XIII. DA PAZ INTERIOR

XIII. DA PAZ INTERIOR

1.0 A SUA EXCELÊNCIA

 

Num excelente Tratado sobre a paz interior, o P. Ambrósio de Lombez diz que toda a nossa piedade só deve tender a nos unir a Deus pelo conhecimento e pelo amor, a fazê-lo reinar em nós pela nossa

dependência absoluta e continua, por uma fiel correspondência ao seu atrativo interior e a todos os seus movimentos, enquanto aguardamos que Ele nos faça reinar consigo na sua glória. Ora, sem a paz interior não podemos possuir todas essas vantagens senão imperfeitamente. A perturbação Interrompe as nossas meditações; então a nossa alma, enfraquecida, só se eleva a Deus com esforço, e os violentos abalos que ela sofre alteram muito em nós a tranquilidade e a solidez do seu

reinado. o nosso coração é sempre o trono d'Ele, porém um trono vacilante, ameaçado de ruina próxima; é a sua sede, mas uma sede mal segura, onde Ele não pode achar o repouso. Por isto o profeta diz que Deus habita na paz: Factus est in pace locus ejus (SI 75, v. 2)

 

E, continuando, diz ainda o mesmo Padre que não é que Ele não habite também na

alma do justo agitado; mas está nela como um estranho, porque a confusão que

nela reina não lhe permite conversar familiarmente com ela, e porque a agitação que e1a sofre anuncia que a permanência d'Ele nela será de pouca duração. Daí fácil é concluir quão excelente e necessária é essa paz da alma, e como se deve banir a agitação e a perturbação que

os escrupulos nela introduzem.

 

1.0 A paz Interior dispõe-nos para as comunicações divinas, e ao mesmo tempo

dispõe Deus a no-las conceder, pois Ele gosta de falar à alma na calma, na solidão, na liberdade. Então a sua voz harmoniosa faz-se ouvir melhor, a sua graça opera, ilumina, Inflama, revolve e

conduz como quer. Mas, se a perturbação forma como que uma nuvem espessa que nos furta uma parte dessa Luz celeste, se o ruido confuso das agitações e das perturbações interiores impede de ouvir a voz do Espirlto divino, então a sua ação é neutralizada, e a nossa alma, por sua vez,

é privada desses preciosos favores que tanto a ajudariam no cumprimento do bem.

 

2.0 Como, então, discernimos os movimentos que Deus opera em nós daqueles que não vêm d'Ele? Só na paz é que a alma pode fazê-lo, porque então está recolhida, atenta, e no ponto de vista verdadeiro para esse discernimento. Ao passo que, quando deixamos entrar a dissipação,

as angústias, a perturbação que o espirito de malicia nela entretém, é lmpossivel ser bem sucedido nisso. Oh! diz o P. Lombez, quantos escrúpulos eliminados, quantas ilusões dissipadas, quantas falsas devoções retificadas, se nunca saíssemos dessa paz que nos leva a Deus sem ruido

e sem perturbação, e, ao menos, se tivéssemos por suspeito tudo o que pode alterar

a doçura dela!

 

 

3.0 De que socorro não é ainda a paz interior para lutarmos com vantagem contra o Inimigo da salvação e triunfarmos das tentações! Quando se vela no interior da casa, quando se tem luz, quando

se está forte e armado, não se teme a surpresa do inimigo; assim também,

quando a alma está recolhida, atenta sobre o seu interior, quando se possui, quando está esclarecida pelas luzes do Espirito Santo, da Sagrada Escritura e dos prudentes avisos do diretor, quando empunha as armas da salvação, esse gládio de que o arcanjo se serviu contra Lúcifer, Isto é,

a oração, não pode a alma ser surpreendida pelo Inimigo, nem vencida pela tentação. Ao contrário, a perturbação, lançando em nós a confusão, como no meio de um exército em desordem, desconcerta-nos, abre as portas ao inimigo, faz-nos esquecer as armas, e então somos fáceis de vencer. O grande segredo, nos perigos em geral, e nestes em particular, é possuir-se.

