferecer uma contribuição valiosa aos Pastores.
115. Uma terceira atenção surge do desejo de um compromisso que muitos, especialmente entre os mais jovens, manifestam por meio de atividades de voluntariado. A busca concreta por tal compromisso costuma ser uma oportunidade de aproximação à realidade da Igreja. Essas pessoas sentem a necessidade sincera e profunda de dar algo aos outros; sentem, portanto, a urgência de sair de seu recinto individual e da lógica da posse como critério último da felicidade. É evidente que isso não implica imediatamente um interesse pela fé, mas representa uma boa oportunidade para o anúncio e para a proposta de amizade com o Senhor Jesus, que oferece motivações ainda mais profundas para esse compromisso. Toda a comunidade de fiéis é chamada a acolher esses “bons samaritanos” do nosso tempo e a acompanhá-los com gentileza e paixão rumo ao encontro com o fogo do amor de Deus, que ela guarda como um tesouro precioso de seu próprio caminho no meio do mundo.
116. Uma quarta atenção diz respeito à necessidade de ampliar os espaços de presença das mulheres na condução dos processos eclesiais. Na Igreja Católica, em geral, os fiéis mais presentes e ativos na vida das comunidades são, em grande parte, mulheres. Nos últimos anos, no entanto, tornou-se mais evidente a necessidade de permitir que as mulheres tenham acesso aos lugares onde são tomadas as decisões importantes para a vida da comunidade. Trata-se de um tema que o Dicastério estudou amplamente e cujas conclusões foram encaminhadas, por meio da Secretaria do Sínodo, ao Santo Padre.
117. Uma atenção adicional é exigida por um aspecto específico da nossa época. De fato, não se deve subestimar a necessidade que tantas pessoas expressam hoje de participar de grandes eventos (festivais musicais e outros). Isso também evidencia que o uso intenso das tecnologias digitais não é suficiente para suprir todas as necessidades do ser humano. Surge, portanto, também em nossa época, a necessidade de companhia, a necessidade e o desejo de partilha. Mesmo cientes de que a fé é transmitida de maneira privilegiada de um “tu” para outro “tu”, devemos aproveitar essa característica da contemporaneidade como uma boa oportunidade para o anúncio do Evangelho, tentando imaginar ocasiões de união entre as pessoas, fazendo eco aos grandes temas da atualidade, como, por exemplo, o da paz.
118. Outros pontos de reflexão são oferecidos pelo estudo da história da Igreja, em particular daqueles momentos em que ela soube responder positivamente às mudanças da época encontradas ao longo de sua trajetória histórica. Entre eles, pode-se citar a crise que se seguiu ao colapso das instituições romanas na Europa Ocidental, com o consequente abandono das cidades, onde o cristianismo estava mais enraizado. Nesse contexto, o surgimento do monaquismo irlandês, que floresceu na segunda metade do primeiro milênio cristão, revelou-se decisivo: não apenas salvaguardou e aprofundou a compreensão da fé, mas também deu origem a novas formas de evangelização e, ao mesmo tempo, contribuiu para desenvolvimentos significativos na prática sacramental, como a difusão da confissão auricular. Um segundo exemplo é oferecido pela crise doutrinária e pastoral provocada pela difusão do catarismo e dos diversos movimentos pauperistas, muitas vezes em oposição à Igreja, nos séculos medievais. Em resposta a tal situação, as ordens mendicantes, entre as quais se contam as fundadas por São Domingos e São Francisco, encarnaram uma renovada vitalidade evangélica por meio da pobreza radical, da pregação itinerante e do ensino teológico exercido em plena comunhão com a Igreja. Um exemplo adicional é oferecido pelo impulso a uma reforma católica de amplo alcance, suscitado pela profunda ruptura eclesial introduzida pela Reforma protestante, que teve como protagonistas figuras como Santa Teresa de Ávila e Santo Inácio de Loyola. Essa renovação coincidiu com a expansão missionária da Igreja para terras recém-descobertas e abertas ao anúncio do Evangelho, contribuindo para conferir-lhe um novo ímpeto. Por fim, vale lembrar a resposta da Igreja, no século XIX, às profundas mudanças provocadas pela questão operária e pelas consequências da Revolução Industrial, que a levaram a reformular de maneira sistemática sua Doutrina Social. Em cada um desses casos, um momento de crise tornou-se a ocasião para iniciativas criativas que se revelaram decisivas para a evangelização e coincidiram também com uma transição mais ampla entre épocas históricas.
