FONTES DE ESCRÚPULOS, E CONSELHOS PARA AFASTÁ-LOS (Carta 256)
"Minha senhora, não se pode estar mais sensiblizado do que o estou eu sobre o
que lhe diz respeito. Na nossa conversa, pareceu-me que os seus escrúpulos a retardaram e secaram um pouco. Eles lhe fariam danos irreparáveis se a Sra os escutasse; isso é uma verdadeira Infidelidade. A Sra. tem a luz para deixà-los cair, e, se faltar a isto, contristará na sua pessoa o Espirito Santo. ".Onde está o espirito de Deus, ai está a liberdade" (2 Cor 3, 17) . Onde está o constrangimento, a perturbação e a servidão, ai está o espirito próprio e um amor excessivo de si. Oh como o perfeito amor é afastado dessas Inquietações! não se ama lá muito o BemAmado quando se está tão ocupado das suas próprias delicadezas. As suas penas, minha senhora, só vieram de infidelidade.
Se a Sra. não houvesse resistido a Deus para escutar a si mesma, não teria sofrido tanto; nada custa tanto quanto essas procuras de um alivio imaginário.
Assim como um hidrópico, bebendo, aumenta a sua sede, assim também, escutando os seus escrúpulos, um escrupuloso aumenta-os, e bem o merece. O único remédio é fazer-se ele calar e volver-se para Deus. E a oração, e não a confissão, que nesse caso cura o coração. Trabalhe, pois,
para reparar o tempo perdido; porquanto, francamente,. acho-a um pouco decalda e
debilitada: mas essa debilitação redundará em proveito; porquanto a experiência
da privação, da provação e da sua fraqueza trará consigo a sua luz, e Impedila-á de se apegar demasiadamente aquilo que o estado de paz e de abundância tem de doce e de luminoso. Coragem, pois: seja simples; a Sra. não o é bastante, e é isto o que muitas vezes a impede de dizer tudo e de perguntar.
"Quanto a mim, estou numa paz seca, escura, lânguida; sem aborrecimento, sem prazer, sem pensamento de ter jamais algum; sem nenhuma visão de futuro neste mundo, com um presente lnsípido e não raro espinhoso, com um não sei quê que me leva, que me abranda cada cruz, que
me contenta sem gosto. E' um arrastamento diário; Isso tem assim um ar de divertimento por leviandade de espirito e por indolência; vejo tudo o que trago comigo, mas o mundo me parece como que uma má comédia que vai desaparecer dentro em algumas horas.
Desprezo-me ainda mais do que desprezo o mundo: tomo tudo pelo pior; e no fundo desse pior para
todas as coisas deste mundo é que eu acho a paz. Parece-me que Deus me trata
brandamente de mais, e envergonho-me de ser tão poupado; mas estes pensamentos não me vêm com frequência, e a maneira mais frequente de receber as minhas cruzes é deixá-las vir e passar, sem me ocupar com elas voluntàriamente. É como um criado indiferente, que a gente vê
entrar e sair do quarto sem nada lhe dizer.
De resto, não quero querer senão só Deus para mim, e também para a Sra.; que é
que há-de bastar àquele a quem o verdadeiro amor não basta?"
MAL QUE TAZEM OS ESCRÚPULOS (CARTA 257)
"Tenho sempre no coração, para a Sra. estas palavras: "Assim como a água extingue o fogo, o escrúpulo extingue a oração". Não se escute a si mesma sobre os seus escrúpulos, e ficará. em paz.
Há duas coisas que devem tirar-lhe todo receio: uma é a experiência da sua vivacidade,
da sua subtileza, dos seus rodeios engenhosos para se perturbar a si mesma a respeito de nadas. Muitas vezes tem-no a Sra. reconhecido, todos os seus diretores e confessores lho têm unânimamente declarado: era uma tentação reconhecida como tal antes que a Sra. fizesse oração. Nem por isto deve a Sra. deixar de enxotar os seus escrúpulos como tentações antigas, às
quais desde todo tempo lhe foi ordenado não mais dar ouvidos. A oração não faz
que os seus antigos diretores hajam regulado mal o que regularam Independentemente de toda oração e sendo uniformes sobre isso que regularam.