 

4.0 Mas é pela calma da alma que podemos sobretudo fazer progressos no conhecimento de nós mesmos, conhecimento este indispensável para progredirmos na humildade e na abnegação de nós mesmos. Ora, este estudo não pode fazer-se senão ao favor da paz da alma: numa água tranquila e clara distinguem-se os mais pequenos grãos de areia; e na alma tranquila percebem-se também as mais leves faJtas. Então nos vemos tais quais somos, conhecemo-nos e desprezamo-nos,

porquanto conhecer-se e desprezar-se são duas coisas inseparáveis: daí nasce a humildade, fundamento de todo edíficio interior.

 

5.0 Outra vantagem bem preciosa dessa paz Interior é a facilidade que dela retiramos para nos recolhermos Sem dúvida, a presença de Deus, a atenção à oração, os pensamentos graves e sérios contribuem poderosamente para nos recolhermos; mas a paz da alma é para isto um meio mais direto e mais eficaz. Quem diz paz, calma, tranquilidade interior, diz recolhimento;

porquanto, se é verdade que a dissipação provém do espirito e do coração, só da

paz da alma se pode esperar o recolhimento.

 

 

6.0 Digamos, enfim, que ela produz nos nossos corações delicias inexprimiveis, que

ela nos desgosta dos bens sensiveis e dos prazeres insulsos deste mundo, para nos

fazer degustar as coisas espirituais e celestes; que nos faz saborear as doçuras que

se respiram no serviço de Deus, nos dá uma conduta uniforme, doce, modesta,

tranquila, Ingênua, que faz sentir o encanto da virtude aos homens que estão

distanciados dela, os leva a amá-la, a honrar a piedade, a respeitar a religião e a glorificar Deus.

 

A paz da alma é, pois, algo de inteiramente divino; é como que a alma da piedade, o manancial das graças e das consolações, a felicidade desta vida, o titulo mais seguro às predileções de Jesus Cristo,

que diz: "Felizes os pacificos, porque serão chamados filhos de Deus". E' um meio poderoso de obter a paz futura, pois ela firma em nós o reino de Deus, dispõe para as comunicações divinas, favorece o discernimento dos movimentos sobrenaturais, repele as tentações, ajuda-nos a nos reconhecermos, dá-nos a simplicidade, secunda o recolhimento, enche-nos enfim de

Inefáveis doçuras, de merecimentos e de bens.

 

Se tais são as vantagens e a excelência dessa paz, não é de admirar que o demónio se encarnice em perturbá-la e em destrui-la em nós, e, pelo contrário, de admirar seria que não estivéssemos prontos a superar tudo para obtê-la e possui-la. Vejamos, pois, em poucas palavras, os obstáculos que se opõem a esse reinado bem-aventurado da paz em nossas almas.

 

 

2.0 OBSTÁCULOS Á PAZ DA ALMA, E MEIOS DE VENCÊ-LOS

 

ALEGRIA EXCESSIVA

 

O primeiro obstáculo à paz Interior consiste numa alegria inconsiderada que nos

dissipa por dentro, que nos atrai por fora, que, por assim dizer, dispersa o nosso

coração aqui e acolá, por todas as partes, e o deixa vazio de recolhimento. Esta alegria bane o recato, muitas vezes destrói a modéstia, dá entrada a todos os objetos exteriores, abrindo as portas dos sentidos a tudo o que vem feri-los. E' preciso fugir dessa alegria excessiva, porque, num

instante, ela faz perder os mais doces frutos de um longo recolhimento.

 

A NOSSA TRISTEZA

 

Mas, como em todas as coisas os extremos são semelhantes, devemos assinalar

um outro obstáculo não menor a essa paz, o qual é a tristeza ou a melancolia,

o humor sombrio. Quem não terá experimentado às vezes o quanto essa tristeza

faz perder a calma desde que reina no coração! A tristeza desgosta a pessoa, torna-a impaciente, suspeitosa, turbulenta, não menos insuportável aos outros do que a si mesma. Nesse estado, parecemos sepultados debaixo das ruinas do edificio interior; não mais amor, não mais zelo,

não mais coragem; arriamos, parecemos rastejar, tudo fica embotado nos talentos da natureza e da graça; um sombrio véu de tristeza difunde-se por toda parte em nós, sobre a nossa fisionomia como

sobre o nosso coração. Quem não vê os efeitos perniciosos dessa negra tristeza?

