O SEGREDO DA VIRGEM MARIA

 

 

O GRANDE SEGREDO DA SANTIDADE

 

CONDIÇÕES

 

Eis aqui, ó alma predestinada, um segredo que me confiou o Altíssimo e que não pude encontrar em nenhum livro nem antigo nem moderno. Ensinar-to-ei com a graça do Espírito Santo, mas com estas condições:

 

1.ª) Que o não reveles senão aquelas pessoas que o mereçam pelo seu espírito de oração, mortificação, caridade, sofrimento, abnegação e zelo pelas almas.

 

2.ª) Que te aproveite para te tornares santa, visto que a preciosidade deste segredo mede-se pelo uso que se faz dele. Não julgues poder estar de braços cruzados, sem trabalhar, porque então o meu segredo mudar-se-ia em veneno e ser-te-ia de condenação.

 

3.ª) Que em todos os dias da tua vida agradeças ao Senhor o favor que te faz, declarando-te um segredo que não mereces conhecer.

 

À medida que o puseres em prática nas ações ordinárias da vida, compreenderás toda a sua beleza e importância; mas, de princípio, compreende-lo-ás só imperfeitamente, por causa dos muitos pecados e defeitos que te obstam conhecê-lo melhor.

Depois, não te deixes levar pelo precipitoso desejo de penetrar numa verdade que não pertence à ordem natural; recita, antes, primeiro, de joelhos, o Avé-Maria Stella e o Veni Creator, para pedir a Deus que compreendas e avalies este mistério divino.

E visto que não disponho de muito tempo para escrever e tu tens pouco para ler, tudo te esclarecei com brevidade.

 

 

PRIMEIRA PARTE: O Lugar que Maria desempenha na nossa santificação

 

NECESSIDADE DE SANTIFICAR-SE POR MEIO DE MARIA

 

 

O que Deus exige de ti é que a tua alma, feita à Sua imagem e remida com o sangue de Cristo, chegue a ser, nesta vida, santa como Ele, e, como Ele, feliz na outra. A tua vocação mais certa consiste na aquisição da santidade, para onde devem convergir todos os teus pensamentos, palavras, obras, sofrimentos: numa palavra, todos os movimentos da tua vida.

Deves preocupar-te, por conseguinte, em não resistir à vontade de Deus, transcurando o grande fim para que unicamente te criou e te conservou até agora!

Que maravilha! O lodo mudado em luz, a imundície em pureza, o pecado em santidade, a criatura no Criador, o homem em Deus! É uma obra admirável, repito, porém, difícil, de per se só, e inatingível pela natureza humana exclusivamente. Ninguém a pode levar a cabo sem a graça de Deus, e uma graça tão abundante e extraordinária. A criação do universo não foi uma obra tão grande como esta.

E tu, como a realizarás em ti próprio? Que meios pensas adotar para atingir a perfeição a que Deus te chama? Todos nós conhecemos os meios de santificação e salvação: estão registados no Evangelho, que foram explicados pelos mestres da vida espiritual e postos em prática pelos santos. Quem se quer salvar e atingir a perfeição precisa de espírito de humildade, de filial abandono aos braços da Providência Divina e de conformidade à vontade de Deus.

Para pôr em prática estes meios é, sem dúvida, absolutamente necessária a graça de Deus que, mais a uns, menos a outros, é dada a todos... Digo mais a uns menos a outros, porque Deus, não obstante ser infinitamente bom, não dá a todos o mesmo grau de graça, ainda que não deixe de dar o suficiente a nenhum. Uma alma fiel, com muita graça, pode dar grandes passos, e com pouca, pequenos.

O que dá valor e faz subir o preço das nossas ações é a graça dada por Deus e secundada pela alma.

Todos estes são princípios incontestáveis.

Por isso, tudo se reduz a encontrar um meio fácil em que se obtenha de Deus a graça necessária para ser santos, e é precisamente isso que te quero ensinar. Portanto, sem mais e desde já te digo que, para encontrar esta graça de Deus, é necessário encontrar Maria Santíssima.

 

 

CARGO E PRERROGATIVAS DA SANTÍSSIMA VIRGEM

 

 

  1. Maria somente encontrou graça diante de Deus, tanto para si como para todos e para cada um dos homens em particular; aquela graça que nem os patriarcas, nem os profetas, nem qualquer santo do Antigo Testamento puderam encontrar.

 

    1. Foi ela que deu o corpo e a vida ao autor de toda a graça, e por esta prerrogativa lhe chamam Mater gratie, Mãe da graça.

 

    1. Deus Pai, de quem provêm como de fonte essencial todas as graças, dando-lhe o Seu divino Filho, deu-lhe também todas as graças: de maneira que, como diz São Bernardo, n´Ele e com Ele foi-lhe dada a própria vontade de Deus.

 

    1. Deus escolheu-a para tesoureira, administradora e dispenseira de todas as graças, de modo que todos os dons passam pelas suas mãos, e em conformidade com este poder, acrescenta São Bernardino, ela distribui a quem quer, como quer, quando quer e na medida que quer, as graças do eterno Pai, as virtudes de Jesus Cristo e os dons do Espírito Santo.

 

    1. Como na ordem natural é necessário que uma criança tenha um pai e uma mãe, assim na ordem sobrenatural é necessário que um verdadeiro filho da Igreja tenha Deus por Pai e Maria por Mãe; e quem se gabasse que tem Deus por Pai e não nutrisse uma verdadeira ternura filial por Maria, cairia num grande engano, pois que por pai não lhe restaria senão o demónio.

 

    1. Dado que Maria formou a cabeça dos predestinados, Jesus Cristo, compete-lhe também formar os membros desta cabeça, os cristãos; pois que uma mãe não forma uma cabeça sem os membros, nem os membros sem a cabeça. Quem por isso quer ser membro de Jesus Cristo, cheio de graça e de verdade, deve formar-se em Maria, mediante a graça de Jesus, que reside nela em toda a sua plenitude exatamente para depois se comunicada aos verdadeiros membros de Jesus Cristo e aos verdadeiros santos.

 

    1. O Espírito Santo que escolheu Maria para esposa, nela, por meio dela e dela produziu a sua obra-prima, o Verbo encarnado Jesus, e, como jamais a repudiou, todos os dias continua a produzir nela e por meio dela os predestinados, de uma maneira verdadeiramente misteriosa.

 

    1. Deus participou a Maria um domínio especial sobre as almas, para que as alimente e faça crescer. Santo Agostinho até chega a dizer que os predestinados deste mundo estão todos como que fechados no seio de Maria e não vêm à luz enquanto esta boa Mãe os não conduza à vida eterna. Como a criança recebe da mãe todo o alimento, assim todos os predestinados recebem de Maria toda a alimentação espiritual e todas as forças.

 

    1. É unicamente a Maria que o Pai Celeste diz: In Jacob inhabita: reside, ó minha filha, em Jacob, ou seja, nos Meus eleitos, reconhece-te em Jacob. A Maria diz o divino filho: In Israel inhaereditare: herda, ó Minha Mãe, em Israel, ou seja, nos predestinados; a Maria, enfim, diz o Espírito Santo: in electis meis mitte radices; estabelece-te, ó minha esposa fiel, nos meus escolhidos. Por isso, cada um que queira pertencer ao número dos eleitos e predestinados deve ter Maria como hóspede da sua casa, ou seja, da sua alma e deixar que lá semeie raízes da profunda humildade, de caridade ardente e de todas as outras virtudes.

 

COMO MARIA FORMA JESUS EM NÓS

 

 

Santo Agostinho chama a Virgem com o nome de modelo, molde de Deus: forma Dei; e é-o, na verdade. Quero dizer que somente nela se formou o Homem-Deus, ao natural, sem lhe faltar nenhum dos alineamentos divinos; e é igualmente só nela que o homem se pode transformar em Deus ao natural, enquanto a natureza humana o pode conseguir com a graça de Jesus Cristo.

 

O artista pode reproduzir ao natural, de duas maneiras, uma estátua ou um busto: trabalhando a matéria dura e informe a golpes de cinzel e outros instrumentos adaptados, ou extraindo-a de um molde. O primeiro modo é longo, difícil e exposto a muitos enganos, pois basta um golpe de martelo ou de buril mal dado para arruinar tudo. O segundo, ao invés, é rápido, fácil e agradável, quase sem fadiga nem dispêndio, desde que o molde seja perfeito e represente ao natural a figura, e a matéria de que nos servimos seja maleável e não oponha qualquer resistência à mão.

 

O grande molde de Deus preparado pelo Espírito Santo para formar ao natural um Deus-homem, mediante a união hipostática, e para formar um homem-Deus mediante a graça, é Maria Santíssima.

Nem um só dos lineamentos divinos falta a este molde; quem quer que se meta nele e se deixe manejar, recebe imediatamente os lineamentos de Jesus Cristo, verdadeiro Deus. E isto dá-se de uma maneira suave e proporcionada à fraqueza humana, sem grandes penas e fadigas; de maneira segura, sem receio de ilusões, pois o demónio não pode lá tomar parte e jamais poderá entrar onde estiver Maria; de maneira santa e imaculada, sem a mínima mancha de culpa

 

Que diferença entre uma alma formada em Jesus Cristo com os meios ordinários, à maneira do escultor que confia na própria habilidade, e uma outra alma dócil, simples, bem formada, que longe de confiar em si própria se mete em Maria e lá se deixa manejar pela ação do Espírito Santo! Quantas manchas, quantos defeitos, quantas obscuridades, quantas ilusões, e quanto de natural e humano há na primeira! Como, ao invés, é pura, divina e semelhante a Jesus Cristo a segunda!