A segunda coisa que deve tranquiliza-la é o prejulzo que lhe advém desses escrúpulos. Todas as vezes que, contra a obediência e contra o seu atrativo interior, a Sra. quiser entrar nesses exames tantas vezes condenados pelos seus diretores, a Sra. se distrai, se perturba, se afasta da oração, e
por conseguinte de Deus; torna a entrar em si mesma, torna a cair no seu natural; desperta as suas vivacidades, as suas delicadezas e os seus outros defeitos; quase que não fica mais ocupada senão de si.
Na verdade, tudo isso é de Deus? Acaso é seguindo o atrativo da sua graça que a gente se afasta tanto d'Ele? Na minha volta, achei-a tão decalda, e tão prestes a dissipar-se inteiramente, que já quase não a reconhecia mais. Será isso obra de Deus? reconhece a Sra. aí a mão d´Ele?
acaso o amor afasta de amar? Aliás, na vida simples e regular que a Sra. leva desde que faz oração ainda mais do que antes, só pode repassar na sua mente nonadas por vários anos. E não seria a Sra.
bem culpada diante de Deus se se afastasse da sociedade familiar na oração, por causa da procura inquieta de todas essas nonadas que a Sra. avoluma na sua imaginação? Tomo-as todas pelo pior, e suponho-as verdadeiros pecados; ao menos, só podem elas ser pecados veniais, dos quais
é preciso humilhar-se e trabalhar fortemente por se corrigir, mas que o fervor do amor na oração apaga prontamente.
Mas a Sra. deveria voltar a sua delicadeza escrupulosa principalmente contra os seus
próprios escrúpulos, Será que, a pretexto de rebuscar as mais leves faltas, é licito perturbar-se, fazer estancar a graça da oração, e fazer a si mesma tantos grandes males para subtilizar outros pequenos?
Não é para o tempo presente que eu lhe digo todas estas coisas, a Sra. não precisa delas agora; mas a necessidade delas pode voltar. O escrúpulo é uma ilusão para mal, como a falsa oração é uma ilusão para bem. Quanto à oração que põe em paz, que nutre o coração, que desapega, que humilha, que só cessa quando se cai no escrúpulo, e que não se pode deixar senão se afastando do amor, essa só boa pode ser. Não pode haver nenhuma ilusão em crer sem ver, em amar sem se apegar
àquilo que se sente, em receber simplesmente sem se deter naquilo que se recebe,
em renunciar a toda imaginação, ao próprio senso e à própria vontade ...
"Mantenha-se firme, minha senhora, quanto às suas comunhões; as consciências escrupulosas precisam ser impelidas para além dos seus limites, como os cavalos ariscos e manhosos. Quanto mais a Sra. hesitar nos seus escrúpulos, tanto mais os alimentará secretamente; é preciso ralhar com eles para curá-los. Quanto mais a Sra. os vencer, tanto mais em paz ficará. Passando além, achará não sómente uma paz verdadeira, mas ainda uma paz luminosa, que lhe trará um profundo
discernimento sobre a armadilha dos seus escrúpulos, e que será seguida de frutos
sólidos. Eis ai o sinal de que uma conduta é de Deus. Nada é tão contrário à simplicidade como o escrúpulo: ele esconde um não sei quê de duplice e de falso, a pessoa acredita só estar em aflição por delicadeza de amor a Deus, mas, no fundo, está inquieta é por si mesma, e está ciosa
da sua própria perfeição por um apego natural a si. Engana-se para se atormentar, e para se distrair de Deus sob pretexto de precaução".
VENCER OS ECRUPULOS DESCONFIANDO DA
PRÓPRIA IMAGINAÇÃO (CARTA 274)
"Bem longe, minha senhora, que eu esteja ressabiado. Lamento-a, e não penso
em ralhar com a Senhora. Não tenho outras penas senão as de não curar as suas;
mas quisera que a Sra. fosse fiel em fazer aquilo que me parece que Deus pede da
Senhora. As coisas que a Sra. se censura e das quais diz que tem horror, não passam
de fatos sem malignidade, e sem nenhuma consequência para o próximo que a
Sra. diz em conversação. Na verdade, há nisso com que se perturbar?
Essas bagatelas excitam os seus escrúpulos; os seus
escrúpulos excitados perturbam a sua razão, afastam-na de Deus, secam-na, dissipam-na, despertam-lhe os gostos naturais e põem-na em tentação contra a sua graça.