Apressemo-nos a exilá-la para longe de nós, a combatê-la se ela se obstinar; com ela não podemos nada e ela basta para estragar tudo.

 

O sensato meio termo, pois, no qual consiste e pelo qual se conserva a paz, é

moderar a alegria excessiva e reprimir a tristeza desde o seu nascimento: porquanto, se as deixarmos fazer progressos, diflcil será recuperarmos a tranquilidade O sensato meio termo, pois, no qual consiste e pelo qual se conserva a paz, é moderar a alegria excessiva e reprimir a

tristeza desde o seu nascimento: porquanto, se as deixarmos fazer progressos,

diflcil será recuperarmos a tranquilidade da alma. "Alegremo-nos no Senhor", segundo a exortação do Apóstolo, mas seja a nossa alegria tranquila e modesta, antes no interior do que no ruido das palavras, no espoucar dos risos, na leviandade e na dissipação. Tenhamos a salutar tristeza do

pecado, do nosso desterro, do progresso aflitivo do mal mas temperemos a negra tristeza que vem do coração pela doce alegria inspirada pela confiança, pela ternura, pela experiência da bondade de

Deus, e que torna a virtude tão amável a todos os olhos.

 

ZELO DEMASIADO VIVO

 

Outro obstáculo a essa paz é um zelo

demasiado vivo, demasiado caloroso, por demais impetuoso, e que não segue bastante a prudência. e a. reflexão. O possuido desse zelo é pronto em empreender tudo o que é bom ou que parece sê-lo, ardente em executá-lo, impaciente de lhe ver o fim; deixa-se levar aos extremos com a

maior facilidade. Se quer tomar o partido da solidão, é uma coruja. que ninguém vê

mais; se toma. o gosto de se exibir para fazer boas obras, corre, vagueia incessantemente por aqui e por acolá, sem se conceder um instante de repouso. Não prossigo a enumeração que poderia fazer sobre todos os outros pontos; não direi o que é esse zelo quando as faltas do próximo o

acendem, quando escândalos o inflamam; mas o que direi é que ele está longe de

ser o que deve ser para servir à mantença da paz da alma e mesmo, não raro, à edificação do próximo. Zelosos Impacientes e imprudentes, reprimamos pois os repentes, a precipitação, a perturbação; a agitação; demos um pouco. de tempo e de lugar à. reflexão, à. Sabedoria, à. prudência, e, por um movimento mais tranquilo, provemos que o nosso zelo discreto e doce

vem de Deus.

 

 

ATIVIDADE NATURAL

 

A atividade natural, que a principio poderiamos confundir com o zelo impetuoso,

é entretanto um obstáculo de outro género, posto que não menos merecedor de

ser combatido. Segui essas pessoas de um natural ardente; e achá-las-eis apressando-se, embaraçando-se a si mesmas, nunca fazendo as coisas bastante cedo nem a

seu gosto, elevando a voz em tom decisivo, não louvando nem censurando coisa alguma com moderação; mas, achando tudo excelente ou detestável, correndo, enfim,

ao invés de andar, e trazendo em toda a sua conduta os vestigios visiveis de uma

agitação inteiramente oposta à. paz interior da alma. Que devem fazer essas almas, infelizes é verdade, embora muito estimáveis e de modo algum culpadas? Aconselhar-lhes-emos amortecerem esse excesso de vivacidade, imitarem S. Bernardo e S. Francisco de Sales, que ambos triunfaram

de semelhante atividade; a velarem sobre a sua imaginação, a lhe moderarem os transportes, a se · aplicarem a uma grande calma mal percebem o seu próprio arrebatamento, e a não perderem

ânimo se esta empresa for dificil, pois com isso não poderá ela ser senão mais meritória.