 

Nunca se há-de encontrar uma criatura, nem entre os santos, nem entre os próprios querubins e serafins do Céu, onde Deus manifeste tanto as Suas perfeições externas e internas como em Maria Santíssima. Ela é o paraíso de Deus, o Seu mundo inefável, onde entrou a segunda Pessoa da Santíssima Trindade para operar maravilhas, para guardá-la e lá depositar as suas complacências. Deus fez um mundo para o homem terreno que é a Terra que habitamos, e um mundo para o homem glorificado, que é o paraíso; mas fez também um mundo para Si próprio, pondo-lhe o nome de Maria: mundo desconhecido para quase todos os mortais da Terra e incompreensível até para os santos e anjos do Céu, os quais, estupefactos por verem Deus tão acima deles, tão longe e oculto neste mundo da divina Maria, clamam incessantemente:«Santo, Santo, Santo!».

 

Feliz, mil vezes feliz sobre a Terra, a alma a quem o Espírito Santo revela o segredo de Maria, a fim de que o conheça, a quem abre este jardim fechado até que lá entre, esta fonte lacrada até que lá encontre a água viva da graça e mate a sede à sua corrente. Esta alma encontrará Deus sem mescla de criaturas, nesta amabilíssima criatura, e um Deus que, além de Se mostrar infinitamente Santo e sublime, mostra-Se também infinitamente condescendente e ao alcance da nossa fraqueza. Deus está sempre presente em toda a parte, pode-Se encontrar até no inferno: mas não há um lugar em que a criatura O possa encontrar tão pertinho e ao alcance da sua fraqueza como em Maria, e de facto desceu e encarnou precisamente nela. Em todas as outras partes, Ele apareceu como o Pão dos fortes e dos anjos, em Maria, ao invés apareceu como o Pão dos pequeninos, das crianças.

 

Ninguém, portanto, pense, como certos falsos mestres, que Maria sirva de impedimento à união com Deus pelo motivo de ser também ela uma simples criatura. Não é já Maria que vive, é Jesus Cristo, é Deus que vive nela. A transformação de Maria em Deus supera aquela atingida por São Paulo e outros santos, mais do que quanto o Céu se eleva sobre a Terra. Maria nasceu unicamente para Deus, e longe de entreter as almas em si, faz de maneira que enderecem o seu voo para Deus e tanto mais perfeitamente os une a Ele, quanto mais unidas estão a ela.

 

Maria é o eco admirável de Deus. Quando se grita: «Maria», nada mais responde que:«Deus», e quando se saúda «bem-aventurada» com Santa Isabel, ela nada mais faz que exaltar a Deus. Se os falsos mestres, de quem tanto o demónio tem abusado, até na oração, tivessem sabido encontrar Maria e por Maria, Jesus, e por Jesus, Deus, não teria dado tão solenes cabeçadas. Uma vez que por Maria se encontrou Jesus e por Jesus Deus Pai, tem-se todo o bem, como costumam dizer as almas santas. E dizendo todo o bem compreende-se tudo: a defesa dos inimigos de Deus, a verdade contra a mentira, a facilidade de vencer as dificuldades no caminho da salvação, a alegria e a suavidade nas amarguras da vida.

 

Não é que quem encontrou Maria com a perfeita devoção fique isento de cruzes e sofrimentos... pelos contrário, terá ainda mais que os outros, pois a Virgem Mãe dos viventes dá aos seus filhos pernadas da árvore da vida, isto é, da Cruz de Jesus; mas ao distribuir estas cruzes, dá também a graça para as levar com paciência e até com alegria, de forma que as cruzes que manda aos seus filhos são cruzes por assim dizer doces, antes que amargas, ou se antes sentem, por algum tempo, a amargura do cálice, que os amigos de Deus necessariamente devem beber, a consolação e alegria que esta boa Mãe faz suceder depois à tristeza, dá lenitivo e coragem para levar outras cruzes ainda mais pesadas e mais amargas.

 

CONCLUSÃO

 

Concluamos pois que toda a dificuldade está em saber verdadeiramente encontrar Maria Santíssima e com ela a abundância de todas as graças. Deus é Senhor absoluto de tudo, e pode, quando quer, comunicar diretamente o que ordinariamente não comunica senão por intermédio de Maria; e seria mesmo temerário negar que por vezes o faça; contudo, consoante a ordem estabelecida pela sabedoria divina, como afirma São Tomás, Deus, na ordem da graça, não Se comunica, de ordinário, aos homens, senão por meio de Maria. Para elevar-se e unir-se a Ele, é indispensável servir-se do próprio meio que Ele usou para se fazer homem e comunicar as Suas graças; isto é a verdadeira devoção à Virgem Santíssima.

 

 

 

SEGUNDA PARTE: A verdadeira devoção á Virgem ou santa escravidão de amor

 

ESCOLHA DA VERDADEIRA E PERFEITA DEVOÇÃO

 

 

Sem querer falar aqui das falsas, existem muito boas devoções à Virgem Santíssima.

A primeira consiste dos próprios deveres de cristãos, evitando o pecado mortal, fazendo as coisas mais por amor que por temor, rezando de quando em quando à Virgem e honrando-a como Mãe de Deus, sem nenhuma outra prática especial.

A segunda consiste em cultivar para com Maria Santíssima altos sentimentos de estima, amor, veneração e confiança: desejo ardente de fazer parte das Congregações Marianas; recitar a coroa do Santo Rosário; honrá-la e adornar as imagens e os altares de Maria; difundir os seus louvores, inscrever-se nas suas congregações. E esta devoção (desde que esteja também longe do pecado) é boa, santa e louvável; não mira diretamente porém, a destacar as almas das criaturas e de si próprias , para as unir a Jesus Cristo.

A terceira forma de ser devotos de Nossa Senhora, conhecida e praticada por muito poucas pessoas, é exatamente aquela que agora desvendarei, ó alma predestinada.

Consiste em dar-se inteiramente como escravos a Maria e por meio dela a Jesus; em fazer todas as coisas por Maria, com Maria e como Maria. Passo imediatamente a explicar-te estas palavras.

 

 

NATUREZA E EXTENÇÃO DA VERDADEIRA DEVOÇÃO A MARIA, CHAMADA ESCRAVIDÃO DE AMOR

 

 

É preciso escolher um dia especial para oferecer-se, consagrar-se e sacrificar-se; e isto deve ser feito espontaneamente e por amor, sem receio algum, inteiramente e sem qualquer reserva: nem de bens externos como casa, família, ganhos, nem de bens internos da alma como os méritos, as graças, as virtudes e as satisfações.

É bom notar que com esta devoção a alma imola-se a Jesus por Maria com um sacrifício que não é exigido em nenhuma ordem religiosa: com tudo o que a alma tem de mais querido, até com o próprio direito que teria de dispor a seu bel-prazer as próprias orações e satisfações: de maneira que se põem e se deixam todas as coisas à disposição da Santíssima Virgem, que as aplicará como melhor lhe aprouver para a maior glória de Deus, que ela conhece perfeitamente.

Deixa-se à sua disposição todo o valor satisfatório e impetratório das boas almas de maneira que depois de se ter feito oblação dele, ainda que sem voto, uma pessoa já se não considera mais senhora de si própria, e a Virgem tanto o pode aplicar a uma alma do purgatório para a aliviar e libertar, como a um pobre pecador para o converter.

Também os nossos méritos são confiados com esta devoção às mãos de Maria, mas só para que no-los guarde, aumente e valorize; visto que, de per se, nem os méritos de graça nem os da glória se podem comunicar de uma para outra alma. Todavia, as orações e boas obras oferecemos-lhas para que as aplique a quem melhor entender. E se depois de nos havermos assim consagrado a Nossa Senhora desejarmos ajudar qualquer alma particular do purgatório, salvar qualquer pecado ou favorecer qualquer dos nossos amigos ou inimigos com orações, mortificações, esmolas, sacrifícios, primeiro é necessário pedir-lho a ela e submeter-nos completamente ao que ela dispõe, ainda que o não saibamos. E fiquemos tranquilos que o valor das nossas ações, administrado por aquelas mãos de que o próprio Deus Se serve para nos distribuir as Suas graças e dons, não correrá perigo e será seguramente aplicado segundo a maior glória de Deus!

Disse que esta devoção consiste em oferecer-se e consagrar-se a Maria na qualidade de escravo. Há três classes de escravidão. A primeira é a de natureza: bons e maus, todos somos servos de Deus nesta forma. A segunda é a forçada: são condenados a ela os demónios e os réprobos. A terceira é a voluntária de amor e é com esta precisamente que nos devemos consagrar a Deus por Maria, na maneira mais perfeita que uma criatura se possa consagrar ao seu Criador.