Veja o quanto o remédio é pior do que o mal. O mal é meramente imaginário, o
remédio é um mal real. "Não me admiro de que a sua imaginação demasiado viva, e um hábito de se
deixar levar demasiadamente às suas reflexões, hábito que não foi bastante reprimido, lhe causem aflição; mas seria tempo de vencer esses obstâculos que a detêm na trilha de Deus. Ao menos, deve
a Sra. desconfiar da sua imaginação, sentir o mal que ela lhe faz, reconhecer o quanto ela a ocupa com bagatelas e lhe subtrai a visão de maiores coisas! Enfim, ser dócil, e ficar firme na prática dos
conselhos que lhe são dados. Longe de abandoná-la, persegui-la-ei sem trégua; não desanimo por todos os seus escrupulos, não desanime a Sra. de vencê-los: é de todo meu coração que lhe suplico comungar amanhã sem se confessar. A Sra. faltará para com Deus se não fizer isto que eu lhe peço em Nome d'Ele e pelo amor d'Ele".
OBEDIÊNCIA SIMPLES E CEGA, VERDADEIRO REMÉDIO CONTRA OS ESCRÚPULOS. (CARTA 27)
"Não faço, minha senhora, nenhum agradecimento nem à Sra. nem à Sra. Condessa de ... , pois haveria muito que fazer com isso, e não estou bem preparado para esta função.
"Venhamos à Sra., de quem estou muito penalizado. A Sra. se consome de mil maneiras que são todas contrárias a Deus, contrárias como são à obediência. A Sra. tira a si mesma consolações que Deus não lhe tira; é tão perigoso tirar a si mesmo aquilo que Ele não tire., como se dar aquilo que Ele não dá.. Aliás, o escrúpulo devora-a, e é esse escrúpulo que não lhe deixa nem alegria, nem repouso, nem alivio, nem respiração. Ao mesmo tempo, ele lança-a em confissões perpétuas de bagatelas, que elevem quebrar a cabeça à Sra. e ao seu confessor. Só a obediência poderia remediar um mal tão urgente; porém ela lhe falta, e confesso que me escandalizo com isto. Se a Sra. fosse simples, obedeceria sem raciocinar e sem se escutar a si mesma: as verdadeiras crianças se calam e
fazem o que se lhes diz; o .amor verdadeiro não sabe o que é hesitar na obediência. Grande desdita é sofrer por infidelidade. Aquilo que mina a sua saúde minará todo o seu interior, e reduzi-la-á a
uma certa vivacidade de imaginação sobre o amor, sem nenhuma docilidade.
Quanto a mim, sofro de ver o que a Sra. sofre contra a ordem de Deus. Não cogito de entrar na sua conduta, nem mesmo de ficar unido à Srà. se a Sra. não me prometer as coisas seguintes:
1.o A Sra. fará tudo quanto lhe disserem para aumentar o seu sono e a sua comida, a fim de tornar a entrar, a este respeito, no primeiro estado da sua saúde;
2.o Seguirá a regra do reverendo Padre para as suas confissões;
3. Buscará com simplicidade as consolações e os alivios de espirito que lhe
convêm.
"Peço sobre isto uma resposta pronta e decisiva. Deus sabe o dó que a Sra. me causa.
"A Sra. desobedece, e em seguida não fala mais, porque teme que a reconduzam do seu extravio, e porque não quer ser corrigida. A docilidade seria o remédio de todos os seus males; a indocilidade torna todos os remédios inúteis; assim a gente está sempre a recomeçar. A Sra. tem como que uma venda que lhe cobre os olhos, e não vê o quanto deveria ser escrupulosa sobre os seus vãos escrúpulos enquanto se endurece sobre as desobediências mais contrárias ao espirito de Deus. Ja é alguma coisa que, de boa fé, a Sra. reconheça e confesse o seu erro sobre a diminuição
do sono e dos alimentos; porém recairá em breve nisso se continuar a escutar os
seus escrúpulos que a róem, e a fazer confissões que a exaurem. Volto, pois ás regras do Reverendo Padre, e peço absolutamente, como condição essencial, que as observe, e que volva todos os seus escrúpulos para este lado.