 

Entretanto, aqui como no tocante à alegria excessiva, cumpre resguardar-se

bem de cair num extremo contrário, isto é, na displicência e na apatia; pois, aqui ainda, poder-se-la dizer que o remédio seria pior do que o mal. Deus nos livre de entendermos considerar aqui a indiferença estúpida e a languidez no serviço de Deus. "Maldito, pelo ,contrário, - dizem os Livros santos - aquele que faz a obra de Deus negligentemente"; falamos da posse de si mesmo, do sensato equilibrio das paixões, da regularidade, do repouso em Deus, e não de um sono vergonhoso no

selo da preguiça, da ociosidade ou da volúpia. Que os indolentes acordem, mas que os excessivamente ativos também se moderem: a paz acha-se no sábio meio termo desses dois excessos.

 

ESFORÇOS EXCESSIVOS

 

Outro obstáculo à paz interior é a maneira de resistir às tentações que às vezes nos perseguem. De feito, esforços excessivos, demasiada inquietação, exagerada agitação para se subtrair a certas

idéias, para combater certas sugestões do inimigo da salvação, alteram muito a paz

da alma. Há pessoas que ficam em tal tormenta, em tais convulsões, que as acreditariamos presa de furor ou de loucura. Não sabem que essa é uma péssima maneira de repelir a tentação, e que, ao

contrário, com isso elas só fazem é aumentar o perigo e produzir a perturbação e a

desolação na alma. A paciência, a calma, a vlgilância, a oração, a confiança em

Deus, a fuga das ocasiões, o desprezo das impressões que se podem experimentar, o

esquecimento quando a tentação desapareceu, são, consoante todos os mestres da

vida espiritual, os melhores meios e o maior recurso para isso. Assim a paz da

alma não é perturbada, e o inimigo, vendo-se repelido com uma calma firme, enérgica e constante, retira-se mais cedo.

 

OUTROS OBSTACULOS

 

Sem dúvida, ainda há outros obstáculos muito importantes a assinalar, mas que apenas citaremos, nâo podendo dar aqui maior extensão ao que achamos amplamente desenvolvido noutro lugar. Queremos falar, primeiro, do escrúpulo, que já fizemos conhecer em todas as suas relações e perigos; das amizades demasiadamente humanas, que nos prendem, nos

dissipam e nos sujeitam a concessões excessivas contra o atrativo interior, e não

raro mesmo contra a consciência; do pequeno amor-próprio que nos enche de

ideias importunas, de desejos impacientes, de reflexões tristes, de delicadezas exageradas, etc.; de certas devoções que nada dão menos do que a paz da alma, da maneira como são entendidas; de uma leviandade que muitas vezes nos faz sair de nós mesmos; das longas conversas que

dissipam; enfim, de tudo o que nos agita, nos perturba e pouco a pouco nos tira do

repouso que só em Deus podemos degustar; porque a serenidade da alma é fruto da regularidade, da fidelidade às regras da verdadeira e sólida piedade, sem exagero como sem ridículo. Passemos agora aos meios próprios para nos darem essa paz feliz e preciosa.

 

3. MEIOS DE ADQUIRIR A PAZ NA ALMA

 

1.0 A humildade

 

- Uma. alma. verdadeiramente humilde está sempre tranquila..

E que é que poderia. perturbâ-la? Os louvores? eles a surpreendem, mas longe estão de elevá-la. A censura e a exprobração? Longe de a abaterem, elas, pelo contrário, a rejubilam. A calúnia? Se ela tem horror a esta, nem por isto fica desconcertada com ela; a sua consciência tranquiliza-a S. Francisco de Sales diz que ela recebe as penas com doçura, sabendo que as merece; e recebe os bens com modéstia, sabendo que os não merece. Enfim, a humildade, em todas as situações

e ·em todas as provações da vida dá e conserva a paz da alma. Portanto, o primeiro cuidado para obter essa paz é formar-se na virtude da humildade. A razão disto é que ela mortifica as paixões mais do que qualquer outra virtude, e que as enfraquece todas tanto quanto elas devem

e podem ser destruídas.