Notai, por outro lado, a grande diferença que há entre um escravo e um servo. Este exige uma remuneração pelos seus serviços, aquele não. O servo pode deixar quando quiser o patrão e serve-o unicamente por um certo período de tempo; o escravo, ao invés, entregando-se-lhe para sempre, não o pode deixar sem incorrer na injustiça. O simples servo nunca cede ao patrão o direito de vida ou de morte sobre a sua pessoa; pelo contrário, o escravo põe-se completamente nas suas mãos, de maneira que o patrão até o poderia fazer morrer sem temor de justiça. Imediatamente se compreende, porém, que uma semelhante forma de escravidão não se pode dar entre homem e homem, mas unicamente entre o homem e o seu Criador. E por isso não se encontram semelhantes escravos entres os cristãos, mas só entre os turcos e os pagãos.

Feliz, mil vezes feliz a alma que, depois de haver sacudido de si com o batismo a escravidão do demónio, se consagra inteiramente a Jesus por meio de Maria como escrava de amor!

 

EXCELÊNCIA DA SANTA ESCRAVIDÃO PROVENIENTE DO FAZER PASSAR PELA MEDITAÇÃO DE MARIA TODA A VIDA DA ALMA

 

 

Ser-me-iam necessárias muitas luzes do alto para descrever perfeitamente a excelência desta devoção; mas roçarei somente como de voo alguns pontos.

 

  1. Consagrar-se desta maneira a Jesus por meio de Maria é imitar Deus Pai, que nos deu o Seu Filho exatamente por meio de Maria; é imitar Deus Filho, que veio a nós por Maria, e, «dando-nos o exemplo para nós fazer-mos como Ele fez», nos convida a ir a Ele pelo mesmo caminho por onde também quis passar, que é Maria Santíssima; é imitar o Espírito Santo, que não comunica as suas graças e dons senão por Maria: «Não é justo», pergunta São Bernardo, «que a graça volte ao seu autor pelo mesmo canal por onde nos foi transmitida?»

 

  1. Ir deste modo a Jesus por Maria redunda em honra do próprio Jesus Cristo, porque damos assim a compreender que nós somos indignos, por causa dos nossos pecados, de nos aproximarmos diretamente e sozinhos da sua infinita santidade e nos é necessário que a Sua Mãe Santíssima faça de nossa advogada e mediadora junto d´Ele, nosso mediador. Assim aproximamos-nos de Jesus como nosso irmão e mediador ao mesmo tempo, e humilhamo-nos diante d´Ele como diante do nosso Deus e juiz; numa palavra, praticamos a humildade, que é a virtude que cativa sempre o coração de Deus.

 

  1. Consagra-se a Jesus por Maria equivale a pôr nas mãos de Maria as nossas boas obras que, porquanto pareçam boas, muitas vezes são muito manchadas e indignas para que Deus, diante de Quem não são puras as estrelas, as olhe e aceite. Por isso nós pedimos à nossa boa Mãe e Senhora a fim de que, recebendo o nosso pobre dom, o purifique, o santifique, o acresça e o embeleze de maneira a tornar-se digno de Deus. Os méritos da nossa pobre alma diante do Pai de família que é Deus são ainda menos do que o que poderia representar aos olhos de um rei a fruta desprezível que um pobre colono apresentasse para pagar o seu aluguer. Mas o que é que faria este homem se fosse atilado ou gozasse ao mesmo tempo dos favores da rainha? Para mostrar a sua benevolência ao camponês e ao mesmo tempo o respeito ao rei, ela extrairia o que de defeituoso ou mau houvesse naquela fruta, pô-la-ia numa salva de ouro, circundando-a de flores. Assim, o rei aceitá-la-ia sem dificuldade, antes, com prazer das mãos da rainha, que quer bem aquele camponês.

Modicum quid offerre desideras? Manibus Mariae tradere cura, si non vis sustinere repulsam. Queres oferecer qualquer pequenina coisa? - pergunta São Bernardo. - Procura apresentá-la pelas mãos de Maria, se não queres receber uma recusa.

Oh, Senhor, como tudo o que fazemos é pouco! Nós, porém, com esta devoção pomo-lo nas mãos de Maria. E uma vez que lhe tenhamos dado tudo, despojando-nos em sua honra de quanto podemos dispor, ela infinitamente mais generosa, por um ovo – como se diz – dar-nos-á um boi; ela dar-se-nos-á inteiramente com os seus méritos e virtudes; colocará os nossos dons na salva de ouro da sua caridade, e como fez Rebeca com Jacob, revestir-nos-á com os ricos e belos vestidos do seu primogénito e unigénito Jesus, ou seja, com os Seus méritos que estão à sua disposição. E assim, como escravos e criados seus, depois de nos havermos despojado de tudo em sua honra, teremos o dobro de vestes, ou seja, bens em profusão (domestici ejus vestiti sunt duplicibus), vestes, ornamentos, perfumes, méritos de Jesus e de Maria cumularão a alma do escravo de Jesus e de Maria, que se despojou de si mesmo e é fiel a esta sua nudez.

 

    1. Consagra-se assim à Santíssima Virgem equivale ainda a praticar no grau mais alto possível a caridade com o próximo, pois damos a Maria o que de mais precioso possuímos, para que disponha em favor dos vivos e defuntos.

 

    1. Com esta devoção põem-se no seguro as graças, os méritos e as virtudes fazendo depositária Maria e dizendo-lhe: «Toma, ó minha amada Senhora; eis aqui o que pude fazer de bem com a graça do teu querido Filho. Por causa da minha fraqueza e inconstância, pelo grande número dos inimigos, que dia e noite me perseguem, não sou capaz de o guardar. Ah, que todos os dias se veem precipitados no lodo os cedros do Líbano e ir acabar no meio dos pássaros noturnos as águias que sobem ás alturas do Sol! Vejo cair mil justos à minha esquerda e dez mil à minha direita; mas tu, minha poderosa e mais que poderosa Princesa, sustém-me para que não caia, guarda os meus bens para que não mos roubem. Em ti deponho como em depósito todos os meus bens; Depositum custodi: scio cui credidi. Sim, bem sei quem tu és, e por isso abandono-me a ti completamente. Tu és fiel a Deus e aos homens, e não hás-de permitir que se perca nada do que se te confia; és poderosa e ninguém poderá assaltar-te ou roubar-te das mãos o que tens em depósito. Ipsam sequens non devias; ipsam rogans, non desperas, ipsam cogitans, non erras; ipsa tenente, non corruis; ipsa protegente, non metuis; ipsa duce, non fatigaris; ipsa propitia, pervenis; e noutro lado: Detinet Filium, ne percutiat; detinet diabolum, ne noceat; detinet virtutes, ne fugiant; detinet merita, ne pereant; detinet gratiam ne effluat. São palavras de São Bernardo, que, no fundo, exprimem o que agora disse. E ainda que não houvesse outro motivo para me excitar a esta devoção, só ao pensar que é um meio seguro para conservar e aumentar em mim a graça de Deus, deveria sentir-me arder de entusiasmo por ela.»

Esta devoção torna a alma verdadeiramente livre com essa liberdade dos filhos de Deus. Desde o momento em que alguém se torne escravo por amor, esta amada Senhora em recompensa, dilata-lhe o coração e fá-lo caminhar a passos de gigante no caminho dos mandamentos de Deus. Afugenta o desgosto, a tristeza, o escrúpulo; de facto, o próprio Senhor ensinou esta devoção à madre Inês de Jesus, como meio seguro para sair das grandes penas e perplexidades em que se encontrava. «Faz-te escrava de minha Mãe», disse-lhe. Fê-lo, e como por encanto cessaram as suas penas.

Para conferir maior autoridade a esta devoção, conviria citar as bulas e indulgências dos sumos pontífices, os decretos dos bispos em seu favor, as confrarias fundadas em sua honra, o exemplo de muitos santos e grandes personagens que a praticaram. Mas tudo isso omito por brevidade.

 

 

PRÁTICAS INFERIORES DA SANTA ESCRAVIDÃO SEU ESPÍRITO E SEUS FRUTOS

 

 

Sobretudo disse que esta devoção consiste em fazer todas as coisas com Maria, em Maria, por meio de Maria e para Maria.

Não basta consagrar-se e entregar-se de uma vez para sempre como escravo de Maria, e não basta tão-pouco repeti-lo todos os meses ou todas as semanas. Seria uma devoção demasiado passageira, que não levaria a alma à perfeição a que se endereça se for bem praticada. Não é difícil inscrever-se numa confraria, nem abraçar esta devoção e recitar todos os dias algumas orações prescritas; o verdadeiramente difícil é entrar no seu verdadeiro espírito interior, que consiste em fazer de modo que a alma, no seu íntimo, dependa e seja escrava da Santíssima Virgem, e de Jesus por meio dela. Tenho encontrado muitas pessoas que exteriormente têm abraçado a santa escravidão, mas poucas que lhe tenham aprendido o verdadeiro espírito e menos ainda que tenham perseverado nele.

 

  1. A prática essencial desta devoção consiste em fazer todas as ações com Maria; ou seja, tomar a Virgem como perfeito modelo de tudo o que se tem para fazer.

