CONSTRUIR A CIVILIZAÇÃO DO AMOR - A NECESSIDADE DA DIPLOMACIA E DO MULTILATERALISMO

CONSTRUIR A CIVILIZAÇÃO DO AMOR - A NECESSIDADE DA DIPLOMACIA E DO MULTILATERALISMO

224. Nas relações internacionais, o diálogo é o instrumento insubstituível da diplomacia para prevenir conflitos e restabelecer laços de confiança. Contra as comunicações impulsivas, as retóricas agressivas e as lógicas de poder que marcam o nosso tempo, «a vocação da diplomacia é favorecer o diálogo entre todos, incluindo os interlocutores considerados mais “incómodos” ou que não se considerariam legitimados para negociar», recorrendo o máximo possível à humildade e à paciência para reatar os mais ténues sinais de boa vontade das partes em conflito, de modo a iniciar uma pacificação.

 

225. O ciberespaço também se tornou um campo de batalha: ataques informáticos, manipulação de dados e campanhas de influência orquestradas com a ajuda da IA podem desestabilizar países inteiros, antes mesmo de se chegar a um aberto confronto armado. Além disso, neste âmbito, a atribuição de responsabilidades é frequentemente incerta: quando não é clara a origem dos ataques, aumenta o risco de reações desproporcionais, erros de avaliação e espirais de escalada. Por isso, é necessária uma diplomacia capaz de atuar também neste novo ambiente, negociando regras comuns sobre a utilização das tecnologias digitais, protegendo os civis e os mais vulneráveis de formas de violência invisíveis, mas nem por isso menos reais.

 

226. As organizações internacionais, em particular a ONU, continuam a ser instrumentos essenciais para promover uma civilização do amor, possibilitando o diálogo entre as nações, a resolução pacífica dos conflitos, o desenvolvimento integral dos povos, a proteção das pessoas mais vulneráveis, o desarmamento e o cuidado da criação. Através destas instâncias, a comunidade internacional pode procurar reduzir as desigualdades, defender os direitos dos refugiados e das minorias, liberar recursos alocados ao armamento para os destinar à promoção humana e proteger a Casa comum. A Santa Sé apoia e acompanha este esforço, embora reconheça que a atual fragilidade da ONU e do sistema político internacional revela a necessidade de reformas profundas: não se trata apenas de ajustes técnicos, uma vez que a crise de convicções e de valores toca também os fundamentos éticos da vida das nações e torna mais difícil orientar o multilateralismo para o verdadeiro bem comum.

 

227. No contexto internacional, a diplomacia da Santa Sé assume o princípio evangélico da misericórdia como critério concreto da ação política. É uma das formas através das quais a Santa Sé se coloca ao serviço da humanidade, chamando as consciências para a caridade e a verdade, defendendo a dignidade de cada pessoa e tornando-se voz dos pobres, dos migrantes e das vítimas das guerras. Desta forma, a diplomacia pontifícia expressa a catolicidade da Igreja e contribui para a construção de uma civilização do amor, na qual também as novas tecnologias sejam orientadas para o bem comum.

 

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