 

2.0 A mortificação.

 

- Depois da humildade, a mortificação é um dos meios mais

eficazes e mais necessários. Quem não sabe que nada é mais oposto à vida Interior do que a vida dos sentidos? São duas Vidas inimigas: nenhuma paz no meio das agitações da cobiça; nenhuma calma interior enquanto durarem o comércio com as criaturas e a guerra dos sentidos. O

prazer retém a alma cativa na terra; amolenta-a, torna-a fraca, timida, inquieta, um nada a abala, perturba-a. Por isto o demônio se avém com os nossos sentidos para destruir a paz de nossa alma.

Cumpre, pois, opor-lhe a mortificação para desmanchar as suas conspirações contra nós. Pelo contrario, cumpre darmos à nossa alma a força que lhe emprestam os

trabalhos, o amor dos sofrimentos, das privações, das securas, das cruzes espirituais, a paciência nas provações, algum jejum, algumas outras mortificações, aquilo que a torna vigorosa, firme, lnabalavel, e assegura a sua tranquilidade: Debalde a alma sensual aspira ao repouso Interior:

só o achará na vitória dos sentidos e na sujeição destes ao espirito, pela mortificação.

 

3.0 Fidelidade aos seus exercicicis.

 

Quando se quer evitar os efeitos, mister se faz eliminar a causa; o que ordinariamente perturba as almas pusilâmines, como já dissemos, é a vista das suas numerosas infidelidades aos exercicios espirituais. Então convém suprimir este pretexto para mil perturbações, para mil escrúpulos:

cumpre acostumar-se a uma observancia exata das suas próprias práticas, não as

multiplicar de mais, porém observa-las exatamente; sem isso cai-sé nas perplexidades, nas apreensões e na confusão; daí nasce em muitos a perturbação da alma.

É preciso ser severo sobre a fidelidade aos próprios exercicios espirituais, mas

todavia sem uma rigidez que vá até à dureza. É preciso saber ceder prudentemente à necessidade e às conveniências: essa Inflexibilidade tresanda a capricho e a teimosia, diz o Padre Lombez, desonra a piedade, torna-a incomoda ao próximo, e as mais das vezes não passa do fruto do

amor-próprio. Ela é diretamente oposta à paz interior, que reclama essa maleabilidade, contra a qual todas as forças Interiores se amortecem sem choque e sem violência. E' preciso, sem resistência, sem despeito, sem mágoa, dobrar-se áquilo que a caridade, a humanidade, a razão exigem

de nós, intervindo mesmo, se preciso, na nossa regra de conduta. Mas tenhamos o

cuidado de não a afrouxarmos com demasiada facilidade; Isso já não seria uma

condescendência, seria uma verdadeira dissipação. Onde esta o espírito de Deus, ai

esta a liberdade, mas não a libertinagem, diz S. Francisco de Sales. Sejamos simples e maleávels, mas tenhamos força e consistência, não percamos o recolhimento, e teremos sempre a paz da alma.

 

4.0 Paciência nas distrações.

 

- Se sobrevêm distrações, que se deve fazer? Sofrê-las, e não se desalentar. Tomar fortemente tensa a imaginação é fatigar a cabeça inutilmente e alimentar a perturbação na alma. Devemos aplicar-nos, devemos dar toda a atenção possível aos nossos exercicios espirituais; mas devemos

fazê-lo sem inquietação, sem o temor continuo das distrações. Dá-se com a atenção

o que se dá com a intenção: a mesma subsiste até ser voluntariamente revogada.

Se o não o é, por que então nos afligirmos? Acaso somos senhores da mobilidade do

nosso espirlto? Está em nosso poder retê-lo? Não: isto seria tão imposslvel quanto pretender reter o ar apertando-o na mão. Devemos rezar com calma, com paciência, com paz, e não nos afligirmos se

estamos distraidos ou se o estivermos. Sem este meio, não hà repouso Interior.