 

    1. Para este fim, antes de mais nada, é preciso desprender-se de si próprio e das próprias perspetivas, humilhar-se diante de Deus, como seres incapazes de qualquer bem sobrenatural ou ação meritória para a vida eterna. É preciso recorrer a Nossa Senhora e unir-se às suas intenções, ainda que as desconheçamos; unir-se por meio de Maria ás intenções de Jesus, ou seja, entregar-se ás mãos da Virgem, para que ela aja em nós e faça de nós o que melhor lhe pareça, para a glória do seu Filho, e, mediante Jesus Cristo, para a glória do Eterno Pai: de maneira que não aja nenhum ato da vida interior nem operação da alma que não dependa dela.

 

    1. Fazer tudo em Maria, significa habituar-se a estar recolhidos para poder formar em si próprios um pequeno esboço ou retrato da Santíssima Virgem. Ela será para a alma como o pequeno oratório onde apresenta a Deus as suas orações segura de não ser repelida; será a Torre de David onde se põe ao seguro dos inimigos; a lâmpada acesa para projetar raios de luz até mesmo nas mais recônditas partes da alma e inflamá-la de amor de Deus; a sagrada cela para contemplar Deus nela e com ela: em suma, Maria será para a alma o recurso universal e o seu tudo. Se reza, rezará com Maria, se recebe Jesus na Sagrada Comunhão, confiá-lo-á a Maria, para que lá encontre as suas complacências. Qualquer coisa que faça, fá-la-á em Maria e em tudo fará atos de separação de si própria.

 

    1. Nunca recorrer a nosso Senhor Jesus Cristo senão por meio de Maria, pelo poder de intercessão e crédito que tem junto d´Ele, de maneira que O não encontremos nunca só quando lhe vamos pedir favores.

 

    1. Finalmente, é preciso fazer todas as ações para Maria; isto quer dizer que, como escravos declarados desta augusta Senhora, devemos trabalhar unicamente para ela, para a sua glória e interesse, como fim próximo, e para a glória de Deus, nosso fim último. Em tudo aquilo que a alma faz, deve renunciar ao amor próprio, que se infiltra por toda a parte, sem que nos demos conta; e repetir muitas vezes no âmago do próprio coração: é para vós, minha amada Senhora, que faço isto ou aquilo, que vou aqui ou acolá, que suporto tal pena ou injúria.

 

 

 

TRÊS AVISOS IMPORTANTES

 

 

Livra-te bem de crer, ó alma predestinada, que é mais perfeito ir diretamente a Jesus Cristo ou a Deus. A tua ação, a tua intenção têm bem pouco valor: indo, ao invés por Maria, a ação deixará de ser tua para ser de Maria que opera em ti, e por consequência será muito mais preciosa e digna de Deus. ;

Cuida bem de não te esforçares por sentir a todo o transe, prazer e gosto no que fazer ou dizer; toda a tua palavra ou ação seja antes cheia de fé viva que Maria teve sobre a Terra, e que ela não deixará de te conceder no momento oportuno. Tu, pobre escravo, deixa para a tua soberana a visão clara de Deus, os doces transportes, as alegrias, as riquezas e o gozo, e para ti não procures mais que a fé pura, cheia de desgosto, distrações, aborrecimento e aridez. Diz «Amen, assim seja» a tudo o que faz no Céu Maria, tua soberana, visto que por agora nada de melhor poderias fazer.

Não te aflijas nem te atormentes pelo facto de não poderes gozar imediatamente da doce presença de Nossa Senhora. Esta graça não é concedida a todos... e se quando Deus a concede, por Sua grande misericórdia, a alma não é fiel em recolher-se com muita frequência, perde-a com toda a facilidade. Se te sucedesse uma semelhante desgraça, volta-te docemente para Maria e confessa a tua culpa.

 

MARAVILHOSOS FRUTOS DA PRÁTICA INTERIOR DA SANTA ESCRAVIDÃO

 

 

A experiência ensinar-te-á infinitamente mais do que as minhas palavras: e se fores fiel em praticar o pouco que te ensino, asseguro-te que encontrarás tanta graça e riqueza, que se te encherá de júbilo a alma e tu próprio ficarás surpreendido.

Portanto, trabalhemos muito, alma predileta, e façamos de maneira que por uma fiel prática desta devoção, a alma da Virgem fique unida a nós para nos alegrar em Deus seu salvador. São palavras de Santo Ambrósio: Sit in singulis anima Mariae ut magnificet Dominum, sit in singulis spiritus Mariae ut exultet in Deo. Não julgues que seria mais fácil viver-se no seio de Abraão, chamado paraíso, que no seio de Maria, onde até o Senhor se comprouve edificar o Seu trono. São palavras do sábio padre Guerico: Ne credideris majoris esse felicitatis habitare in sinu Abraha, qui vocabatur paradisus, quam in sina Mariae, in quo Dominus posuit thronum suum.

Esta devoção finalmente praticada, produz na alma uma infinidade de ótimos efeitos, mas o principal é que Maria vem a viver de tal maneira na alma, que já não é a alma que vive, mas é Maria que vive nela e que se torna, por assim dizer, a alma da própria alma. E que maravilha não opera Maria, quando por uma graça verdadeiramente inefável vem a ser a Rainha de uma alma? É a obreira das grandes maravilhas e trabalha sobretudo nos corações, e muitas vezes ás escondidas da própria alma, visto que se esta desse pela conta do que se operava nela, expor-se-ia ao perigo de perder, por causa da vaidade, esta sua beleza.

Maria é a «virgem fecunda» e em todas as almas em que vai viver faz germinar a pureza de coração e de corpo, a retidão das intenções e abundantes obras boas. Não creias, ó alma devota, que Maria, a mais fecunda das criaturas puras que chegou ao ponto de produzir um Deus, permaneça inativa numa alma fiel. Será mesmo ela que fará viver a alma incessantemente para Jesus Cristo, e fará viver Jesus na alma, Filioli mei, quos iterum parturio, donec formetur Christus in vobis (CL 19). Sim, como ao vir ao mundo Jesus quis ser fruto de Maria, assim o é igualmente, para cada alma; e naqueles em que Maria pode mais livremente habitar, vê-se melhor como Jesus é fruto e obra sua.

Em suma, depois de Jesus Cristo, Nossa Senhora é tudo para estas almas: ela aclarar-lhe-á o espírito com a sua humildade, inflamá-lo-á e queimá-lo-á com a sua caridade, purifica-o com a sua pureza, ela nobilita-o e alarga-o com a sua maternidade.

Mas onde vou parar com a pena? Não se podem penetrar estas maravilhas se antes se não experimentarem; são coisas que à pessoa enfunada de ciência e orgulho parecem incríveis, como puras aos devotos e devotas comuns.

 

 

A SANTA ESCRAVIDÃO NOS ÚLTIMOS TEMPOS

 

 

Deus, tendo vindo ao mundo, da primeira vez na humildade e silêncio por meio de Maria, não se poderia afirmar que por meio dela virá também da segunda vez para reinar em todos, como ensina a Igreja, e para julgar os vivos e os mortos? Ninguém sabe como e quando virá; mas bem sei que Deus, cujos desígnios se elevam acima dos nossos, mais que o Céu da Terra, há de vir no tempo e do modo menos suspeitado pelos homens, inclusive os mais versados e competentes na Sagrada Escritura, a qual neste ponto se reveste de misteriosa obscuridade.

Contudo, eu creio também que nos últimos tempos, e talvez mais cedo do que se pense, Deus suscitará grandes homens cheios do Espírito Santo e do Espírito de Maria, por meio dos quais esta divina soberana operará grandes maravilhas sobre a Terra, para destruir o pecado e estabelecer no mundo corrompido o reino de Jesus Cristo seu Filho; é precisamente com esta devoção à Virgem que eu tenho procurado descobrir a passos largos, amesquinhando-a com a minha miséria, estes santos personagens hão-de conseguir tudo.

 

 

PRÁTICAS EXTERIORES DA SANTA ESCRAVIDÃO

 

 

Além da prática interna, esta devoção tem também práticas externas que convém não desprezar nem descuidar.

 

A primeira consiste em oferecer-se num dia especial a Jesus Cristo pelas mãos de Maria, de quem nos tornamos escravos; para tal fim, comungar e passar o dia em oração. Depois é preciso renovar esta consagração ao menos uma vez por ano, no mesmo dia.

 

A segunda consiste em apresentar todos os anos, no mesmo dia, um pequeno tributo à Santíssima Virgem, em reconhecimento da própria sujeição e dependência, tal como costumam fazer os escravos com os seus patrões. Este tributo pode consistir em qualquer mortificação, esmola, peregrinação ou algumas orações especiais. O beato Marino, como nos deixou escrito São Pedro Damião, seu irmão, todos os anos nesse dia se disciplinava publicamente diante de um altar da Virgem. Eu não peço nem aconcelho semelhante fervor; mas dado que não é muito o que oferecemos a Maria, devemos ao menos oferecer-lho com humildade e gratidão.

 

A terceira é a de celebrar todos os anos com particular devoção a festa da Anunciação, que é com dizer a principal solenidade desta devoção escolhida para honrar e imitar a sujeição a que o Verbo Encarnado se entregou por nosso amor.

 

A quarta parte externa consiste em recitar todos os dias (porém sob nenhuma pena de pecado em caso de omissão) a Coroinha da Santíssima Virgem, formada de três Pai-Nossos e doze Avé-Marias; recitar frequentemente o Magnificat, que é o único canto que temos da Virgem para agradecer a

Deus os Seus benefícios e atrair mais; especialmente convém dizê-lo como ação de graças depois da Sagrada Comunhão, como fazia a própria Virgem Santíssima segundo o juízo do pio Gersone.