"Rogo a Nosso Senhor que a faça superar tudo aquilo que a afasta d'Ele. Desde o momento que a Sra. voltar atrás sobre isso, sentirá a necessidade de comungar e ficará faminta. Desde que a doença
cessa, a necessidade de alimento faz-se sentir".
NÃO MUDAR DE CONFESSOR POR ESCRUPULO (CARTA 439)
"Quando a Sra. quiser me deixar, minha cara filha, para procurar outros conselhos mais próprios para fazê-la morrer a si mesma, não poderei deixar de ceder a Deus, só por amor do qual estamos unidos. Mas a Sra. não quer mudar senão para aliviar o seu amor-próprio, senão para se
entregar aos seus vãos escrúpulos, e para cair numa verdadeira infidelidade resistindo ao atrativo de Deus. Só escute o fundo do seu coração e o espirito de morte a si mesma; e então reconhecerá, primeiramente, que o pensamento dessa mudança é uma manifesta tentação e um
despeito violento; e depois verá que é só por delicadeza e vaidade que a Sra. quer mudar. Todo diretor esclarecido que a. Sra. fosse procurar e a quem dissesse nitidamente o verdadeiro fundo do seu coração, deveria. reenviá-la àquele que a Sra. só quer deixar para se subtrair à operação
de morte que ele deve operar na. senhora.
A Sra. é como uma pessoa que retira o seu braço no momento em que o cirurgião enterra nele a lanceta: é querer fazer-se aleijar. S. Paulo diz: "Aquele que se subtrai não agradará à minha alma" (Beb 10, 38) .
Noutro lugar, Fénelon. diz: "Mudar de diretor é assenhorear-se da direção a que
se deveria estar sujeito. Uma direção assim variada já não é uma direção; é uma
indocelidade que em toda parte procura lisonjear-se a si mesma. A mais severa de
todas as penitências é a humilhação intima do espirito; é a renúncia a se crer
e a se escutar; é a humilde dependência do homem para com Deus; é a pobreza de
espirito que, segundo o oráculo de Jesus Cristo, torna o homem bem-aventurado.
Do contrário, converte-se a mortificação em aumento secreto do amor-próprio.
Mister se faz, pois, que a alma escrupulosa se fixa, cative o seu espirito com fé na
bondade de Deus, e obedeça com simplicidade; é essa a fonte da paz" (Carta 113) .
AS TENTAÇÕES OU OS SENTIMENTOS INVOLUNTÁRIOS NUNCA DEVEM IMPEDIR A COMUNHÃO. (CARTA 408)
A tentação e o sentimento Involuntário nunca devem Impedir a comunhão, minha carissima filha. Como! pelo fato de a Sra. ter o coração dilacerado por sentimentos injustos que a Sra. não quereria
ter, há-de privar-se de Jesus-Cristo? Oh! não é no tempo da provação que se deve procurar o socorro d'Ele? não é na dor que se deve recorrer à verdadeira consolação?
A Sra. confessara que "se afastou e que refletiu nisso; de sorte que, de reflexões
em reflexões, liquidou com toda confiança em Nosso Senhor". Está vendo o fruto
das suas reflexões. Quer continua-las para se precipitar no desespero? As reflexões
conduzem-na ao precipício; a fidelidade em deixa-las cair é o seu único recurso.
Que é que M. poderá dizer-lhe? tirar-lhe-á o ciúme do coração como se tira um espinho do pé? torna-la-a paciente, para sofrer sem perturbação o ciúme? ensinala-a a distinguir com segurança os sentimentos involuntarios de ciúme dos de ciúme voluntario? Ele não pode fazer nenhuma destas coisas. Se a Sra. quiser, falaremos com ele, a Sra. e eu, e verá que ele ficara na necessidade de lhe dizer precisamente tudo o que eu lhe digo. A Sra. não se curará confessando-se, pois
a confissão não lhe tirará o ciúme que a perturba; não acalmará nem as suas dores nem os seus escrúpulos; dela só lhe ficará uma ocupação inquieta de si mesma.