 

5.0 Tranquilidade nos movimentos do coração.

 

- Assim como não podemos fixar a nossa mente a nosso talante, assim também não devemos pretender regular a nosso talante os movimentos do coração; seria conhecer mal a natureza deste o

pensar dar-lhe a determinação pelo movimento do corpo, e acreditar, por exemplo, que ele ama porque se enternece; esse enternecimento está só no sangue e nos órgãos, que nada são menos do que a sede do amor sagrado. Tudo é doce e moderado no serviço de Deus. Ele não exige

que a cabeça se fatigue, que o peito se esgote, que o coração se divida por esforços deslocados; e, por conseguinte, não devemos pôr a nossa mente em tortura para sujeitar a sua inconstância, nem o

nosso coração, por assim dizer, na prensa para espremer dele afetos. Esses

movimentos produziriam um efeito inteiramente contrário, porque o coração quer

estar folgado. Aquilo que às vezes acreditariamos sentir de amor de Deus e de

zelo pelo seu serviço, nada seria menos do que um ou outro, e assim não seria mais do que proporcionar-se a ilusão do espirito pelo tormento do corpo e da alma.

 

Não é a nossa própria satisfação que devemos procurar nesses movimentos do

coração, é só Deus: ora, Deus não pede de nós senão uma sólida preferência no nosso amor, um comportamento uniforme, a tranquilldade da alma, a pacifica submissão às ordens da sua providência, o zelo atento sem ser apressado, para cumprir as suas vontades com humildade, paciência e doçura.

 

6.0 Sofrer sem inquietação as aridezes.

 

- Efetivamente, longe .de procurar um gosto sensivel em afetos excitados com esforço, é preciso sofrer sem impaciência as aridezes e os tédios, e preferir sempre uma paz sólida fundada na firmeza das resoluções, a consolações passageiras não raro formadas pelo nosso natural terno,

ou concedidas como a contragosto à nossa excessiva fraqueza. Por isto, não são as

almas exercitadas nos segredos da vida interior que ae perturbam assim com as

aridezes, com as securas, e que procuram as consolações e as doçuras; não: quem

assim faz são só as almas fracas, ainda no limiar da perfeição e da vida espiritual.

 

Convenho em que é triste só cumprir os próprios deveres com um coração frio e

com um espirlto dissipado, voltar a eles sem zelo, e ser obrigado a arrastar neles o

coração como que à força, rezar sem recolhimento, meditar sem afeto, confessar-se

sem dor, comungar sem gosto, sofrer exteriormente sem ser aliviado interiormente;

sim, este estado é triste, repito, mas é propiciado com muita sabedoria pela Providência de um Deus que conhece perfeitamente os seus direitos, como conhece as nossas necessidades e os nossos interesses. Não sabeis que é ou para punir as vossas faltas ou para aumentar os vossos méritos que Ele vos retira as suas consolações? Se é para uma ou outra destas coisas, por que então vos queixardes?

 

Não sois culpado? Não tendes necessidade de adquirir um tesouro de méritos? Portanto, fiquemos em paz, pois nessas aridezes interiores não há nada que deva

lançar-nos na perturbação e no abatimento, e ainda menos na impaciência e na

murmuração.

 

7.0 O amor de Deus.

 

- Mas onde antes de tudo se deve ir buscar a paz Interior é no amor de Deus; é este o maior, o

primeiro de todos os meios. Quando a alma possui a Deus pelo amor, possui ao

mesmo tempo a paz, visto que Deus "é a nossa paz", diz S. Paulo; Ele é o centro da paz, e se torna o nosso próprio centro logo que o nosso amor se fixa n'Ele.

Quem não vê que quanto mais o amor de Deus aumenta, tanto mais o das criaturas diminui, tanto mais as paixões se amortecem, e tanto mais a paz se torna intima e sólida? o amor das criaturas

apaixona, inflama, transporta; mas o de Deus não é de natureza a perturbar; embora inflamando o coração, ele leva a este a calma, o gozo e o antegosto do amor Infinito para o qual ele é feito, e que é só o que poderá satisfazê-lo e fazê-lo feliz.