 

A quinta é a de trazer uma correntezinha benzida ao pescoço, no braço, no pé e à cintura. Absolutamente falando, esta prática também se poderia omitir, sem qualquer dano na parte essencial desta devoção; porém, seria mau desprezá-la ou condená-la, e não sem prejuízo descuidá-la.

Eis algumas razões porque trazemos este sinal exterior:

1.º) Para nos livrar das funestas cadeias do pecado original ou atual que nos trouxe ligados. 

2.º) Para honrar as cordas e os liames amorosos com que Nosso Senhor se deixou prender para nos tornar verdadeiramente livres a nós. 

3.º) Como se trata de liames de caridade, traham eos in vinculis charitatis, servirão para nos lembrar que devemos agir sempre levados por esta virtude. 

4.º) Para nos recordar, enfim, a nossa dependência de Jesus e de Maria na qualidade de escravos, os quais costumam precisamente trazer correntes. Muitos homens célebres que se haviam tornado escravos de Jesus e de Maria sentiam-se honrados em trazer estas correntes e lamentavam não lhes ser permitido arrastá-las publicamente aos pés como os escravos dos turcos.

Ó correntes preciosas! Mais gloriosa que as coleções de ouro e pedras de todos os imperadores da Terra, pois nos ligais a Jesus Cristo e à Mãe Santíssima e nos servis de distintivo e divisa!

Convém que estas correntes, senão puderem ser de prata, sejam de ferro e feitas de maneira a puderem trazer-se comodamente.

 

CULTURA E DESENVOLVIMENTO DA ÁRVORE DA VIDA

OU SEJA, MODO DE FAZER VIVER E REINAR MARIA EM NÓS

 

 

Compreendestes, ó alma predestinada por meio do Espírito Santo, o que te disse até aqui? Então agradece ao Senhor, pois que se trata de um segredo quase completamente desconhecido no mundo. Se tu encontraste o tesouro escondido no campo de Maria, a pedra preciosa de que fala o Evangelho, agora deves vender tudo para o comprar, deves fazer o sacrifício completo de ti mesma entre as mãos de Maria e perder-te alegremente nela para somente lá encontrares Deus.

Se o Espírito Santo plantou no teu coração a verdadeira árvore da vida, que é a devoção que expliquei, põe todo o empenho em cultivá-la, para que a seu tempo dê fruto. Esta devoção é o grão de mostarda do Evangelho que, sendo embora o mais pequeno dos grãos, chega a ser muito grande, tanto assim que as aves do Céu, ou seja, os predestinados, vão fazer os ninhos entre os seus ramos, lá repousam durante os grandes calores e lá encontram refúgio contra as feras.

Eis aqui, ó alma predestinada, a maneira de a cultivares.

 

1.º) Uma vez plantada num coração fiel, esta árvore prefere estar exposta aos ventos, sem qualquer apoio humano. Sendo uma coisa divina, esta árvore não precisa de nenhuma criatura, que lhe poderia impedir estender os ramos para Deus, seu principio. Assim, também ninguém se deve apoiar na própria indústria e capacidade natural, nem no crédito e autoridade dos homens, mas deve recorrer unicamente a Maria e apoiar-se no seu auxílio.

 

2.º) A alma onde esta árvore tomou raízes, como um bom jardineiro, deve guardá-la continuamente porque ela, viva como é, e destinada a produzir frutos de vida, exige que se cultive e faça crescer sob o olhar ou contemplação da alma. Eis o encargo da alma que quer alcançar verdadeiramente a perfeição: que pense nele com frequência de maneira a ser esta a sua principal ocupação.

 

3.º) É preciso arrancar e aniquilar os espinhos e os cardos, que, crescendo, poderiam sufocar esta árvore e impedir-lhe dar fruto... e isto significa que é preciso estar sempre atentos em despedaçar e desprezar com a mortificação e a renúncia de si próprio, todos os prazeres inúteis e vãs ocupações com as criaturas; em outros termos: crucificar a carne, observar o silêncio e mortificar os sentidos.

 

4.º) Providenciar para que os bichos e os parasitas não danifiquem a árvore. Os parasitas que comem as folhas verdes e destroem toda a mais bela esperança de frutos são o amor próprio e o apego ás comodidades, pois amor próprio e amor à Virgem são duas coisas que jamais poderão conciliar.

 

5.º) Não aproximar dela os animais que são os pecados, que, ao seu contacto, poderiam condenar à morte a árvore da vida.

 

6.º) Regá-la com frequência, cumprindo com fervor os exercícios da piedade, confissões, comunhões e outras piedosa práticas públicas e privadas, sem as quais deixaria de dar frutos.

 

7.º) Não é preciso espantar-se se o vento a agita e sacode, porque é necessário que o vendaval das tentações tente arrancá-la, e os nevoeiros e gelos a circundem para a devastarem; quer dizer que esta devoção à Santíssima Virgem será inevitavelmente atacada e contradita, mas bastará ser perseverantes em cultivá-la para nada se recear.

Se tu cultivares assim a árvore da vida agora plantada em ti pelo Espírito Santo, eu asseguro-te, ó alma predestinada, que em pouco tempo crescerá tanto que as aves do Céu virão a povoá-la e alcançará um desenvolvimento tal que a seu tempo não deixará de dar o fruto da graça, ou seja, o amabilíssimo Jesus, que sempre foi e sempre será o único fruto de Maria.

Feliz da alma em que foi plantada a árvore da vida, Maria; mais feliz aquela em que pôde crescer e florir; felicíssima aquela em que pôde dar o seu fruto: mas feliz sobretudo aquela que goza deste fruto e o conserva até à morte e pelos séculos dos séculos. Amen!

Qui tenet, teneat

 

SÃO LUIS MARIA GRIGNION DE MONTFORT

 

Pre-Impressão:

PAULUS EDITORA

 

 

Nascimento da Mãe de Deus

 
Perguntai aos enfermos para que nasce esta Celestial Menina. Dir-vos-ão que nasce para Senhora da Saúde. 
Perguntai aos pobres, dirão que nasce para Senhora dos Remédios. 
Perguntai aos desamparados, dirão que nasce para Senhora do Amparo. 
Perguntai aos desconsolados, dirão que nasce para Senhora da Consolação. 
Perguntai aos tristes, dirão que nasce para Senhora dos Prazeres. 
Perguntai aos desesperados, dirão que nasce para Senhora da Esperança. 
Os cegos dirão que nasce para Senhora da Luz. 
Os discordes: para Senhora da Paz.
Os desencaminhados: para Senhora da Guia. 
Os cativos: para Senhora do Livramento. 
Os cercados: para Senhora da Vitória. 
Dirão os pleiteantes que nasce para Senhora do Bom Despacho. 
Os navegantes: para Senhora da Boa Viagem. 
Os temerosos da sua fortuna: para Senhora do Bom Sucesso. 
Os desconfiados da vida: para Senhora da Boa Morte.
Os pecadores todos: para Senhora da Graça.
E todos os seus devotos: para Senhora da Glória. 
E se todas estas vozes se unirem numa só voz, dirão que nasce para ser Maria e Mãe de Jesus. 
 
Pe. António Vieira in Sermão do Nascimento da Mãe de Deus

 

"Cristo e a sua Mãe são inseparáveis" - Papa Francisco

 
Na homilia da Santa Missa na Solenidade de Maria Santíssima Mãe de Deus, o Papa Francisco sublinhou a união inseparável que existe entre Jesus e Nossa Senhora e também entre Cristo e a Igreja:
 
E, para além de contemplar a face de Deus, podemos também louvá-Lo e glorificá-Lo como os pastores, que regressaram de Belém com um cântico de agradecimento depois de ter visto o Menino e a sua jovem mãe (cf. Lc 2, 16). Estavam juntos, como juntos estiveram no Calvário, porque Cristo e a sua Mãe são inseparáveis: há entre ambos uma relação estreitíssima, como aliás entre cada filho e sua mãe. A carne de Cristo – que é charneira da nossa salvação (Tertuliano) – foi tecida no ventre de Maria (cf.Sal 139/138, 13). Tal inseparabilidade é significada também pelo facto de Maria, escolhida para ser Mãe do Redentor, ter compartilhado intimamente toda a sua missão, permanecendo junto do Filho até ao fim no calvário.
 
Maria está assim tão unida a Jesus, porque recebeu d’Ele o conhecimento do coração, o conhecimento da fé, alimentada pela experiência materna e pela união íntima com o seu Filho. A Virgem Santa é a mulher de fé, que deu lugar a Deus no seu coração, nos seus projectos; é a crente capaz de individuar no dom do Filho a chegada daquela «plenitude do tempo» (Gl 4, 4) na qual Deus, escolhendo o caminho humilde da existência humana, entrou pessoalmente no sulco da história da salvação. Por isso, não se pode compreender Jesus sem a sua Mãe.
 