" Várias vezes tem-me a Sra. confessado que a perturbação nunca lhe vem senão depois de haver a Sra. longo tempo escutado o tentador em si mesma. Assim, a paz está nas suas mãos; é a Sra. mesma quem tira a si essa paz. Quando a perturbação chega a um certo grau, a Sra. não
pode mais nem fugir dela nem se possuir; é preciso que Deus dê um golpe de autoridade sobre o seu coração, para mandar aos ventos e à tempestade. Tudo o que a Sra. imagina é como o sonho mais oco e mais extravagante; mas Deus permite que uma cabeça naturalmente ótima tenha essa espécie de sonho, para puni-la de se haver escutado a si mesma, para se convencer do excesso do seu amor próprio e para reduzi-la a uma inteira renuncia a si mesma. A tentação terá o seu fruto.
Compadeço-me dos seus sofrimentos; respeito a provação de Deus. Nada me cansa;
a unica pena que eu tenho é não poder curar a sua. Una-se àqueles que a amam e que a trazem incessantemente no seio de Jesus Cristo. Vou ao altar colocá-la nos braços d'Ele" .
PROPORCIONAR AS PRÁTICAS DE PIEDADE ÁS
FORÇAS DO CORPO. (CARTA 297)
"Compreendo bem, minha senhora, que só devo pensar em consolá-la e em curá-la; porém qual o meIo de fazê-lo, se a Sra. se abandona sempre aos seus fervores e aos seus escrúpulos às expensas da sua fraca saúde? Quantas vezes tem-me a Sra. prometido maravilhas! Mas está sempre
recomeçando e, recomeçando, se exaspera.
Tenho o desprazer de vê-la matar o seu corpo e fazer definhar sua alma, contra
o verdadeiro atrativo da sua graça. Já que a Sra. está persuadida de que Deus
quer que a Sra me dê crédito, por que então não faz escrúpulo de transgredir as regras que lhe tenho dado, ao passo que a todo momento faz escrúpulos sobre
nadas que a perturbam? Que se pode fazer de sólido quando o fundamento da docildade falta? ...
"A Sra. se equivoca procurando a contratempo as mortificações corporais: não é isso que Deus pede da Sra.viva, é a sua imaginação demasiado viva, e não o seu corpo, que é preciso enfraquecer. A menor docilidade contra os seus escrúpulos fá-la-ia mais morrer a si mesma do que
todas as austeridades. Passar por cima dos seus vãos escrúpulos seria o holocausto
do seu coração. É o que é mais agradável a Deus.”
UTILIDADE DAS PRIVAÇÕES E DAS SECURAS. (CARTA 294)
"Sou sensivel à sua pena, e compreendo que as privações são muito amargas quando se está acostumado a sentir os dons de Deus. Mas as privações têm um não sei quê que põe Deus mais avante no coração quando Ele parece afastar-se. Bem mais facilmente se vê o que está na pele
do que o que está nas carnes; as superficies são mais aparentes e menos reais.
Deus não vai ocultar-se longe para nos alarmar; Ele nunca está tão bem oculto
como quando se oculta no fundo do nosso coração. O que eu temo das privações não
é a secura e a amargura que elas lhe deixam, pois é preciso sofrer para ir deveras ao Bom Deus; mas receio aquilo que causa as privações, quero dizer as pequenas infidelidades pelas quais a Sra.
as atrai para se aliviar nos seus escrúpulos. Se a Sra. não seguisse as suas reflexões escrupulosas, a sua simplicidade mantê-la-ia- em paz, a sua paz conservaria a oração, e a sua oração seria a sua vida.
Volte o seu escrúpulo contra as suas investigações escrupulosas, que são infidelidades contra a sua graça. Quanto ao estado de secura e de privação sensível, é preciso acostumar-se com
ele; fica-se muito à vontade e serve-se a Deus de modo bem barato quando Ele se
faz sentir; uma mãe afaga menos os filhos grandes do que os pequenos".
COMBATER OS ESCRÚPULOS INDO A DEUS COM
UMA CONFIANÇA E UMA SIMPLICIDADE SEM
RESERVA. (CARTA 254) .
"Estou encantado, minha senhora, não somente com o que Deus faz no seu coração, como também com o começo de simplicidade que Ele lhe dá para mo confiar. Quisera que a Sra. fosse tão simples
nas suas confissões quanto o é na sua oração. Mas Deus faz a sua obra pouco a pouco; essa lentidão com que Ele opera serve para nos humilhar, para exercitar a nossa paciência a respeito de nós mesmos, para nos tornar mais independentes d'Ele. Cumpre, pois, esperar que a sua
simplicidade cresça, e que se estenda insensivelmente até sobre a maneira como
a Sra. se confessa, e onde vejo que a Sra. dá demasiadamente ouvidos às suas reflexões escrupulosas.