119. Atualmente, torna-se necessária uma investigação específica sobre o repentino declínio do catolicismo nos países onde ele estava profundamente enraizado, a fim de compreender suas causas e elaborar uma resposta pastoral adequada.
120. Deve-se dedicar uma atenção adicional e decisiva ao mundo das escolas e universidades católicas, bem como ao das demais instituições católicas, especialmente aquelas dedicadas à caridade. Como testemunham os bispos de Gana: «A transmissão da fé católica é significativamente fortalecida por meio da instrução católica, que funciona como um importante canal para a formação contínua de crianças, jovens e até mesmo adultos». Em outros países, como a Venezuela, o programa de educação religiosa prevê uma integração entre as atividades escolares e paroquiais, confirmando o valor também pastoral das escolas católicas. Acima de tudo, em países onde o catolicismo representa uma minoria – às vezes extremamente reduzida –, essas instituições constituem frequentemente o único ponto de contato de grande parte da população com a Igreja Católica. No entanto, é preciso ressaltar que, em diversas regiões, vigoram restrições ao ensino da religião nas escolas; por isso, nesses contextos, cabem às paróquias arcar com todo o ônus da catequese.
121. Em comparação com os locais tradicionais da ação pastoral, as escolas oferecem um contato mais institucional e quase profissional, mas não por isso menos capaz de transmitir pelo menos uma pequena centelha daquele fogo de amor que atravessou os séculos e que, a partir de Jesus, chegou até os nossos dias. Oferece-se, de fato, um testemunho quase transparente da caridade intelectual e material, capaz de orientar espontaneamente para a beleza do Evangelho e sua força humanizadora. É o que atestam também os bispos da França: «O ensino católico é um espaço privilegiado para o primeiro anúncio às crianças, aos jovens e às famílias, que pode levar os jovens, mas também seus pais, a solicitar a iniciação cristã». Em um horizonte mais amplo, os fiéis são, portanto, convidados a defender sempre a centralidade da escola, como um espaço «onde as novas gerações podem aprender a procurar e amar a verdade, a questionar-se sobre o sentido da vida e sobre a dignidade de cada pessoa».
122. Por fim, uma última menção diz respeito ao empenho ecumênico, que constitui uma dimensão intrínseca da missão evangelizadora da Igreja e, portanto, também da transmissão da fé. De fato, como observa o Decreto Unitatis redintegratio do Concílio Vaticano II, a divisão entre os cristãos «contradiz abertamente a vontade de Cristo, e é escândalo para o mundo, como também prejudica a santíssima causa da pregação do Evangelho a toda a criatura». Longe de representar uma alternativa ao anúncio, o diálogo ecumênico constitui uma de suas próprias modalidades, na qual a busca comum da verdade, a escuta mútua e o testemunho da caridade tornam mais credível a proclamação do kerygma diante de um mundo cada vez mais secularizado e pluralista. Como lembra São João Paulo II, de fato, «o próprio esforço em direção à unidade, constitui por si um sinal da obra de reconciliação que Deus realiza no meio de nós», manifestando concretamente que o Pai é, para sempre e para todos, amor. Isso convida a comunidade dos crentes a fazer seu o apelo confiante do Papa Francisco: «se realmente acreditamos na ação livre e generosa do Espírito, quantas coisas podemos aprender uns dos outros! Não se trata apenas de receber informações sobre os outros para os conhecermos melhor, mas de recolher o que o Espírito semeou neles como um dom também para nós», de modo a «caminhar decididamente para formas comuns de anúncio, de serviço e de testemunho».
123. Nesse mesmo horizonte, é preciso reconhecer que alguns membros de outras religiões e movimentos religiosos se empenham em testemunhar a fé em Deus em um contexto cultural que tende a se fechar na imanência mais vazia. Da mesma forma, alguns membros de outras Igrejas cristãs e comunidades eclesiais buscam novos caminhos para anunciar o Evangelho e o amor de Cristo em nosso tempo. Também de suas experiências positivas e de seus esforços criativos é possível aprender algo, para que nosso empenho na transmissão da plena riqueza do tesouro da fé, recebido como dom, seja sempre fecundo.
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