Igualmente inseparáveis são Cristo e a Igreja, porque a Igreja e Maria caminham sempre juntas, sendo isto exactamente o mistério da mulher na comunidade eclesial, e não se pode compreender a salvação realizada por Jesus sem considerar a maternidade da Igreja. Separar Jesus da Igreja seria querer introduzir uma «dicotomia absurda», como escreveu o Beato Paulo VI(cf. Exort. ap.Evangelii nuntiandi, 16). Não é possível «amar a Cristo, mas sem amar a Igreja, ouvir Cristo mas não a Igreja, ser de Cristo mas fora da Igreja» (Ibid., 16). Na verdade, é precisamente a Igreja, a grande família de Deus, que nos traz Cristo. A nossa fé não é uma doutrina abstracta nem uma filosofia, mas a relação vital e plena com uma pessoa: Jesus Cristo, o Filho unigénito de Deus que Se fez homem, morreu e ressuscitou para nos salvar e que está vivo no meio de nós. Onde podemos encontrá-Lo? Encontramo-Lo na Igreja, na nossa Santa Mãe Igreja hierárquica. É a Igreja que diz hoje: «Eis o Cordeiro de Deus»; é a Igreja que O anuncia; é na Igreja que Jesus continua a realizar os seus gestos de graça que são os sacramentos.
 
Esta acção e missão da Igreja exprimem a sua maternidade. Na verdade, ela é como uma mãe que guarda Jesus com ternura, e O dá a todos com alegria e generosidade. Nenhuma manifestação de Cristo, nem sequer a mais mística, pode jamais ser separada da carne e do sangue da Igreja, da realidade histórica concreta do Corpo de Cristo. Sem a Igreja, Jesus Cristo acaba por ficar reduzido a uma ideia, a uma moral, a um sentimento. Sem a Igreja, a nossa relação com Cristo ficaria à mercê da nossa imaginação, das nossas interpretações, dos nossos humores.
 
Basílica Vaticana, 1º de Janeiro de 2015

 

Maria é a Medianeira de TODAS as graças?

 
Jesus e Maria - o Novo Adão e a Nova Eva
a conceder graças à humanidade
 
Maria é a Medianeira de Todas as Graças? Esta é uma questão de duas partes. Primeiro, Maria é "medianeira"? (o sufixo latino -tor denota o agente masculino e o -trix latino denota o agente feminino - como embaixador e embaixatriz Mediador e Mediatriz [N.T.: no português tradicionalmente usa-se medianeira em vez de mediatriz]) Segundo, se ela é uma medianeira, é medianeira de todas as graças?

Maria é uma medianeira?
Antes de falar sobre este nome, é importante confirmar logo no início que a mediação de Maria não viola as palavras de São Paulo no que toca ao sacerdócio medianeiro de Jesus Cristo, quando escreve:
“Porque só há um Deus, e só há um Mediador entre Deus, e os homens que é Jesus Cristo homem” (1Tim 2, 5)
Cristo é o único mediador entre Deus e os homens porque Ele é totalmente Deus e totalmente homem. Visto que Ele se ofereceu a Si mesmo como um sacrifício perfeito a Deus, só Ele sozinho pode redimir a humanidade do pecado.

No entanto, São Lucas recorda que Santo Simeão profetizou a Maria que também ela iria sofrer com o Seu divino Filho.
“e será esta uma espada que trespassará a tua alma, a fim de serem revelados os pensamentos que muitos terão escondidos nos corações” (Lucas 2, 35).
Os Padres da Igreja identificaram a "espada que trespassará" a alma de Maria como o momento em que Maria viu o seu Filho morrer na cruz, e ainda mais quando pegou nos braços o Seu corpo frio e sem vida.

A sua presença silenciosa e materna, em conjunto com o sacrifício do sumo sacerdócio de Cristo, envolve-a no sacrifício de Cristo de uma maneira única. Considerem isto: o Filho de Deus adquiriu a Sua carne e sangue a partir da carne e do sangue dela. Jesus pôde morrer por nós porque ela Lhe deu um corpo.

Jesus e Maria na cruz são o Adão e a Eva redemptores. Eva uma vez olhou para uma árvore para obter o fruto contra a lei. Agora Maria, como a Nova Eva, olha para a árvore onde está "o fruto do Seu ventre". Ela não clama pelos direitos deste Fruto, mas oferece-O com toda a vontade ao Pai. O Novo Adão está suspenso na madeira por cada pecador. A Nova Eva fica lá em tristeza.

A mediação de Maria é baseada na sua íntima união e consentimento à Paixão e Morte de Cristo. Mais ainda, encontramos na Escritura que Jesus vem ao mundo através de Maria, literalmente. Sta. Isabel e o seu bébé, S. João Baptista, enchem-se do Espírito Santo quando Sta. Isabel ouve a voz de Maria. Jesus faz o Seu primeiro milagre em Caná sob o pedido de Maria. E mais, Maria está presente no Pentecostes, quando o Espírito Santo desce sobre o Apóstolos. Tal como a voz de Maria foi o instrumento que levou a graça a Sta. Isabel, também Maria é o instrumento pessoal pelo qual as graças fluem de Cristo para nós. S. Bernardo de Claraval chamava-lhe "aqueduto de graça".

A Festa Litúrgica: Medianeira de Todas as Graças
Em 1921, o Papa Bento XV, respondendo a petições de bispos da Bélgica, estabeleceu o dia da festa anual de "Maria Medianeira de Todas as Graças". Esta festa foi incluída no Missale Romanum sob o título "Omnium Gratiarum Mediatricis" para a data de 31 de Maio. Se tiverem um Missal em Latim pré-conciliar, normalmente conseguem encontrá-la lá (procurem a Missae pro aliquibus locis). Dois dos meus missais incluem a festa.
 
A primeira leitura para esta festa é Isaías 55, 1-5 e o Gradual é a famosa passagem de Eclesiástico: "Eu sou a mãe do amor formoso, do temor, da ciência e da santa esperança. Em mim está toda a graça do caminho e da verdade, em mim está toda a esperança de vida e de virtude.” (Sir 24, 24-25) A leitura do Evangelho para a festa são os acontecimentos da paixão mariana de João 19, 25-27.
 
A inclusão por Bento XV de uma festa para "Maria Medianeira de Todas as Graças" tornou a doutrina popular. Quando começou o Concílio Vaticano Segundo (1962), havia uma pressão entre os bispos para declarar formalmente a Santíssima Virgem Maria como "Medianeira de Todas as Graças". Esta tentativa acabou por ser reformulada e ela acabou por ser declarada como "Mãe da Igreja", um título mais suave, mas também bonito. Foi preferido "Mãe da Igreja"  visto que definia a verdade de uma forma mais eclesial.
 
Podem encontrar esta definição de "Mãe da Igreja" no Capítulo 8 da Lumen Gentium. Ainda assim, a Lumen Gentium 8 acaba por referir-se a Maria Imaculada como "advogada, auxiliadora, socorro, medianeira". Notavelmente, o qualificador "de Todas as Graças" não foi incluído no texto final da Lumen Gentium, apesar de ter sido proposto.
 
Será que o Papa Bento XV foi longe demais?
Portanto, é matéria de fé que a nossa Santíssima Mãe é uma "Medianeira"... mas será ela a "Medianeira de Todas as Graças"? A maior parte dos Católicos não têm problema com o título "Medianeira", no entanto eu reparo que alguns Católicos vacilam quando ouvem "Medianeira de Todas as Graças." O Papa Bento XV foi longe demais ao adicionar "de Todas as Graças"?
 
O título completo a incluir "todas as graças" é controverso. Alguns protestam que Maria não poderia nunca ser a medianeira de todas as graças no Antigo Testamento, visto que ainda não existia. Mais ainda, podia ela ser a medianeira de todas as graças enquanto ainda estava na terra? Será que ela só ficou medianeira de todas as graças depois do Pentecostes ou, talvez, apenas depois da sua gloriosa Assunção? E ainda assim, será que ela é medianeira  tanto das graças actuais como da graça sacramental? Isto é, as graças do baptismo e da Sagrada Eucaristia passam pelas mãos dela?
 
 
Duas questões difíceis relacionadas com "de todas as graças"
Estas perguntas, essencialmente, levantam duas questões difíceis:
1) Quando é que Maria se tornou a medianeira de todas as graças. Desde sempre? Na Imaculada Conceição? Na Crucifixão? No Pentecostes? Na Assunção?
2) Quando dizemos "todas as graças" queremos dizer "cada graça" ou "todos os tipos de graça" ou "todos os tipos de graça actual"?
Vou revelar a minha posição logo de início. Eu sou pela posição extrema. Insisto que ela é a medianeira de cada graça que alguma vez foi dada à humanidade, de Adão até ao último instante de tempo. É verdade que ela ainda não existia, no entanto ela é a medianeira de todas essas graças.
 
 
O Novo Adão como Mediador. A Nova Eva como Medianeira.
Como é que se pode dizer tal coisa? O argumento depende da antiga reputação de Nossa Senhora como a Nova Eva e da reputação de Cristo como Novo Adão. Cada graça é absolutamente mediada através de Cristo, visto que ele é totalmente Deus e totalmente homem. Ele é necessariamente e absolutamente o mediador da humanidade. No entanto, Ele medeia esta graça para a humanidade por virtude da Sua Encarnação e da Sua morte e através do Espírito Santo.
 
Já Maria, como Nova Eva, foi o instrumento da Encarnação e tinha o papel primário na Crucifixão e na descida do Espírito Santo no Pentecostes. Descobrimos assim que a Escritura a liga com estes três momentos da mediação absoluta de Cristo.
 