Não há nenhum inconveniente em que a Sra. vá à comunhão, sem se confessar, nos dias de comunhão em que não tem nenhuma falta assinalada depois da última confissão; é o que
lhe pode acontecer nos curtos intervalos de uma confissão à outra. Deus quer que sejamos livres com Ele, quando só a Ele buscamos; o amor é familiar; mostra-se ao bem-amado em todos os seus primeiros movimentos. Quando ainda se têm reservas a respeito d'Ele, é que há no coração algum outro amor que condivide, que retém, que faz hesitar; a gente não se volve tanto sobre si com inquietação senão pelo fato de querer conservar algum outro afeto e de limitar a união com o Bem-Amado. A Sra. que conhece tanto. as delicadezas da amizade, não sentiria as reservas de uma pessoa para com quem não tivesse nenhuma, e pessoa essa que medisse sempre a sua confiança, para
nunca a deixar ir além de certos llmites?
Então não deixaria a Sra. de dizer a essa pessoa: "Eu não sou como você é comigo; eu não meço nada, mas sinto que você mede tudo. Você não me ama como eu a amo e como você deveria amar-me". Se a Sra., criatura indigna de ser amada, quereria uma amizade simples e
sem reserva, quanto mais o Esposo sagrado está no direito de ser cioso! Seja, pois,
fiel em crescer em simplicidade. Não lhe peço coisas que a perturbem ou que a constranjam; fico contente desde que a Sra. não resista ao atrativo de simplicidade, e que deixe cair todos os rodeios
inquietos que a ele são contrários, mal os perceba. Siga livremente o pendor do seu
coração quanto às suas leituras; e, a respeito da oração, que a esposa não seja acordada até
acordar por si mesma. Nisso, poupe só a sua saúde, que pode sofrer nesse exercicio, embora o gosto interior a impeça de notá-lo. Divirta um pouco a sua imaginação e os seus sentidos, quando sentir que tem necessidade de alguma pequena ocupação exterior que os alivie.
Esses divertimentos inocentes não perturbarão então a presença amorosa de Deus ... Confie, pois, em Deus, e não olhe senão só a Ele; Ele é o bom amigo cujo coração será sempre infinitamente melhor do que o seu. Desconfie de si mesma e não d'Ele; Ele é cioso, mas o ciúme é um
grande amor, e nós devemos ser ciosos d'Ele contra nós, como Ele próprio o é.
Confie no amor; ele tira tudo, mas dá tudo; não deixa nada no coração a não ser
ele, e não pode sofrer nada nele; mas ele sómente basta para saciar, e ele sozinho
representa todas as coisas. Enquanto o degustamos, ficamos lnebriados de uma
torrente de volúpia, que entretanto não passa de uma gota dos bens celestes; o
amor degustado e sentido arrebata, transporta, absorve, toma indiferentes todas as
destituições; mas o amor insensivel, que se oculta para destituir a alma por dentro, martiriza-a mais do que mil destituições exteriores. Deixe-se agora inebriar nos celeiros do Esposo".
SOBRE A VIDA DE FÉ, O DESAPEGO E A PAZ
INTERIOR. (CARTA 192)
"Estou voltando de uma longa viagem para visitas; achei a sua carta de 30 de Agosto, à qual respondo.
1.0 Ande nas trevas da fé e na simplicidade evangélica, sem se deter nem no
gosto, nem no sentimento, nem nas luzes da razão, nem nos dons extraordinários.
Contente-se com crer, com obedecer, com morrer a si mesma, segundo o estado de
vida em que Deus a colocou.
2.0 Não deve desanimar por causa das suas distrações involuntárias, que só vêm
da sua vivacidade de Imaginação e do hábito de pensar nos seus afazeres; basta
que não dê lugar a essas distrações que ocorrem durante a oração, dando-se uma
dissipação voluntária durante o dia. As vezes a gente se expande em demasia;
fazem-se mesmo boas obras com excessiva solicitude e atividade; seguem-se demais os próprios gostos e consolações; Deus pune isso na oração. É preciso acostumar-se a agir em paz, e com uma continua dependência do espírito da graça, que é um espírito de morte a todas obras
as mais secretas do amor-próprio.