 

8.0 A conformidade com a vontade de Deus.

 

- Quando se tem o amor de Deus,

têm-se também a submissão a todas as disposições da sua adorável providência,

e essa submissão conserva-nos numa santa tranqullidade entre os mais incomodos reveses, e numa admirável igualdade no meio dos grandes movimentos e das cruéis vicissitudes desta vida. Eis ai, pois, um bom meio de se ser tranqullo e feliz: amar a Deus, e só querer o que Deus quer

e como Ele o quer. Aí, digo, está a calma, a fidelidade, a paz Interior.

 

9.0 A comunhão frequente.

 

- Outra fonte da paz interior acha-se na comunhâo.

Ai o "Príncipe da paz" dá-se com todos os seus bens, e é raro que ai não se sinta

a calma interior. As pessoas dadas à comunhão frequente são, geralmente, mais

tranquilas, mais senhoras de si mesmas, ou, se não o são, a culpa não é do sacramento. Vede a alma bem disposta, depois de receber a divina Eucaristia: que serenidade! que calma! que paz! Ora, sendo cada comunhão como que uma preparação para a outra, a comunhão frequente assegura a estabilidade da paz na alma.

 

10.0 A oração mental.

 

- Atribuindo à comunhão frequente o poder de pacificar a alma, não devemos esquecer a oração

mental, que é uma segunda comunhão sublime e angélica da nossa alma com Deus. Não podendo os outros meios mais eficazes subsistir sem a oração, é ai que Deus ilumina., asserena., fala, faz-se sentir e prepara, os grandes efeitos da comunhão.

Quem não terá sentido o quanto a oração tranquiliza. pouco a. pouco, e Introduz finalmente no santuário da paz? Esse silêncio, esse recolhimento que ela pede,

esse volver sobre si mesmo, essa contemplação das perfeições divinas, essas aspirações, essas resoluções, tudo contribui para. dar a paz. É este, pois, um meio poderosissimo, e que recomendamos com tanto mais insistência quanto, se se estiver privado da felicidade da comunhão

frequente, a oração pode de alguma sorte indenizar disso, e supri-lo com a comunhão espiritual. Com o Concilio de Trento desejariamos (sess. 22, c. 6) se pudesse comungar em todas as missas a que se assiste; mas, se não se puder ter esta ventura, pode-se ao menos recorrer à oração, o

principal meio de paz, sempre ao nosso dispor.

 

lsto é o bastante para indicar às almas animadas de boa vontade o caminho que

leva à paz Interior. E não vão elas depois imaginar que nunca a terão, que não podem chegar a tamanha felicidade. Se é Verdade que nunca se pode possuir neste mundo uma tranquilidade tão perfeita que nunca sofra a menor alteração, é verdade entretanto que se pode achar uma tranquilidade suficiente mesmo sendo meritória pelas provações que a atravessam algumas vezes.

 

O nosso inimigo é quem nos persuade que nunca teremos a paz; ele

quer abater a nossa coragem, mergulhar-nos na preguiça espiritual, e fazer-nos

abandonar tudo; mas desconcertemos-lhe a malícia por uma resolução firme e tranquila, sustentada pela confiança em Deus; comecemos com o socorro de Deus, reprimamos as nossas mais violentas paixões; empreguemos os meios já explicados, e depois tenhamos paciência; não procuremos

essa paz com um ardor e uma pressa que nos perturbem; não nos aflijamos com os

desgostos e com as vicissitudes que poderão nascer, desejemos as virtudes com

moderação e entreguemos tudo ao beneplácito de Deus. Desapeguemo-nos tanto

quanto possivel dos afetos terrenos; porquanto um coração dividido nunca terá a

paz. Depois, ajamos com uma santa liberdade interior; fujamos do espirlto de constrangimento; amemos, amemos ardentemente, e o Deus de paz estará conosco:

 

Et Deus pacis erit vobiscum.

 

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