Sabemos também que todas as graças do Antigo Testamento foram mediadas em antecipação da Encarnação e Morte de Cristo. Visto que a carne de Maria e a sua cooperação são necessárias para a Encarnação e Morte de Cristo, estas graças também são mediadas com o seu papel em mente. É por isso que o Papa Pio IX diz que o decreto da predestinação de Cristo é um só com o de Maria.
 
Ou seja, as graças do Antigo Testamento foram mediadas à luz dela, ainda que não directamente concedidas por ela. Aqui distinguimos o termo "mediar" do termo "conceder". Maria Imaculada tem sido sempre a Medianeira de Todas as Graças, mas tornou-se Dispenseira de Todas as Graças na sua gloriosa Assunção.
 
Ainda se podia tomar uma opção mais extrema e dizer que Maria se tornou a Dispenseira de cada graça a partir do momento da sua Imaculada Concepção. Isto iria precisar que desde o seu primeiro momento ela teve uma enorme infusão de conhecimento mesmo ainda na barriga de Santa Ana. Eu não tenho bem a certeza de que isto tenha acontecido, no entanto não culparia ninguém que pensasse assim. Parece que Santo Afonso Maria de Ligório possa ter tido esta posição, no entanto não consigo perceber bem (ficaria agradecido se algum afonsista me ajudasse neste ponto.)
 
E no que toca à Escritura?
Sabemos que a santificação e confirmação na graça de São João Baptista enquanto ainda estava na barriga de sua mãe aconteceu através da mediação da voz de Maria. “Porque assim que chegou a voz da tua saudação aos meus ouvidos, logo o Menino deu saltos de alegria no meu ventre.” (Lucas 1, 44)
 
Tanto as liturgias gregas como as latinas aplicam Eclesiástico 24 como a profecia da Santíssima Virgem Maria. A passagem diz "Eu sou a mãe do amor formoso, do temor, da ciência e da santa esperança. Em mim está toda a graça do caminho e da verdade, em mim está toda a esperança de vida e de virtude.” (Sir 24, 24–25) Maria é a "Mãe do Amor Formoso" e nela "está toda a graça." Portanto, aqui está uma profecia do Antigo Testamento sobre o título de Maria como Medianeira de Todas as Graças.
 
Como se disse acima, a presença de Nossa Senhora na Concepção, Natividade, Vida, Morte e Ascensão do Senhor e depois Pentecostes revelam o seu cargo de mediação abaixo de Cristo.
 
Maria medeia a Graça Sacramental?
No que toca à graça sacramental, Santo Cirilo de Alexandria, quando falava aos Padres do Concílio de Éfeso (AD 431) disse que a graça do baptismo, confirmação e sagradas ordens chegam à Igreja através de Maria.
 
Pensem simplesmente nos sete sacramentos e vão ver que isto faz sentido:
  1. Baptismo remove a mancha de Eva (Maria é a Nova Eva), dá-nos o Espírito Santo (o Esposo de Maria) e une-nos à morte e ressureição de Cristo (Maria medeia sob a cruz)
  2. Confirmação é o sacramento que confere a graça do Pentecostes a cada um de nós. Maria é a Esposa do Espírito e estava presente no Pentecostes.
  3. Sagrada Eucaristia é o Corpo e Sangue de Cristo. Esta carne e sangue do Logos Eterno vieram do ventre da Santíssima Virgem Maria. Não há Mãe humana? Não há Corpo e Sangue.
  4. Penitência é a aplicação do mérito e sangue de Cristo ao pecador. A presença mediadora de Maria sob a Cruz confirma o seu papel neste sacramento.
  5. Extrema Unção é o sacramento que prepara o fiel para a morte. Cristo deu a Maria domínio sobre a "hora da morte" e sobre o Purgatório devido ao seu desejo de morrer uma morte humana, mesmo tendo permanecido sem pecado. Ela queria morrer para se identificar mais perfeitamente com Cristo. Isto também é previsto por Ben Sirá: “Penetrarei em todas as partes da terra, visitarei todos aqueles que dormem, iluminarei todos os que confiam no Senhor. ” (Sir 24, 45)
  6. As Sagradas Ordens são o mistério do sacerdócio e Cristo tornou-se o Sumo Sacerdote da Humanidade por virtude da Sua Encarnação. No entanto, Maria era absolutamente necessária para a Sua chegada à natureza humana. Não havia Mãe? Não havia Encarnação? Mais uma vez, a presença de Maria na Cruz confirma o seu papel aqui, visto que Cristo exerceu manifestamente o Seu sacerdócio na Cruz.
  7. Santo Matrimónio foi elevado à dignidade de sacramento nas Bodas de Caná. O milagre de Cristo e a bênção nas Bodas de Caná ocorrem por mediação directa de Maria. Assim, também ela é medianeira da graça sacramental do Santo Matrimónio.
Portanto, é fácil ver que a Escritura liga Maria a todos os sete sacramentos. Enquanto que alguns se opõem à posição de que Maria é a medianeira da graça sacramental, eu vejo todas as razões para afirmar que ela é a medianeira da graça sacramental.

Em suma, confirmámos o seguinte:
  1. A mediação de Maria não entra em conflito com a mediação de Cristo, mas é a forma mais alta de sub-mediação abaixo de Cristo. Ela é o aqueduto que traz a graça e méritos infinitos de Cristo.
  2. O Papa Bento XV instituiu a festa litúrgica de Maria, Medianeira de Todas as Graças.
  3. A mediação universal de Maria está vinculada pelo seu nome de Nova Eva. Cristo é o Novo Adão e o seu trabalho redentor é universal. Consequentemente, a sub-mediação de Maria é universal.
  4. Todas as graças, mesmo aquelas do Antigo Testamento são mediadas através do ministério do Novo Adão e da Nova Eva. Apesar de Maria ainda não existir, as graças antes do Novo Testamento foram dadas em expectativa de um Novo Adão e de uma nova Eva - Jesus e Maria.
  5. Mesmo as graças sacramentais são mediadas e aplicadas por Maria Imaculada. A Sagrada Escritura mostra que as graças e dons associados a cada sacramento (ex: o derrame do Espírito Santo na Confirmação) foram conquistados através de Maria (ex: quando Isabel e João Baptista se encheram com o Espírito Santo).

O Papa Bento e o título mariano "Medianeira de Todas as Graças"

 
 
Fala-se da hipótese do Papa Bento XVI ter recebido uma locução especial ou aparição de Nossa Senhora sobre a Igreja Católica e que lhe deu permissão explícita para renunciar à Santa Sé.
 
No dia em que Sua Santidade anunciou a sua renúncia, o Papa referiu-se publicamente a Maria como a "Medianeira de Todas as Graças." O Papa Bento confiou a missão do Pontifício Conselho para a Pastoral no Campo da Saúde "à intercessão da Santíssima Virgem Maria Imaculada, Medianeira de todas as graças" (Mediatricis omnium gratiarum).
 
Muitas outras fontes e blogs sublinharam este facto pois assinala algo novo no pensamento do Papa Bento. O Papa João Paulo II usava com frequência o título "Medianeira de Todas as Graças". No entanto, o Papa Bento tinha estado renitente até agora.
 
Não é segredo nenhum que o jovem Padre Joseph Ratzinger no Concílio Vaticano II se opunha abertamente ao termo "Medianeira de Todas as Graças", preferindo em vez disso apenas "Medianeira". Parece agora que o Santo Padre inverteu o sentido e fez de "Medianeira de Todas as Graças" parte do seu vocabulário Papal. 

Este é um acontecimento importante na vida da Igreja Católica. São Luís de Montfort disse que todos os santos das épocas posteriores seriam profundamente marianos. Maria é o canal de toda a graça e santidade.

Perguntas: O Papa Bento XVI traçou o caminho para a futura proclamação do Quinto Dogma Mariano ("Medianeira de Todas as Graças")? Será que o uso do título mariano por Sua Santidade indica uma devoção ainda mais profunda a Nossa Senhora? O que aconteceria à nossa era se um Papa declarasse um Quinto Dogma Mariano? 

Taylor Marshall
 
 
 

 

Escondida por humildade: nem os Anjos conheciam Maria

 
 
Maria manteve-se muito escondida durante toda a sua vida; por isso o Espírito Santo e a Igreja chamaram-lhe «Alma Mater»: Mãe escondida e secreta. A sua humildade foi tão profunda, que na Terra nada a seduziu mais poderosa ou mais continuamente do que esconder-se de si própria e de todas as criaturas, para que só Deus a conhecesse. 
 
Aprouve a Deus, atendendo aos seus pedidos de ocultação, empobrecimento e humildade, esconder a sua concepção, o seu nascimento, a sua vida, os seus mistérios, a sua ressurreição e a sua assunção aos olhos de quase toda a criatura humana. Nem os seus pais a conheciam; e os anjos perguntavam muitas vezes entre si: «Quae est ista? Quem é esta?» (Ct 6,10), porque o Altíssimo a ocultava; ou, se lhes mostrava alguma coisa, escondia-lhes infinitamente mais.
 
Que coisas grandes e escondidas fez este Deus poderoso nesta Criatura admirável, como ela própria foi obrigada a reconhecer, apesar da sua profunda humildade: «O Todo-Poderoso fez em mim maravilhas». O mundo não as conhece, porque é incapaz e indigno.
 