3.0 A intenção habitual, que é a tendência do fundo para Deus, basta. E' andar na presença de Deus; os acontecimentos não a achariam nesta situação se a Sra. nela não estivesse. Fique em paz, e
não perca aqullo que a Sra. tem em si, para correr ao longe atrás daquilo que não acharia. Acrescento que nunca se deve descurar, por dissipação, o ter uma intenção mais distinta: porém a intenção que não é distinta e desenvolvida é boa.
4.0 A paz do coração é um bom sinal, quando aliás se quer, de boa fê, obedecer
a Deus por amor, com ciúme, contra o amor-próprio.
5,0 Aproveite as suas imperfeições para se desapegar de si mesma, e para se apegar só a Deus. Trabalhe por adquirir as virtudes, não para achar nelas uma perigosa complacência, mas para fazer a
vontade do Bem-Amado.
6.0 Fique na simplicidade, cortando com os rodeios inquietos sobre si mesma, que
o amor-próprio fornece incessantemente sob belos pretextos; eles só fariam perturbar a sua paz, e armar-lhe ciladas. Quando se leva uma vida recolhida, mortificada e de dependência, pelo verdadeiro desejo de amar a Deus, a delicadeza desse amor censura interiormente tudo o que o
magoa; é mister deter-se pura e simplesmente desde que se sente essa mágoa e essa censura no coração. Repito, fique em paz; rogo a Deus todos os dias, no altar, que a mantenha em união com Ele e na alegria do seu Espirito Santo. Sou-lhe dedicado com verdadeiro zelo".
SOFRER A TIBIEZA E OS PRÓPRIOS DESGOSTOS.
ORAÇÃO DE SILÊNCIO. (CARTA 131)
"Não me admiro da sua tibieza. Não se está sempre em fervor; Deus não permite que este seja continuo; é bom sentir, por desigualdades, que isso é um dom de Deus, que Ele dá e retira como lhe
apraz. Se estivéssemos incessantemente em fervor, não sentiríamos nem as cruzes nem a nossa fraqueza; as tentações já. não seriam tentações reais. Cumpre sejamos provados pela revolta interior da nossa natureza corrompida, e que o nosso amor se purifique pelos nossos desgostos.
Nunca nos apegamos tanto a Deus como quando a Ele não nos apegamos mais pelo prazer sensivel, e como quando permanecemos fiéis a uma vontade toda nua, estando pregados na cruz. As penas exteriores não seriam verdadeiras penas se fossemos isentos das interiores. Sofra, pois, com paciência os seus desgostos, e eles lhe serão mais úteis do que um gosto acompanhado de confiança no seu estado.
O desgosto sofrido por uma vontade fiel é uma boa penitência; humilha, põe em
desconfiança de si, faz sentir o quanto somos frágeis, faz recorrer mais amiúde
a Deus. Eis aí grandes proveitos. Essa tibieza involuntária, e essa inclinação para
procurar tudo o que pode lisonjear o amor-próprio, não devem impedi-la de comungar.
"A sra. quer correr atrás .de um gosto sensivel de Deus, gosto que não é nem
o seu amor, nem a oração. Tome esse gosto quando Deus lho der; mas, quando
Ele não lho der, goste e trate de fazer oração como se esse gosto não lhe faltasse; Já é ter a Deus o esperar por Ele.
Alias faz a Sra. muito bem em não pedir a Deus os gostos e as consolações senão
na medida em que a Ele aprouver darlhas. Se Deus quiser santificá-la pela privação desses gostos sensiveis, deve a Sra. conformar-se com os seus designios de misericórdia e suportar as securas; elas servirão ainda mais para torná-la humilde, e para fazê-la morrer a si mesma, o
que é a obra de Deus.
As suas penas só vêm da Sra. causa-as a Sra. a si mesma escutando-se a si.
É uma susceptibilidade de amor-próprio que a Sra. alimenta no seu coração enternecendo-se sobre si mesma. Em vez de carregar fielmente a cruz, e de cumprir os seus deveres suportando o fardo de outrem para ajudá-lo a suportá-lo, e para reerguer as pessoas que Deus lhe confia,
a Sra. fecha-se em Si mesma e só se ocupa do seu desânimo. Espere em Deus, Ele
a sustentará e a tornará útil ao próximo, desde que a Sra. não duvide do socorro
d'Ele e não se poupe nesse trabalho.
Resguarde-se bem de interromper a sua oração, pois com isso faria a si um mal
infinito. O silêncio de que a Sra. me fala é-lhe excelente; todas as vezes que a Sra .
.sentir atrativo para isto, sala dele para se ocupar de verdades mais distintas,
quando para tal tiver facilidade e gosto. Mas não tema esse silêncio quando, com
a continuação, ele operar em sua pessoa uma atenção mais fiel a Deus, no resto
do dia. Fique livre com Deus da maneira como puder, contanto que a sua vontade
esteja unida. a Ele e que a Sra. procure em seguida fazer a vontade d'Ele à custa
da sua".
ESPERAR SEMPRE EM DEUS APESAR DA PRÓPRIA
INDIGNIDADE. (CARTA 213)
" ... Não receie, pois, minha senhora, que as suas infidelidades passadas a tornem
Indigna da misericórdia de Deus. Nada é tão digno da sua misericórdia como uma miséria. Ele veio do céu à terra· para os pecadores, e não para os Justos; veio procurar o que estava perdido, e tudo estava perdido: o médico procura os doentes, e não os sãos. Oh! como Deus ama aqueles
que se apresentam afoitamente a Ele com seus andrajos os mais sujos e mais rotos,
e que lhe pedem, como a seu pai, uma veste digna d'Ele! A Sra. espera que Deus
lhe mostre um semblante doce e risonho para familiarizar-se com Ele; e eu, eu
digo que, quando a Sra. lhe abrir simplesmente o seu coração com inteira familiaridade, então já se não preocupará com o semblante com que Ele se lhe apresenta. Mostre-lhe Ele tanto quanto lhe
aprouver um semblante severo e irritado, deixe-o fazer; Ele nunca ama tanto como
quando ameaça; porquanto Ele só ameaça para experimentar, para humilhar, para
desapegar. Acaso é a. consolação dada por Deus ou é o próprio Deus sem consolação
que o seu coração procura? Se é a consolação, então a Sra. não ama a Deus por
amor d'Ele mesmo, mas por amor de si;
neste caso, nada merece d'Ele. Ao contrário, se a Sra.. procura a Deus puramente,
achá-lo-á ainda mais quando Ele a. prova do que quando a consola. Quando Ele
a consola, a Sra. tem a recear apegar-se mais às suas doçuras do que a Ele; quando Ele a. trata. rudemente, se a Sra. não deixa de ficar unida a Ele, então é só a
Ele que a Sra. tem apego. Ai! minha senhora, como as pessoas se enganam! embriagam-se com uma vã consolação quando são sustentadas por um gosto sensivel, imaginam já serem arrebatadas ao
terceiro céu, e nada fazem de sólido; mas, quando estão na fé seca e nua, então se
desalentam, acreditam que tudo está perdido. Na verdade, é então que tudo se aperfeiçoa, desde que não desanimemos.
Deixe, pois, Deus fazer; não lhe compete regular os tratamentos que a Sra. deve
receber d'Ele; Ele sabe melhor do que a Sra. o que lhe é preciso. Bem merece a
Sra. um pouco de secura e de provações: sofra-as pacientemente. Deus faz do seu
lado o que lhe convém quando a repele; do seu lado, faça a Sra. também o que
deve, que é amá-lo sem esperar que Ele lhe testemunhe qualquer amor. O seu
amor lhe responderá pelo d'Ele; a sua confiança desarmá-lo-á, e converterá os
seus rigores em cartelas. E, ainda quando Ele não devesse abrandar-se, a Sra.
deveria abandonar-se à justa direção d'Ele, e adorar os seus designlos de fazê-la expirar na cruz ao desamparo com Jesus seu Filho bem-amado. Eis aí, minha senhora, o pão sólido de pura fé e de amor generoso com que a Sra. deve nutrir a sua alma. Rogo a Deus que a torne robusta e vigorosa nas penas. Não tema nada, seria faltar à fé o temer; espere tudo, tudo
lhe será dado: Deus e a paz serão com a senhora".
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