S. Luis Maria Grignion de Monfort in Tratado da verdadeira devoção à Virgem Maria, 1-6

 

Os verdadeiros cristãos são os filhos da Igreja e da Virgem Maria

 
Há duas frases tradicionais que sintetizam de maneira admirável a necessidade da Fé Católica para agradar a Deus, entre as quais há uma bonita relação de paralelismo que faz com que, uma vez que as tenhamos aprendido (talvez, numa catequese infantil), delas não nos esqueçamos mais. Uma: não pode ter Deus por Pai no Céu quem não tem a Igreja por Mãe na Terra, de São Cipriano de Cartago (De Ecclesiae Catholicae unitate6). A outra: quem não tem a Virgem Maria por Mãe, não tem Deus por Pai, de (certamente entre outros) S. Louis de Montfort (Tratado da Verdadeira Devoção30).
 
A Virgem Mãe de Deus e a Igreja, longe das quais não é possível encontrar a Nosso Senhor Jesus Cristo! A Igreja Católica e a Santíssima Virgem, cuja maternidade é essencial àqueles que se pretendam filhos de Deus neste mundo e no vindouro! As frases podem soar um pouco politicamente incorretas nesta época de caricata tolerância religiosa em que vivemos (como se “tolerância” fosse sinônimo de dizer “está tudo muito bem e qualquer coisa é a mesma coisa”); não obstante, são profundamente verdadeiras e atravessam os séculos com o mesmo vigor original – uma vez que obtêm a sua força do sagradoDepositum Fidei, que não muda ao sabor dos ventos de opiniões de cada momento histórico.
 
Quem quer ser filho de Deus tem que ser filho da Igreja, quem quer ser filho de Deus precisa ser filho da Virgem Maria: é o que dizem os santos de todos os tempos. Trata-se, perceba-se, de uma forma indireta de repetir o dogma – mil-vezes odiado! – de que fora da Igreja não há salvação. É a mesma coisa: dizer que é preciso ser filho da Igreja e filho da Virgem Santíssima é o perfeito equivalente (*) de dizer que é necessário ser Católico Apostólico Romano. Hoje parece ser um pecado imperdoável repetir que fora da Igreja Católica não é possível encontrar salvação. Contudo, parece que o mundo ainda se permite ouvir que é mister ser filho da Igreja e da Virgem Maria.
 
[(*) A primeira parte – filho da Igreja – exclui, sem sombra de dúvidas, todos os não-cristãos. A Igreja, mesmo em sentido lato, é uma instituição cristã por essência e sequer se concebe usar o mesmo termo para se referir às (eventuais) estruturas institucionais de religiões outras que o Cristianismo. A segunda parte – filho de Maria – exclui, inequivocamente, os protestantes, ao menos a imensíssima maior parte dos protestantes que desconhecem a veneração dos santos – e, em particular, o culto de hiperdulia que é devido à Santíssima Virgem Mãe de Deus. Sobram, talvez, expandindo a interpretação, os cismáticos orientais, que perfazem Igrejas Particulares e guardam a veneração devida à SSma Virgem. Este sentido é, parece-me, o único em que talvez seja possível afirmar imperfeita a equivalência entre as duas sentenças e o nulla salus. Mesmo assim, elas abarcam a esmagadora maior parte daquilo a que se refere o dogma – e, portanto, dizê-las é já dizer muito.]
 
Onde ressoam, ainda hoje, essas expressões [que se diriam] tão anacrônicas?! De que obscuro gueto saem essas pregações [consideradas] tão intolerantes? Não é [somente] na blogosfera ultra-radical ou nas seitas cripto-cismáticas dos saudosistas dos tempos passados. Essas palavras reverberam na Praça de São Pedro e, de lá, para todo o orbe. Quem as pronuncia é o homem que sempre se encontra nas capas dos veículos de imprensa mundo afora. É o Papa Francisco – o Papa mais amado e bajulado pelos inimigos da Igreja de todos os naipes – quem o afirma com todas as letras: é preciso ser filho de Maria! Não existe Cristo sem a Igreja!
 
Deixemos falar o Papa Francisco (itálicos no original, negritos meus):
E, para além de contemplar a face de Deus, podemos também louvá-Lo e glorificá-Lo como os pastores, que regressaram de Belém com um cântico de agradecimento depois de ter visto o Menino e a sua jovem mãe (cf. Lc 2, 16). Estavam juntos, como juntos estiveram no Calvário, porque Cristo e a sua Mãe são inseparáveis: há entre ambos uma relação estreitíssima, como aliás entre cada filho e sua mãe. A carne de Cristo – que é charneira da nossa salvação (Tertuliano) – foi tecida no ventre de Maria (cf. Sal 139/138, 13). Tal inseparabilidade é significada também pelo facto de Maria, escolhida para ser Mãe do Redentor, ter compartilhado intimamente toda a sua missão, permanecendo junto do Filho até ao fim no calvário. 
Maria está assim tão unida a Jesus, porque recebeu d’Ele o conhecimento do coração, o conhecimento da fé, alimentada pela experiência materna e pela união íntima com o seu Filho. A Virgem Santa é a mulher de fé, que deu lugar a Deus no seu coração, nos seus projectos; é a crente capaz de individuar no dom do Filho a chegada daquela «plenitude do tempo» (Gl 4, 4) na qual Deus, escolhendo o caminho humilde da existência humana, entrou pessoalmente no sulco da história da salvação. Por isso, não se pode compreender Jesus sem a sua Mãe. 
Igualmente inseparáveis são Cristo e a Igreja, porque a Igreja e Maria caminham sempre juntas, sendo isto exactamente o mistério da mulher na comunidade eclesial, e não se pode compreender a salvação realizada por Jesus sem considerar a maternidade da Igreja. Separar Jesus da Igreja seria querer introduzir uma «dicotomia absurda», como escreveu o Beato Paulo VI (cf. Exort. ap. Evangelii nuntiandi, 16). Não é possível «amar a Cristo, mas sem amar a Igreja, ouvir Cristo mas não a Igreja, ser de Cristo mas fora da Igreja» (Ibid., 16). Na verdade, é precisamente a Igreja, a grande família de Deus, que nos traz Cristo. A nossa fé não é uma doutrina abstracta nem uma filosofia, mas a relação vital e plena com uma pessoa: Jesus Cristo, o Filho unigénito de Deus que Se fez homem, morreu e ressuscitou para nos salvar e que está vivo no meio de nós. Onde podemos encontrá-Lo? Encontramo-Lo na Igreja, na nossa Santa Mãe Igreja hierárquica. É a Igreja que diz hoje: «Eis o Cordeiro de Deus»; é a Igreja que O anuncia; é na Igreja que Jesus continua a realizar os seus gestos de graça que são os sacramentos. 
Esta acção e missão da Igreja exprimem a sua maternidade. Na verdade, ela é como uma mãe que guarda Jesus com ternura, e O dá a todos com alegria e generosidade. Nenhuma manifestação de Cristo, nem sequer a mais mística, pode jamais ser separada da carne e do sangue da Igreja, da realidade histórica concreta do Corpo de Cristo. Sem a Igreja, Jesus Cristo acaba por ficar reduzido a uma ideia, a uma moral, a um sentimento. Sem a Igreja, a nossa relação com Cristo ficaria à mercê da nossa imaginação, das nossas interpretações, dos nossos humores.
Papa Francisco, HOMILIA.
in Solenidade de Maria Santíssima Mãe de Deus
1º de janeiro de 2015.
A Igreja Católica é a fiel depositária de um determinado conjunto de verdades imutáveis, as quais tem o mandato divino de anunciar ao mundo como as recebeu de Cristo – sem as aumentar nem as diminuir. Os dogmas não ficam nunca “ultrapassados”, a Doutrina Cristã não “deixa de valer” jamais. E o Papa – qualquer que seja o Papa! – é o guardião da Fé. Não deveria ser estranho que o Vigário de Cristo agisse como Vigário de Cristo. Nestes tempos que correm, no entanto, e como há um evidente empenho em sequestrar o Papa Francisco, é importante registrar e documentar com bastante cuidado: o Papa Francisco é Papa católico. E, por mais que o desejem os anti-clericais, ele não pode ser outra coisa. Não gostam de ouvir o Pontífice Argentino falar? Que ouçam, portanto, o que fala o Papa Francisco! Que o ouçam e, ouvindo-o, se convertam. Pois – Franciscus dixit! – não é possível separar Cristo de Sua Mãe Santíssima. Porque – Bergoglio garante! – não se encontra a Cristo fora da Igreja Católica e Apostólica.
 
Que a SSma. Virgem, Aquela «que deu uma face humana ao Verbo eterno, para que todos nós O pudéssemos contemplar» (Papa Franciscoid. ibid.), rogue pela Igreja, pelo Papa Francisco e por todos nós. Que Ela, de novo e mais uma vez, nos traga o Seu Divino Filho, diante do qual as Trevas não podem subsistir. Que Ela nos possa sempre valer, em meio às tentações desta vida conturbada. Que nos livre, sempre, das ciladas que o Maligno nos arma nestes dias difíceis em que vivemos.
 
Jorge Ferraz in Deus lo vult